A cobaia

Um grupo de convivas, de alta condição social, juntou-se no solar de um deles para esfandegarem um pantagruélico cabrito no forno.

Cabrito assado no forno

O dono do solar, andava porém desconfiado da criadagem, que ele muito maltratava, a pontos de o terem avisado de que algo se preparava contra ele e os convivas da sua laia que costumava trazer à quinta. Não lhe saía da cabeça que, a haver vingança, ela viria pela comida, tendo agora grande temor de que lhe tivessem envenenado o cabrito.
Colocando os convivas ao corrente das suas desconfianças, apresentou-lhes um plano infalível para verificar se algo de errado estava no suculento assado. Costumava passar por ali um mendigo e ele era a cobaia perfeita para verificarem se o cabrito estava contaminado.
Mal o mendigo foi avistado, logo o dono do solar o chamou e lhe ofereceu um prato com um bom pedaço de cabrito assado acompanhado de um naco de pão.
O mendigo agradeceu e foi para um canto do pátio degustar a refeição, espantado com a extravagância de um homem que normalmente apenas lhe mandava dar os restos.
Os convivas entretiveram-se bebendo vinho do porto e contando anedotas, esperando o tempo necessário a verificar se o petisco tinha feito mal ao mendigo, que permanecia sentado no canto do pátio.
Passadas duas horas, vendo que o mendigo se mantinha sereno, esculpindo a ponta de um pau com uma navalhinha, os amigos resolveram lançar-se ao petisco. Acompanharam o cabrito com batatinhas no forno, muito pão, e vinho tinto de reserva da quinta.
No final, brindou-se à saúde de todos, deram-se vivas à Velha Monarquia e escarneceu-se do governo do país. Seguindo o dono da casa, os comensais levantaram-se e foram para junto da janela, onde lhes seria servida uma boa aguardente velha.
Um pouco exaltados pelas libações, um dos convivas propôs ao anfitrião que, para divertimento de todos, se contasse ao mendigo, que permanecia no átrio, a partida que lhe haviam feito.
Chamaram pois o mendigo e, entre sonoras gargalhadas, revelaram-lhe que servira de cobaia e que era, afinal, um milagre ele ainda estar vivo.
O pobre e andrajoso homem ouviu tudo com atenção e no fim esboçou um enorme sorriso e disse-lhes:
– Ah! Eu bem sei o que por aí corre sobre a ideia de os criados desta casa envenenarem o patrão pela comida. Por isso só comi o pão. O cabrito tenho-o aqui metido neste bornal. Agora estou à espera do que lhes aconteça. Se daqui a duas horas os senhores não estiverem mortos, salto nele que é um regalo…
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(por Paulo Leitão Batista)

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