Casteleiro – A Serra d’Opa era o nosso encanto

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Quando eu era pequenito, olhar para a Serra e ficar a imaginar coisas era a situação mais normal. Poucas vezes me deixaram ir lá acima. Por isso, imaginava, imaginava… Depois li e soube que não era só eu: era toda a gente – e alguns escreveram muito sobre esse encanto automático, esse fascínio da Serra sobre cada um de nós.

Serra d'Opa no Casteleiro - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

Serra d’Opa no Casteleiro

A Serra

Para o Cura Leal, do Casteleiro (século XVIII), «esta chamada Serra d’Opa tem de comprimento quase duas léguas e de largura meia légua. Principia no limite do lugar da Moita no sítio da Cabeça Gorda e acaba num sítio que chamam Sam Dinis no limite do lugar chamado Benquerença, distante deste povo duas léguas. E a Serra chamada Serra da Preza terá de comprimento uma légua e de largura quase o mesmo. Principia no limite deste lugar e acaba no limite do lugar chamado Escarigo, distante deste lugar légua e meia».

Lenda

A lenda das três mouras encantadas contava que à noite estendem seus alvos lençóis no alto da Serra d’Opa.
A Serra trazia Muitas outras histórias.
Sempre com um misterioso ambiente de grandeza, riqueza, ouro.
Bem no alto, haveria três castros (pequenas fortificações lusitanas). Um deles, designado como Sortelha Velha, pode ver-se na foto obtida via Américo Valente, citado adiante.

Mula de ouro

As lendas populares falam muto de ouro, moedas de ouro, potes de ouro.
Pois para a Serra d’ Opa também se arranjou no Casteleiro uma história que mete ouro.
Reza assim: «No alto da Serra d’Opa, há um haver: uma mula de ouro com selim, freio e tudo. E quem a há-de encontrar é rabo de ovelha ou ponta de relha.»
Eu explico.
A mula tem os arreios todos: até selim e freio, portanto está completa e é muito valiosa.
E está ali mesmo à superfície. Reparem: quem a há-de encontrar é rabo de ovelha (ou seja: não é preciso arranhar muito o solo) ou ponta de relha (a relha é a parte do arado que rasga a terra – mas a relha não vai muito fundo, anda mais à superfície).
Portanto esta mula de ouro está mesmo ali à mão de semear…
É só ir buscá-la.

Serra d'Opa no Casteleiro - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

Serra d’Opa no Casteleiro

Mouras de tranças de ouro

Por seu turno, Lopes Dias, que era do Vale, conta a história das mouras encantadas que vivem lá no alto da Serra. Mas esta lenda não mete lençóis e sim tranças de ouro… Mais uma vez e sempre o ouro.
Mesmo não havendo tanto ouro assim, a verdade é que não falta lá, nas duas encostas da Serra, volfrâmio, estanho e quejandos minérios bem conhecidos, que na Segunda Guerra deram muito dinheiro a muitas famílias da zona.
Retomo Lopes Dias.
Destas mouras, conta ele que «no sitio da Penha, no cimo da Serra d’Opa (Vale de Lobo) lá vivem elas, lindas entre as mais lindas, escondidas entre enormes penedias, para uma só vez em cada ano — di-lo o povo — na noite de São João, saírem a estender preciosas meadas de ouro que guardam e que só entregarão a quem, naquela noite, à meia noite, apanhar a semente do feto real».
Mas ninguém se atreve.
«E por isso, lá entre penhascos, junto de enormes penedias, continuam encantadas, lindas, muito lindas mouras, de tranças de ouro, a guardar, pelos séculos dos séculos, grandes, enormes riquezas».

Grutas misteriosas e barulhos telúricos

Nem só de histórias vive o mito da Serra d’Opa: os visitantes falam também de minas, grutas profundas, buracos enormes pela rocha abaixo até às profundezas.
Num dos casos, contam-me até que lançavam uma pedra pelo buraco abaixo e que a mesma demorava muuuuito tempo a bater lá em baixo ou nem mesmo se ouvia a tocar no fundo. Sinal de que o buraco não tem fim.
Mais: ouve-se sempre lá no fundo um barulho parecido com o marulhar das ondas do mar. Até há quem diga que ali passa um braço de mar…

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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