Vento outonal

António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

Subi à Montanha Sagrada, um vento outonal despia as árvores das suas folhas bronzeadas, esse vento serrano transportou-me a um tempo passado, tempo de recordações vivas na alma, por isso torturantes.

Vento outonal - António Emídio - Capeia Arraiana

Vento outonal

Montanha Sagrada, és varrida por um vento outonal repleto de Saudade, esse vento transporta para a minha alma folhas que são recordações silenciosas de um tempo passado, tempo que já morreu, agora, Montanha Sagrada és um místico esconderijo de um ser que que chora de tristeza enquanto o crepúsculo lhe vai trazendo o fim, a minha presença em ti é incorpórea, é recordação de primaveras floridas, de verões que me enegreciam a pele, de caminhadas por entre as folhas caídas no outono, e de invernos de gélidos ventos. Ó paradisíaca pureza! Quero aqui agonizar! Quero agonizar ao mesmo tempo que agonizam os raios solares quando chega o entardecer, quero agonizar quando a noite cobrir com um manto de luar a Montanha Sagrada, quero agonizar na margem de um regato, quero acariciar aquelas águas cristalinas com as minhas já febris mãos, quero molhar os meus ressequidos lábios antes que o meu ser desapareça de todo e não possa chamar por ti, quero que a minha voz se sobreponha à voz do vento para que tu me ouças meu «velho» lobo, meu velho companheiro, meu cão amigo, quero ver-te surgir do infinito, da solidão da morte, lamberes as minhas mãos e a minha cara, depois, partirmos até à Paz Profunda e Eterna, através da já ténue luz da madrugada, ouvindo um Requiem cantado pelos anjos da natureza, as aves do Céu.

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«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

2 Responses to Vento outonal

  1. fernando capelo diz:

    Amigo Nabais
    Saboreie o teu texto, a tua linguagem poética. Não precisava de te dizer que gostei. Há momentos assim, em que a poesia, a saudade e a contemplação se misturam e descaiem para a melancolia. Mas haverá outros em que a poesia nos carrega a pilha e nos desafia a superar, a viver a vida intensamente.
    Aquele abraço.

  2. António Emídio diz:

    Amigo Capelo:

    A vida é irrevogavelmente finitude, por isso, o Homem é um Ser para a Morte, isto é um desfecho inevitável, tentamos muitas vezes não pensar nisto, o próprio Sistema passa a vida a dizer-nos que não há sitio para a morte nos tempos que correm ! Sempre me ensinaram, não só a nível religioso, que a morte é algo metafísico e sempre ligado ao que pode acontecer depois dela, para a modernidade presente, para o Homem moderno, indiferente a tudo o que não seja hedonismo, significa pura e simplesmente extinção física, mas para mim não ! Por isso me estou preparando para ela, não sei quando vem, sei simplesmente que virá um dia. Tenho-lhe medo ? Algum…É um sentimento natural, mas já lhe tive mais. Digo-te uma coisa amigo Capelo, estou mais preparado para morrer, do que ver morrer a minha mulher ou o meu filho…
    Se neste artigo escrevi sobre a Natureza e a minha morte, gostaria que ela chegasse junto a um regato, num lugar paradisíaco da Montanha Sagrada ( Serra da Malcata ) do que na cama de um qualquer hospital ligado a toda a espécie de máquinas possíveis e imaginárias, prolongando-me a vida e o sofrimento.

    Adeus amigo Capelo

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