Estadia hospitalar

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Estamos no último Domingo de Outubro e os relógios durante a madrugada atrasaram uma hora. Há quem defenda que os ponteiros dos nossos relógios recuarem uma hora é pouco; deviam recuar pelo menos uma década, para emendar as muitas e diversas asneiras que se fizeram neste País que, se ainda não lhe mudaram o nome, se chama Portugal.

Hospital

O Homem acorda pela manhã domingueira com o sol a lamber-lhe os pés. Vê-se deitado na cama 22, processo 6001579, número sequencial 63374, Medicina II, Dr. Garcia de Oliveira, um insigne e brilhante médico do Hospital da Cova da Beira, cuja fotografia está num dos corredores em jeito de agradecimento público.
Atónito, sem saber as causas de se encontrar doente, talvez um apagão na sua mente, está rodeado por quatro companheiros, um deles, do seu lado esquerdo, em coma induzido. Este Homem, na noite do último dia do mês de Outubro, depois de receber os últimos afectos das suas jovens e lindas filhas, entregará a alma a Deus. No Dia de Todos-os-Santos, na sua terra natal, realizar-se-à o seu funeral, indo engrossar a incalculável lista dos bem-aventurados do Reino, como nos ensina o Livro da Apocalipse.
Na cama do Hospital, o Homem encontra consolação na leitura de um jornal. Lê um texto sobre a “Peregrinação” de João Botelho, adaptação do livro de Fernão Mendes Pinto, e lembra-se dos seus tempos no seminário quando estudou essa obra literária. As descrições roçavam tantas vezes o inverosímil que o autor ganhou, entre os jovens, a alcunha de Fernão Mendes “MINTO”. Em todo o caso, todos aprendemos que a nossa vida é uma Peregrinação, nem sempre exemplar. O cineasta que a levou ao grande ecrã queixa-se dos poucos meios financeiros, o que o levou a adoptar a máxima do seu mestre Manoel de Oliveira: “se não tens dinheiro para filmares a carruagem, filma a roda, mas filma-a bem.”
O Homem vira a página. A Reforma Protestante iniciou-se há quinhentos anos, na Alemanha, quando Martinho Lutero afixou as suas 95 teses na Porta da Igreja de Wittenberg. A questão era bem concreta, insurgia-se contra a venda das chamadas cartas de indulgência, com as quais os crentes poderiam “comprar”, para os seus familiares defuntos, uma redução do sofrimento no Purgatório. A obtenção desses dividendos tinha a finalidade de financiar a construção da Basílica de São Pedro em Roma. São tantos os “pecados” que se escondem nas maiores obras…
O Homem salta páginas e verifica que a Reforma de Lutero nunca chegou ao mundo do futebol, é “dia das bruxas” todos os dias. O seu clube, com menos recursos que o Cinema Português, sai roubado do Algarve, essa região onde até um copo de água se paga.
O Homem está acamado mas o mundo não pára um segundo. Há grandes avanços tecnológicos na China, no Japão, nos EUA… milhões para financiar robôs, armas avassaladoras… Só não há tostões para minimizar o sofrimento de milhões. O Papa Francisco avisa: “a humanidade arrisca o suicídio em guerra nuclear entre os EUA e a Coreia do Norte.” Um Conselheiro do Governo Polaco alerta: “o digital tem vantagens, mas está a devorar a essência humana.”

Acamada no Céu está a Chuva, que meteu “baixa” há pelo menos seis meses. O Cardeal Patriarca de Lisboa já pede a Deus para abrir as comportas divinas, os agricultores não se conformam com envergonhados chuviscos.
Vencidas as páginas publicitárias, o Homem acha uma sensível e contundente crónica do amigo Bruno Ramos, Director de Comunicação da ADXTUR (Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto), no rescaldo dos fogos florestais que queimaram décadas de trabalho de muitos Homens e Mulheres. A propósito do Nosso Homem Manuel, o doente lê em voz alta o texto de Bruno Ramos para todos (enfermos, funcionários, médicos, visitas…) ouvirem: “O Manuel tem 70 e poucos anos e no seu terreno tinha uma horta e alguma criação, videiras das quais todos os anos espremia um orgulhoso vinho, oliveiras que tinha plantado com o seu pai e avô, e umas colmeias às quais podia ir em mangas de camisa porque as abelhas o conheciam desde sempre. Ali no seu terreno, ao lado da casa agora sem janelas e telhado caído, havia também um anexo onde guardava alfaias agrícolas e um curral para meia dúzia de cabras. Sobra uma que escapou miraculosamente, as outras foi dar com elas carbonizadas num caminho que sempre haviam feito e para o qual instintivamente fugiram sem perceberem que iam em direção ao abraço do fogo. Medronheiros também não há e cogumelos este ano decerto não vão nascer. Talvez nem nos próximos anos. E agora, o que vais tu comer, Manuel? Já não terás couves pelo Natal, por isso também não te deverá fazer falta o azeite para temperá-las, abundantemente como gostavas, vertido dos dois garrafões que as tuas oliveiras produziam todos os anos. A horta é cinza, a tua pele é fuligem, a paisagem silêncio. Mas lá fora há muito barulho, vindos do exterior sucedem-se os carros e fatos pretos de passou-bem consternado e flashes ruidosos, dizem muita coisa muito alto virados para as objetivas de costas para ti, e falam com gestos largos que não percebes. Não percebes, Manuel? Então não vês que vem aí a recuperação, os planos, as medidas e os séquitos técnicos, a sobranceria estratégica e a solidária condescendência? É a mobilização nacional, homem! São pessoas que nunca pensaram nisto e que agora pensam demais. Vamos, em frente, que agora é de vez! Estamos a trabalhar para o país, não podemos olhar só para a tua horta (…) Não percebes o que te digo, Manuel? Pois, não és moderno, não tens apps no bolso nem és um empreendedor resiliente — eras autónomo, mas isso hoje não é um chavão, não produz soundbite. A única coisa que sabes é quando podar e enxertar árvores, cultivar alimentos, fazer queijo e pão, falar com as abelhas e com as cabras, colher ervas para chás de diversas maleitas, levantar um muro de pedra e esculpir cepos, olhar o céu e provando o ar adivinhar o tempo que aí vem, pressentes os ciclos da terra e antecipas todos os seus animais, conheces os humores do rio e as zangas no café da aldeia, sabes que entre o céu e a terra estás tu e tudo o que deles em ti conflui para se renovar. Mas para que serve isso? Agora, para nada. No entanto, se tiveres sorte, talvez alguém esperto te integre na estatística de um qualquer projeto smart. Ainda melhor: talvez sejas chamado para mimicar frente a turistas uma destas coisas que sabias. É a moda e é melhor do que nada, que é o que agora tens, bem vistas as coisas. Aguenta lá a fome, engole as lágrimas e dá-te por feliz de estares vivo. Podias ter-te evaporado, que ninguém te vinha acudir. Sabes que isto de proteger pessoas e bens é uma maçada, importante é controlar o défice e sairmos do lixo, nem que para isso tenhamos de te atirar para lá a ti, Manuel”.
O doente regressará a casa, grato aos seus companheiros, pessoal médico e enfermagem, em particular à nossa Enfermeira escutista com raízes em Quadrazais. Conversar com ela é um dos raros privilégios do internamento hospital.
:: ::
«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

Deixar uma resposta