Casteleiro – A carreira: mais um ícone nosso

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Nunca é de mais repetir que quando eu era miúdo havia pontos de fixação da nossa vida diária na aldeia. A carreira era sem dúvida um atracção. À chegada da carreira íamos até ao Largo de São Francisco…

A Carreira no Casteleiro - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

A Carreira no Casteleiro

A camioneta da carreira. O seu motorista. Eis mais duas marcas de água daqueles idos de 1950/60. O Casteleiro, situado na estrada nacional, era ainda assim beneficiado por viagens diárias deste meio de transporte.
Posso garantir que as estradas mais usadas – embora muito pouco usadas, de facto – pelos habitantes do Casteleiro à época. seriam, por esta ordem:
– 18-3 (EN 18-3): Teixoso, Caria, Casteleiro, Terreiro das Bruxas;
– EN 233: Terreiro das Bruxas, Santo Estêvão, Sabugal, Pega, Barracão;
– Ramal Quintas do Espinhal-Belmonte.
Ou seja. Os trajectos Casteleiro-Sabugal, Casteleiro-Caria, Casteleiro-Belmonte.
De resto, uma ou outra pessoa, uma vez ou outra ia até à Covilhã ou até à Guarda. Pouquíssimos iam uma ou duas vezes na vida a Lisboa, talvez apanhando o comboio em Caria ou em Belmonte. E era tudo.
Isso, repito sempre, antes da emigração. Aí as coisas mudaram bastante.
Estou a falar de um tempo em que a acessibilidade das pessoas do Casteleiro às terras próximas era muito, mas muito reduzida e em que a sua capacidade de locomoção era ainda mais limitada.
Era uma época em que para se ir de casa aos terrenos, perto ou longe, os meios ao dispor eram: a caminhada (hoje já quase só com uma dimensão de desporto e saúde, mas, à data, algo bem mais usual e diário, por necessidade mesmo), às vezes em cima da burra, ou, para quem tinha, o carro de vacas. E era tudo.
Para se ir à Vila (hoje Cidade do Sabugal), onde se ia às feiras e onde se tinha mesmo de ir para lidar com o Estado, em sentido lato (a Câmara, as Conservatórias e as Finanças), em geral ia-se na camioneta da carreira:
– Vou na carreira.
A mesma carreira servia para se ir a Caria ou a Belmonte.
Raramente, ia-se de carro de aluguer (táxi).
Nos anos 60 começam a aparecer os carros dos emigrantes e tudo muda a partir daí.

A Carreira da «Viúva» - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

A Carreira da «Viúva»

O ícone da carreira

Mas este meio de deslocação, a carreira, foi uma marca de água daquelas terras naqueles tempos. Antes de mais, por ser um dos poucos sinais de que havia mais mundo. Mas mais ainda por ser o meio de se poder ir a algum sítio. Por necessidade. O motor de 90% das deslocações, estou convicto, era a necessidade: pagar as contribuições, comprar os remédios nas farmácias – coisas assim obrigatórias.
O mundo terminava onde terminava o circuito da carreira: Belmonte para um lado, Sabugal para o outro.
A carreira passava às tantas, para um lado e para o outro, como um pêndulo, devagar, longas horas de trajecto, de e para o Sabugal, de e para Belmonte.
A viatura, parecida com a da foto, se bem me lembro, era muito antiga, mas raramente avariava.
Era da Empresa de Transportes do Zêzere, creio.
O condutor (motorista) merece aqui uma referência específica: era o Ti’ Saraiva, gordo, de todos conhecido, bonacheirão, simpático, sempre na calma.
O Sr. Saraiva não tinha aquecimento no inverno nem arrefecimento no verão. Quando estavam 2 ou 3 graus era um drama naquelas viagens; quando estavam aqueles dias do diabo do pino do verão, era outro sarilho.
Como era é que era: tudo ao natural.
A hora de chegada da carreira era um momento alto no Terreiro de São Francisco (hoje Largo): muitos de nós, se não estávamos na escola, íamos dar de comer aos olhos – mesmo sabendo que pouco haveria para variar as vistas…
A camioneta da carreira dava para os mais velhitos irem espreitar alguma beldade e para para nós, os pequenitos, treinarmos o skate da época, que funcionava assim: estávamos ali três ou quatro à espreita nos bancos do largo de São Francisco, ninguém se aproximava da viatura, não fosse o Ti’ Saraiva dar conta e estragar a festa. Mal ele arrancava, devagar, devagarinho, zás: corríamos para a escada que a carreira tinha lá atrás e pendurávamo-nos nos banços (degraus). Depois, a camioneta andava um pouco mais depressa e vai de pôr os pezitos na estrada, a arrastar, para tentar saltar antes da curva do Largo do Chafariz, lá em baixo… era cá uma adrenalina…
Ou seja: apanhávamos boleia, pendurando-nos lá atrás e indo uns minutos pendurados, com os pés mais ou menos a arrastar pelo chão. Aliás, não era só com a carreira que apanhávamos essa boleia. Fazíamos isso também com a camioneta do peixe e um ou outro caso de camionistas que por ali paravam.

:: ::
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Deixar uma resposta