À fala com… François Baltazar

José Carlos Lages - Capeia Arraiana - Orelha

As eleições autárquicas do dia 1 de Outubro de 2017 no concelho do Sabugal tiveram resultados, mais ou menos, previsíveis. Mas na eleição para a Junta da União de Freguesias do Sabugal e Aldeia de Santo António fez-se história. O Partido Socialista no poder desde o 25 de Abril de 1974 perdeu as eleições no confronto com uma lista independente encabeçada por François Baltazar. Com apenas 41 anos de idade já conta no seu curriculum três mandatos à frente da Junta de Freguesia de Alfaiates de onde são naturais os pais. A viver há 16 anos na Colónia Agrícola de Martim-Rei entendeu aceitar o desafio que lhe foi lançado por alguns amigos e… venceu sem margem para dúvidas. É o novo «alcalde da cidade do Sabugal».

François Baltazar - Presidente da Junta da União de Freguesias do Sabugal e Aldeia de Santo António - Capeia Arraiana

François Baltazar – Presidente da Junta da União de Freguesias do Sabugal e Aldeia de Santo António

A agenda do fim-de-semana, entre 27 e 29 de Outubro, de François Baltazar estava preenchida com o Mercado da Terra – Feira dos Santos em Malcata organizado pela AFRS-Associação de Freguesias da Raia Sabugalense onde cessou funções em virtude das eleições autárquicas de Outubro. Mas, mesmo assim, foi possível encontrar um espaço na soalheira manhã de domingo para nos receber na sede da Junta da União de Freguesias do Sabugal e Aldeia de Santo António. «Ainda não conheço bem os cantos à casa, ou melhor, às casas das duas freguesias.» diz-nos, com humildade, enquanto nos recebe no Salão Nobre.



«Encaro esta eleição com grande sentido de responsabilidade. Eu e os sabugalenses que me acompanharam nesta candidatura e que, ao longo dos dias e dos quilómetros da campanha eleitoral, se transformaram num grupo de excelência dispostos a dar o melhor de si pela população que vamos servir»,
François Baltazar.


François Baltazar nasceu em Bordéus, França, há 41 anos. Os pais, emigrantes, são ambos naturais da freguesia de Alfaiates. «Regressei a Alfaiates com cinco anos de idade. Vim com os meus pais. Recordo-me que o meu pai dizia que estava farto de lá estar», justifica-se com a convicção de quem se considera sempre a viver no concelho do Sabugal.
– Frequentei a escola primária de Alfaiates e depois fui para o Seminário Menor do Fundão onde estive cinco anos e onde aprendi muito. Considero que essas casas foram e são muito importantes para a educação da juventude. Depois vim para o Sabugal onde estudei até ao 12.º ano de escolaridade.

– E era tempo de iniciar a vida profissional?
– Com o objectivo de me valorizar profissionalmente e candidatar a possíveis empregos frequentei alguns cursos e acompanhei de perto o trabalho de alguns engenheiros de terraplanagem que estiveram na construção da barragem do Sabugal. Depois fui para a Figueira da Foz e para Armamar onde trabalhei em projectos de obras públicas. Mais tarde ingressei na empresa Águas de Portugal onde ainda pertenço. Há cerca de três anos fui requisitado às Águas de Zêzere e Côa para a Associação de Freguesias da Raia Sabugalense onde estou a terminar o mandato.

– Ainda se justificam as Associações de Freguesias?
– Actualmente existem com actividade permanente no concelho do Sabugal duas Associações de Freguesia. A nossa é, actualmente, constituída por oito freguesias. Mas considero que faz sentido a sua existência. Por exemplo, para o Portugal2020 têm prioridade os projectos apresentados por associações. Tínhamos um projecto de rotas e trilhos para BTT que foi, entretanto, integrado num mais amplo do município do Sabugal. Estamos a desenvolver uma proposta para a recolha de lixo. Acho que faz todo o sentido uma associação ser responsável por esse trabalho. Outra área é a aplicação de pesticidas e herbicidas em que pretendemos manter o contrato com um técnico certificado e arranjar um local para armazenar os produtos. E volto a afirmar que faz todo o sentido que seja uma associação a oferecer esse serviço. A associação vai continuar a existir. Eu estou fora porque o meu cargo era de representante de Alfaiates e o Sabugal não faz parte.

– Este novo desafio é muito exigente. A experiência conta?
– Fiz três mandatos como presidente da Junta de Freguesia de Alfaiates. Tomei posse há 15 dias como Presidente da Junta da União de Freguesias do Sabugal e Aldeia de Santo António mas sobre esta nova realidade não conhecia absolutamente nada. Apenas tinha entrado no Salão de Festas. São realidades muito diferentes mas a responsabilidade é a mesma. Temos ideias e tenho a certeza que as vamos concretizar.

– Esta união de freguesias tem o Côa pelo meio. Entre a Torre e a Urgueira há vivências muito diferentes. O rio divide?…
–…Quando foi da constituição da união das freguesias as pessoas ficaram mais fragilizadas e não queriam juntar-se mas, hoje em dia, acho que essa questão já está ultrapassada. Acima de tudo quando nos rodeamos de uma equipa diversificada, com origens em todas as aldeias das duas freguesias esse problema fica minimizado. Considero que os anseios e necessidades são parecidos em todas as aldeias.



«No dia seguinte à tomada de posse adjudicámos duas obras (entretanto já executadas) – a pintura dos muros dos cemitérios de Aldeia de Santo António e da Torre – porque foi um pedido que nos fizeram durante a campanha eleitoral. Mas porque, também, consideramos que os nossos mortos e os familiares que vão aos cemitérios na época dos Santos merecem toda a dignidade que lhes pudermos dar.»,
François Baltazar.


– Durante a campanha ouvia-se dizer que era uma equipa muito jovem, muito unida nas acções no terreno. Qual foi a «fórmula secreta»?
– Tenho alguns amigos que sabiam que eu não me ia candidatar a Alfaiates e que me deram conta de algum descontentamento das pessoas especialmente na cidade do Sabugal. E entenderam desafiar-me a avançar. Reflecti, fiz um estudo, falei com várias famílias e, foi com algum espanto meu, que poucos foram os que não deram logo o seu apoio. Percebi que as pessoas estavam descontentes especialmente pelo que devia ter sido e não foi feito e queriam a mudança. E a mudança aconteceu mas… o mérito desta vitória é todo da equipa que me acompanhou e apoiou.

– Mas o autarca François Baltazar vive em Alfaiates ou no Sabugal?
– Eu vivo na freguesia do Sabugal, na Colónia Agrícola Martim-Rei, há 16 anos. A minha esposa nunca votou em Alfaiates. Eu era eleitor em Alfaiates mas há um ano atrás quando decidi candidatar-me mudei, definitivamente, a minha residência para o Sabugal. E já votei no Sabugal. Nem podia ser de outra maneira. Os candidatos devem votar onde se apresentam…

– A propósito da Colónia Agrícola há ali um mundo para desbravar se houver ideias. A Junta pode ter alguma intervenção na sua gestão?
– A gestão da Colónia Agrícola depende mais da Câmara Municipal. Mas estamos disponíveis para ajudar. Nos últimos anos tem sido feito um bom trabalho e tem um técnico à altura. Na mostra da Feira dos Santos, na Malcata, está lá representada a Colónia Agrícola com castanhas e avelãs de excelente qualidade. O desafio no futuro passa por fazer chegar os produtos às grandes cidades como Lisboa, Porto ou Coimbra.

François Baltazar - Presidente da Junta da União de Freguesias do Sabugal e Aldeia de Santo António - Capeia Arraiana

François Baltazar – Presidente da Junta da União de Freguesias do Sabugal e Aldeia de Santo António

– Por vezes ouvimos dizer que a Junta do Sabugal tem a vida um pouco facilitada porque as suas acções na cidade se confundem com as intervenções da própria Câmara Municipal…
– Essa problemática foi debatida durante a campanha com a minha equipa. Ainda não tive oportunidade de reunir com o senhor Presidente da Câmara do Sabugal mas entendemos propor a separação clara das competências das duas entidades. Até porque tem existido umas misturas que não se compreendem. Há jardins que são camarários e há outros que são da freguesia. Uma das primeiras propostas de trabalho passa por clarificar estas competências e passar algumas para a Junta de Freguesia. A recolha do lixo poderá ser outra competência a discutir. O objectivo será criar um quadro de pessoal e postos de trabalho na Junta. Faz sentido esta evolução porque estamos a falar de um território em que se juntou ao Sabugal, Torre e Colónia Agrícola Martim-Rei as aldeias da Urgueira, Alagoas, Ameais e Aldeia de Santo António.

– Há ideias para o espaço do antigo mamarracho no cruzamento para Sortelha? Poderá ser o local ideal para um posto de turismo, um parque de autocaravanas e um miradouro?
– Estou convencido que vamos conseguir trabalhar em equipa com o actual executivo camarário. O presidente António Robalo já mostrou abertura para ouvir as nossas propostas. Vamos estudar e propor projectos para esse e outros locais sob a nossa responsabilidade.

– O que significou ser um candidato independente a uma Junta de Freguesia?
– No primeiro mandato em Alfaiates fui candidato nas listas do PSD a convite de um saudoso amigo meu, o senhor Manuel Rito que infelizmente já não está entre nós e a quem muito devo… até porque aprendi muito com ele. Pessoalmente e com a experiência adquirida enquanto autarca considero que não faz sentido nas nossas freguesias haver partidos. Não tenho nada contra os partidos mas considero que nas autarquias devemos é apostar nas pessoas. Por vezes os partidos criam divisões nas freguesias que deixam mossas para o resto da vida e todos temos a perder com isso. Mesmo quando apoiamos um candidato para a Câmara Municipal não nos estamos a rever no partido mas sim na pessoa.

– Mas o ser independente dá mais trabalho nas eleições autárquicas…
– As leis da Assembleia da República não são iguais para todos. Os partidos têm a vida facilitada e não necessitam de ter tantas assinaturas nem nomes. No meu caso tem sido relativamente fácil fazer listas independentes. Nesta eleição autárquica as pessoas aderiram desde a primeira hora ao movimento independente e foi, até, uma forma de fazer uma lista enorme.

– Nesta União de Freguesias há muitas instituições de utilidade pública com peso no concelho. Como vão ser geridos os apoios?
– Temos os Bombeiros, o Sporting do Sabugal, o clube de BTT, o Rancho Folclórico, o Grupo Motard e algumas sedes de associações. Vamos ter de promover muitas formas de os apoiar e, também por isso, encaro este novo desafio com grande sentido de responsabilidade. Exige muito da nossa disponibilidade e uma presença quase permanente.



«Aproveito para divulgar a nossa primeira iniciativa que, ao que sabemos, já tem um destinatário recentemente nascido. É a atribuição de uma bolsa de 500 euros a cada bebé nascido na nossa União de Freguesias. O valor será dividido em 250 euros em dinheiro e o mesmo valor em senhas para adquirir produtos para recém-nascidos no comércio local.»,
François Baltazar.


– Durante a campanha comunicaram muito bem as iniciativas nas redes sociais com muita visibilidade percebendo que o caminho passava pelas novas tecnologias. No futuro podemos contar com comunicação e informação das actividades da Junta?
– Temos perto de três mil eleitores. Estou a trabalhar com uma equipa de quatro pessoas com diversas responsabilidades atribuídas. Estamos a desenvolver uma página para que todos os sabugalenses, em qualquer parte do mundo, saiba o que estamos a fazer, nomeadamente actas da assembleia de freguesia, obras e eventos. E as redes sociais não vão ficar esquecidas. Daqui a quatro anos cá estarei para que me lembrem a concretização desta promessa.

– A terminar podemos falar de projectos na Junta da União de Freguesias do Sabugal e Aldeia de Santo António?
– No dia 11 de Novembro temos o tradicional Magusto de São Martinho. No dia seguinte à tomada de posse entregámos duas obras (já executadas) – a pintura dos muros dos cemitérios de Aldeia de Santo António e da Torre – porque foi um pedido que nos fizeram durante a campanha eleitoral. Mas porque, também, consideramos que os nossos mortos e os familiares que vão aos cemitérios na época dos Santos merecem toda a dignidade que lhes pudermos dar. Aproveito para divulgar a nossa primeira iniciativa que, ao que sabemos, já tem um destinatário recentemente nascido. É a atribuição de uma bolsa de 500 euros a cada bebé nascido na nossa União de Freguesias. O valor será dividido em 250 euros em dinheiro e o mesmo valor em senhas para adquirir produtos para recém-nascidos no comércio local.

– Durante a campanha tomaram nota dos anseios e pedidos dos fregueses das duas freguesias…
– Durante a campanha tomei notas, nunca falei dos adversários, fizemos uma boa campanha e encaro as minhas novas funções com enorme sentido de responsabilidade, eu e todos os elementos da minha equipa que tomámos posse no dia 17 de Outubro. A actuação vai ser diferente até porque foram cerca de 40 anos sempre com os mesmos métodos e modos de funcionar. É tempo de fazer diferente.

François Baltazar - Presidente da Junta da União de Freguesias do Sabugal e Aldeia de Santo António - Capeia Arraiana

François Baltazar – Presidente da Junta da União de Freguesias do Sabugal e Aldeia de Santo António

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Foi uma conversa descomprometida que fluiu simples com grande disponibilidade para responder a todos os temas sem tabus. Só faltou mesmo perguntar a François Baltazar como se sente num território onde os fregueses das aldeias que constituem a União de Freguesias não têm a tradição da Capeia Arraiana. Pressinto que o dilema estaria em responder com a cabeça ou com o coração. Seria uma «maldade» que fica para a próxima. Bom trabalho senhor Alcalde do Sabugal.

Entrevista de José Carlos Lages

2 Responses to À fala com… François Baltazar

  1. Hugo diz:

    Aproveito esta entrevista , para mandar um abraço de parabéns ao François e desejar á equipa 4 anos de bom trabalho e de muitas conquistas ..

  2. Jose Morgado diz:

    Parabéns grande lusodescendente e sua equipa de jovens, cujo entusiasmo foi bem patente no período eleitoral. Há de longa data que sou apologista dos movimentos de cidadãos independentes. Não se vendam por um “prato de lentilhas “Continuem genuínos. Há independentes que se mantêm assim como o Rui Moreira, apesar das pressões. Infelizmente outros deixam-se embalar pelo canto das sereias partidárias. Ou interesses pessoais e não institucionais. Votos de bom mandato.

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