Que Deus a mande…

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Adensava-se a escuridão e o Francisco fazia papel de estátua à porta de sua casa. O seu olhar de pássaro assustado fiscalizava a passagem das chamas.

Está mesmo a chover?

O fogo havia-o cercado por várias vezes. Não podia, portanto, suspender a vigília. Apesar de cansado lia-se-lhe no rosto uma manifesta vontade de desabafar. Quando me viu caminhou, para mim, devagar. Cumprimentou-me. Repôs a mão no bolso e ensaiou pose descontraída como se quisesse descansar mas não tardou a impulsionar o olhar. Um clarão pouco distante avivava a ideia de que havia árvores em continua expiação. Declarou, então, sob a forma de lamento:
– Estou a ver se o fogo volta para cá. Lá em cima devorou-me pastos e matos. Ali, mesmo na baixinha, mirrou-me videiras e oliveiras. Safei as vacas por um triz mas foram-se-me os fardos da palha. Tanto o fogo os rodeou que acabaram por arder. Só já espero agora que não me arda a casa de viver.
A norte da casa do Francisco ainda havia uma nesga de floresta por arder que poderia transformar-se numa autoestrada de fogo. Mudasse o vento e, num abrir e fechar de olhos, o incendio estaria de volta. Eis a razão pela qual o Francisco avaliava fogo e distâncias a cada instante.
Falava agora baixinho, mais para ele próprio do que para mim:
– Ninguém acredita que estas labaredas se acendem sozinhas. Há quem faça disto um negócio. É clarinho como água. Ou pensam que somos todos parvos? No nosso país há quem não se importe de nos trocar teres e vidas pelos lucros fabulosos de um punhado de sacanas.
Suspirou para concluir:
– Só quem passa por elas é que sabe o que custa.
Entretanto foi-se acercando a Conceição, sua mulher. Chegava num andar presto e miúdo. Abeirou-se do marido e interpelou:
– Atão Francisco? Estás teimado a ficar a noite inteira? Vai descansar um pouco que agora fico eu.
A Conceição também não dormia há várias noites. Sentada no sofá apenas dormitava.
Mas, na obscuridade, o vento cheirava a humidade. Mesmo assim a chuva demorava. A quentura do fogo enxugava tudo, até o próprio orvalho. Apesar disso Conceição sentiu que uma pinga lhe atingia o rosto. Estonteada, entre a alegria e o espanto, gritou:
– Mas eu estou doida ou está mesmo a chover?
Após a confirmação da chuva concluiu:
– Que Deus a mande bem feitinha!
Esboçava-se, assim, o principio do fim da tragédia. A natureza cumpria a vitória do bem sobre o mal depois de falidos os recursos, quando rareava o engenho e escasseava a arte.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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