Uso e ocupação do solo – a chave do problema

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Face à tragédia dos incêndios questionamo-nos como foi possível chegar aqui. Mas é bom de ver que foi o abandono do solo agrícola que criou as condições para que os rotineiros fogos florestais atingissem este ano proporções inimagináveis. A Política Agrícola Comum impôs medidas que conduziram a este desastre.

Foi o abandono do solo agrícola que nos levou ao desastre

Em Portugal, especialmente no interior, os solos incultos e abandonados aumentaram substancialmente de área. O mato maninho foi combustível que se juntou a uma floresta desordenada para arder em labaredas infernais.
Mas vamos pôr o dedo na ferida: a razão deste estado de coisas tem origem na Política Agrícola Comum (PAC).
A PAC tinha por base o estímulo da produção agrícola através da regulação de preços. Este modelo «produtivista» intensificou, especializou e concentrou a atividade agrícola, com impacto no uso do solo, no ambiente e na paisagem rural.
Numa primeira fase a PAC gerou excedentes agrícolas, o que levou à introdução de quotas e à transformação das ajudas de mercado em ajudas diretas.
As medidas reformistas incluíram ainda o desincentivo do cultivo das terras e o favorecimento da reforma antecipada dos agricultores. Foram atribuídos fundos para a remoção de vinhas, olivais e pomares, apoiando ao mesmo tempo formas de cultivo mais extensivas e a conversão de áreas agrícolas em pastagens e florestas, mas sem orientações sobre as espécies florestais a introduzir e o modo das implantar no terreno.
Em certos casos incentivou-se a pura desocupação do solo, subsidiando os agricultores para manterem as terras por cultivar. O resultado foi o abandono dos terrenos agrícolas marginais e a intensificação da agricultura em áreas com melhores condições agrícolas.
Foi toda esta política errada que nos levou ao desastre. Querer agora tomar medidas preventivas, sem reconhecer o mal que a Europa nos fez nesta matéria é voltar a fazer o mesmo: mitigar, disfarçar, descontrair, pensar que tudo volta ao bom caminho, até que outra desgraça nos bate à porta.
Para acabar com o flagelo dos fogos é preciso dar uma oportunidade ao interior, voltando a ocupar o solo com actividade agrícola, pecuária e florestal que seja rentável e compatível com a qualidade de vida que as pessoas querem e merecem. A política tem que a ser a do incentivo à produção e não ao abandono da terra.
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«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

4 Responses to Uso e ocupação do solo – a chave do problema

  1. António Emídio diz:

    Amigo Leitão :

    O teu artigo nas questões técnicas está perfeito, mas eu vou escrever o seguinte : 15 de Outubro de 2017, 523 incêndios num só dia ! Uma coordenação perfeita para causar terror e pôr em cheque os governantes portugueses, o que para isso nem era preciso tanto…A Extrema Direita portuguesa não vê com bons olhos o governo do P.S. e os outros partidos que o apoiam, P.C.P. e B.E., e como também não gosta de se submeter a eleições como a francesa, por exemplo, tem métodos mais radicais. Simples suposição de um amigo com quem conversei hoje, e minha também.

    António Emídio

  2. LUIZ CARLOS PEREIRA DE PAULA diz:

    Para mim o problema dum capitalismo desenfreado que se está a desenvolver com a globalização! Não acredito em guerras esquerda direita num caso destes. Isto tem mais um aspeto global.

  3. Hugo diz:

    Concordo plenamente com o artigo . Tal como diz o Sr. Paulo , as políticas que vieram da Europa em relação á agricultura contribuíram em muito para o que tem vindo a acontecer em Portugal . Tenho 30 anos de idade mas já consigo ver a diferença entre como estavam os nossos terrenos há 20 anos ( cultivados e tratados ) e como estam os mesmos terrenos hoje ( uma mistura de silvas ,giestas ,carvalhos ,pinhos e cerejeira tudo no mesmo terreno ) isto é resultado de uma política de financiamento fácil e de uma fiscalização medíocre.

  4. António Emídio diz:

    Eu não escrevi que existia uma guerra entre a direita e a esquerda, escrevi Extrema Direita lutando à sua maneira contra um governo apoiado no Parlamento pelo P.C.P e B.E., um Primeiro Ministro de descendência indiana, e uma ministra negra, para um qualquer democrata que tenha dentro dele os valores da Democracia, é uma coisa normalíssima, mas para os nacionalistas extremos, com raízes imperialistas, com uma grande componente cultural, étnica e racial vinda do antigamente, é uma vergonha e uma desonra. Porque ficaria Portugal imune à Extrema Direita se a Globalização é uma das principais culpadas do seu renascer ?. Não quero agora falar de Tancos…
    Com tudo isto gostava de lhe dizer senhor Luís Carlos Pereira De Paula, entre a minha suposição e a sua , dava tudo para que a sua fosse a verdadeira !

    António Emídio

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