O Sabugal face ao relatório dos fogos florestais

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Com o debate centrado na responsabilização política, não se olha com profundidade para o relatório da Comissão Técnica Independente aos incêndios de Junho. É que ele aponta caminhos onde o poder local pode e deve ter papel primordial e o Município do Sabugal ganhará em analisar o relatório e começar já a preparar o futuro.

Desmatar e ocupar o solo é fundamental para a prevenção do incêndios

O que se passou em Pedrógão Grande permite tirar ilações, dentre elas a ausência de um eficaz alerta precoce, falha na evacuação de pessoas, deficiências no comando dos bombeiros e nas comunicações, a que se juntaram factores climáticos anormais que levaram à tragédia, cruamente contabilizada em 64 mortos e mais de 200 feridos.
Mas o relatório, com quase 300 páginas, vai muito além destas questões, que fazem as delícias da comunicação social.
Apontam-se soluções, como a de uma melhor gestão integrada do combate aos fogos rurais, envolvendo os níveis nacional, distrital e local, e a do reforço das Forças Armadas no apoio logístico às operações, ao rescaldo e ao patrulhamento.
Mas o essencial está na prevenção, matéria que exige um esforço nacional, ao nível do governo e das autarquias locais.
As recomendações da Comissão Técnica Independente apontam para a integração dos Planos Regionais de Ordenamento Florestal nos Planos Diretores Municipais.
No que respeita à ocupação do território, defende-se o uso do solo em detrimento dos direitos de abandono. Os proprietários devem corresponsabilizar-se na gestão das suas terras, estabelecendo um regime sancionatório para os que incumpram, e prevendo a perca de direitos de propriedade para quem não assegure os deveres mínimos.
Para um concelho como o do Sabugal o maior desafio está em como voltar a ocupar as terras, seja pela florestação, cultivo, criação de gado, ou outras, aliada a uma acção de vigilância que obrigue à sistemática desmatação dos terrenos.
As reformas legais que já estão em andamento e outras, para as quais o relatório aponta, poderão demorar, devido à burocracia do processo legislativo, mas nada impede que a Câmara do Sabugal inicie já o seu trabalho, lendo com atenção este importante relatório técnico e preparando desde logo o futuro optimizando a ocupação do solo concelhio.

Escrevi este artigo antes da mais recente vaga de fogos, de dimensão e intensidade avassaladoras, que provocaram dezenas de mortos em todo o País. Porém esta nova tragédia reforça a necessidade de agir com firmeza e determinação no ordenamento do território e na ocupação do solo.
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«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

6 Responses to O Sabugal face ao relatório dos fogos florestais

  1. J. Valério diz:

    As consequências políticas dos fogos éo objectivo dos criminosos, para vindictarem ou fazer chantagem com os seus interesses. E o governo, até o PR, não deve dar sinal de fraqueza, mas mostrar que o crime não compensa. Se a força Aérea tivesse 6 ou 7 jumbos de muitas toneladas, sempre cheios de água, não havia fogo que resistisse; salvo se alguém misturar pólvora ou mesmo pó de fósforo na água, porque nesse caso apaga e dali a bocado começa a arder sozinho, porque o fósforo puro ou quase é de combustão espontânea logo que seca.

  2. J. Valério diz:

    Uma vez que escrevi o comentário anterior, sem ter lido outras opiniões, gostaria de acrescentar que o apuramento de responsabilidades políticas também é bom e legítimo, pois não tive em conta quaisquer outras opiniões por as desconhecer.
    Cumprimentos

  3. António Emídio diz:

    Senhor José Valério

    A politica, presentemente, deixou de ser um serviço aos cidadãos, à comunidade, converteu-se numa luta de interesses entre grupos de pressão, ou seja, grandes empresas, grandes bancos e grandes consórcios internacionais, estas 100 pessoas, ou mais, que morreram durante estes incêndios em Portugal, serão lucro para criminosos de colarinho branco. Quando a União Europeia nos fala em Liberalismo, isso não passa de uma liberdade económica a rondar a criminalidade económica, o – Laissez faire.

    António Emídio

  4. Ramiro Manuel Lopes de Matos diz:

    caro Paulo
    Totalmente de acordo contigo. mas nem era preciso fazer muito mais, bastava concretizar o que está no Plano Municipal de Defesa da Floresta contar Incêndios, como provei em crónicas anteriores.
    A nova legislação é outra oportunidade de ouro para o Executivo avançar com uma gestão eficaz e sustentável da floresta concelhia.
    Mas custa-me um pouco a acreditar nisso…

  5. José Antunes Fino diz:

    Este artigo oportuníssimo e importantíssimo do Paulo Leitão Batista traz-me à memória o incêndio que lavrou em meados de Setembro de 2016 na minha terra natal de Vale de Espinho, mais concretamente no cabeço “cacheinas” sobranceiro à aldeia, em plena reserva da serra de Malcata.
    Estava eu com mais alguns conterrâneos junto ao chafariz da Eiras e do café do Tó Côxo, aí pelas 14 horas, quando nos deparámos com colunas de fumo negro e intenso a anunciar a deflagração de fogo na floresta. Imediatamente contactámos as autoridades, via telefónica, sinalizando o local do sinistro.
    Passado que foi algum tempo, não muito, avistámos dois helicópteros de grande dimensão vindos do lado de Espanha e, bastante mais tarde, um avião e mais dois helicópteros que começaram a largar produtos químicos e água sobre as labaredas do incêndio.
    Já muito mais tarde após terem aparecido os meios aéreos, chegaram à aldeia dezenas de carros de várias corporações de bombeiros investindo pela aldeia fora em direcção ao sinistro. Só que as ruas da aldeia, estreitas que são, não davam passagem aos veículos e o atravessamento do rio Côa mais apropriado para chegar ao local pretendido não era pela aldeia.
    Entretanto, os bombeiros do Soito traziam um camião tanque de grandes dimensões o qual, tendo-se apresentado vazio, teve necessidade de se ligar a uma boca de incêndio que está no edifício da antiga escola primária.
    O incêndio foi dominado em menos de 2 horas, graças ao trabalho dos bombeiros sapadores espanhóis que se tinham deslocado naqueles 2 helicópteros que primeiro chegaram, tendo, imediatamente, circunscrito o seu perímetro de acção, após o que os outros meios aéreos portugueses complementaram com água e químicos.
    Atingido este final feliz, verificámos, porém, que o dito camião dos bombeiros do Soito continuava ligado à boca de incêndio cuja cisterna se encontrava a menos de metade do seu enchimento, enquanto motorista e ajudante degustavam saborosas “minis”.
    Gostaria de deixar aos leitores as seguintes perguntas:
    1. Por que razão, os espanhóis, vindos de mais longe, chegaram primeiro?
    2. Sinalizado o sinistro, com foi possível os bombeiros terem-se dirigido para a aldeia desconhecendo os locais de atravessamento mais adequados do rio?
    3. Qual a eficácia da boca de incêndio para encher, rapidamente, a cisterna dos bombeiros?
    3. Será que todas as aldeias do Concelho têm uma boca de incêndio em condições de poder abastecer um camião tanque para ataque a incêndios?
    Bem gostaria que mais alguém se pronunciasse sobre estas minhas considerações pertinentes!

    • Nicolau diz:

      Sr. Fino…. E O Sr. Continuou a conversa com os Amigos, sabe que o Sr. também tem a OBRIGAÇÃO de Ajudar seja quem for… Foi preciso UM ANO para o Senhor colocar as questões, sabe, se o Senhor tivesse as preocupações que agora esta a demonstrar em 2016 teríamos algumas Soluções e evitar problemas, Sabe Sr. Fino Palavras Santas Atitudes de Entrudo, só servem para o Carnaval.

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