O filho do 46

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

O pai, o 46, viera de Ramalde, região do Porto. Dizem que matou um homem ou um soldado do quartel em que fazia o serviço militar, onde tinha o n.º 46. Fugiu para Quadrazais, terra de acolhimento de homiziados. Como soube que Quadrazais o acolheria é coisa que desconheço. Aí exercia o ofício de caliador com um soitenho e, por ser o único na aldeia, trabalho não lhe faltava. Aí casou com a Erutildes Presas, de quem teve o Toninho…

Cicatriz no lábio da Celeste - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Cicatriz no lábio da Celeste

Era o Toninho miúdo, quando vai a sua casa à Ladeira a Celeste Farrenheira, da sua idade, dar um recado ao 46. Ao vê-la, o Toninho vai buscar o seu novo brinquedo, uma espingarda Flaubert, que o pai comprara para si ou para o filho. Queria mostrar à Celeste o seu novo brinquedo e assustá-la com ele, ou talvez ainda tivesse presente a cena do mudo da Praça que, com uma pedrada certeira, qual Alberto, lhe havia escavacado o lindo pião que bailava na raia, e agora pretendia defender-se contra quem lhe quisesse fazer mal. Aponta a espingarda à Celeste e diz-lhe:
-Já te mato! – E premiu o gatilho. Ouve-se um ruído e, de imediato, a Celeste começa a gritar. Tinha sido atingida no lábio e o sangue escorria-lhe pelo queixo. O Toninho desata a chorar. Vem o 46 e, ao ver o efeito da acção do Toninho, socorre a Celeste e, arreliado, desata a escavacar a espingarda numa grande pedra para que não servisse para nenhuma outra maldade do Toninho.
Lá ficou a Celeste com uma cicatriz para toda a vida. Mas esta não lhe tirou a beleza que encantaria outro Toninho, o Moira, também ele com uma cicatriz bem mais incomodativa e mais grave. Andava na escola quando o Martinho, armado de uma pistola feita de varas de guarda-chuva dispara a seta-uma dessas varas afiada. Tanto foi o azar do Toninho que passava nesse momento que a seta lhe acertou num olho e o deixou cego para toda a vida, impedindo-o de ver bem os lindos olhos da Celeste.
O destino é implacável e não deixou o Toninho Presas sem cicatrizes, mas estas derivadas de diversas operações que sofreu em França, onde ganhou bom dinheiro a lavar carros com máquina apropriada. Aí casou com uma inglesa. Não tendo herdado a alcunha de 46, gosta que o pai seja lembrado por ela.

Notas: Caliador -caiador, Farrenheira -farinheira.

:: ::
«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

2 Responses to O filho do 46

  1. Silvestre Rito diz:

    Gostei do texto do 46! parabéns ao Franklin!

Deixar uma resposta