Histórias – Do Azeite ao Sabão

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Só me lembro dele já velhote, de farto bigode, com a sua barriguinha num corpo baixote, irmão da Padeça e da Patrocina, que fora mãe solteira por duas vezes, uma do Zé Bicho, nome por que também era tratado o filho Zé, e outra do Zé Grande, de quem nasceu a Umbelina, que veio a casar com o João Galo do Sabugal.

Sabão artesanal - Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Sabão artesanal

Também era amigo da pinga. Saía muitas vezes da taberna de minha avó, ao Cimo, a cambalear, ziguezagueando de lado a lado da rua. Por vezes, o vinho já não cabia mais no bandulho e lá vinha ele goela fora.
Foi por presenciar uma cena dessas que a que haveria de ser minha mãe enjoou o vinho e nunca mais provou uma gota de álcool em toda a sua vida.
Devia ter sido contrabandista. Nas suas andanças pelo país sabia onde se fazia azeite em lagares e onde vendiam as borras. Quem sabe se não terá transportado borras de azeite para vender em Quadrazais a uma das fábricas de sabão, como fazia o Cotilhas? Terá sido na venda das borras que viu como se fazia o sabão?
O certo é que montou uma fabriqueta de sabão ao Fundo, nuns velhos palheiros, onde hoje está a Casa do Manego.
Quantos anos durou a fabriqueta, não sei. Só me lembro de meu pai lhe ter comprado os bidons onde preparava as mistelas com que fabricaria o sabão, a saber: água com sebo, roxo-rei, potassa e borras de azeite, trazidas de terras de olivais.
Seria aí que se abastecia o ti Manel da Trindade que carregava todos os dias os alforges de sabão que o burrito transportava para a venda no Soito? Talvez. Ou talvez fosse primeiro na fábrica do pai de Nuno de Montemor, comprada depois pelo Sr. Zé Jaquim. Fechadas as fábricas, o ti Manel continuava a vender sabão quadrazenho no Soito, comprado no comércio do ti Barreiro, que o adquiria sabe Deus onde. Hábitos difíceis de mudar, tanto do vendedor como dos clientes!
Nem sempre as borras eram de boa qualidade.
Uma vez o Cotilhas comprou uns odres de borras. Enquanto enchia os odres, o sobrinho chamou-lhe a atenção:
-Eh, tio, isto é só ânsia!
-Cala-te, lhadrão, que interva o sr. détor. No vés qu’é só alâmpio?
Olivais havia-os ali bem perto, logo depois do Sabugal, em terras protegidas do cieiro pela serra da Malcata. Santo Estêvão era a mais próxima. Penamacor e suas freguesias eram abundantes em azeite. Se necessário, iam comprar as borras a Pesqueiro, já em Espanha, onde alguns quadrazenhos possuíam olivais, ou mesmo à Quinta do Major. Não era preciso ir para o Alentejo carregar os odres e trazê-los com tanta dificuldade de tão longe. Até podiam arrebantar pelo caminho!
Por contágio, sua mulher começou a gostar da pinga e sobretudo da aguardente, que ela ia buscar todos os dias ao Manal numa garrafa escondida debaixo do avental.
Já sem fabriqueta, certa noite o Preto Meirinha morre na cama, sem um ai, que a pinga alivia as dores.
Notas:
Ânsia -água.
Alâmpio -azeite.
Arrebantar -rebentar.
Détor -doutor.
Home -marido.
Interva -compreende.
Lhadrão -ladrão.
Manal -Manuel.
Mê -meu.
No -não.
Vés -vês.

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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

One Response to Histórias – Do Azeite ao Sabão

  1. Ana Luísa e Ana Rita diz:

    Gostamos muito das histórias do nosso papá.Elas são muito interessantes. Vamos guardá-las para sempre. Parabéns pelo seu aniversário de hoje. Muitos beijinhos.

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