Lisboa – o Galheteiro

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

No Século XIX, quase no fim, o Povo de Lisboa queria um monumento condizente com a grandeza da Praça do Rossio, em frente ao Teatro D. Maria.

A estátua de D. Pedro IV, no Rossio, substituiu o Galheteiro

Havia ali no meio um qualquer mamarracho que uns, maliciosamente, diziam que parecia os “co…..es” (as partes) dos homens. Outros, mais discretos e polidos, diziam que aquilo parecia um Galheteiro de Azeite e Vinagre. Era uma construção de pedras com uma parte alta, uns dois metros de altura, e em cada lateral uma espécie de banco em pedra com cerca de um metro de altura.
Quando se marcavam encontros os Lisboetas diziam:
– Encontramo-nos junto ao Galheteiro.
O Governo de então decidiu retirar este mamarracho e ali mandar erguer uma estátua em honra de D. Pedro IV, que foi Rei de Portugal por uns dias. Ele era Imperador do Brasil e veio a Portugal de propósito para meter na ordem o irmão D. Miguel. Nesta questão foi muito ajudado pelas gentes do Porto e, como agradecimento, o Rei deixou em testamento o seu próprio coração à cidade do Porto, órgão real que ainda hoje por lá se conserva.
O Governo Português de então incumbiu uma grande empresa da Áustria do fabrico e montagem da Estátua em bronze.
Contudo essa empresa tinha já uma encomenda semelhante para uma outra estátua na Cidade do México, em honra do Imperador Maximiliano, que fora nomeado para esse cargo pelo Imperador francês Napoleão III.
Ora Maximiliano (por castas nobres era primo do nosso D. Pedro) nunca tinha ido ao México, nem espanhol falava e levava uma vida boémia na Europa. Foi graças ao seu parentesco com o Imperador francês que se tornou Imperador do México, então colónia francesa. O desplante desta nomeação foi tal que Maximiliano para treinar ser Imperador viajou do México até ao Brasil para receber uma luzes de governação do seu também primo D. Pedro, Imperador do Brasil.
Para seu grande azar nesse tempo eclodiu um movimento revolucionário independentista que conseguiu pelas armas tomar o Poder no México.
Maximiliano foi preso e fuzilado.
A sua estátua já ia num navio a caminho do México e estava paga.
Os directores comerciais austríacos ordenaram então ao capitão do barco que aportasse no Porto de Lisboa e esperasse por novas ordens.
Foi este o diálogo que os austríacos tiveram:
– A estátua de Maximiliano não pode ir para o México, ele está morto. Mas está paga.
– Todavia temos a encomenda do Governo Monárquico Português para uma estátua de um tal D. Pedro.
– E se convertêssemos a estátua que está no barco na encomenda portuguesa? Já temos metade do pagamento…
– Não pode ser. A figura da estátua do barco tem uma grande espada no braço direito e o caderno de encargos do pedido português diz que a figura do Rei deve ter um livro no braço direito, a Constituição, pois foi um Rei constitucionalista.
– Mas isso resolve-se! Corta-se a espada, funde-se o metal e dele faz-se o tal livro aberto.
– Essa solução não serve. Toda a gente irá reparar no remendo na estátua.
– Mas para evitar que reparem nisso, subimos em altura a estátua até quase aos 30 metros e cá de baixo já não se notará a diferença.
Assim aconteceu.
No Rossio, frente à Pastelaria Suíça que todos conhecemos, ergue-se hoje altaneira a Estátua de D. Pedro IV e que foi primeiro de Maximiliano, o infeliz Imperador fuzilado no México.
Esta estória é verdadeira e os diálogos foram facilmente imaginados.
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«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

2 Responses to Lisboa – o Galheteiro

  1. Joao de Faria-lopes diz:

    Apenas 2 notas.
    1. O Imperador D. PEDRO I NUNCA foi rei de Portugal. Por um dia que fosse! Como sabem o Rei de Portugal para o ser tem que ser ACLAMADO pelas Cortes….o que NUNCA sucedeu!
    Quem quizer desmentir faca o favor de apresentar provas documentais!!!
    2. Tanto quanto um Historiador mexicano relatou em Bruxelas foram feitas 2 estatuas uma de Maximiliano I e outra do Imperador brasileiro D. Pedro I.
    Aquando do despacho maritimo estas foram trocadas.A do primeiro foi para Lisboa e a do segundo para a Cidade do Mexico!!!
    Tomado conhecimento da troca decidiram os “responsaveis” deixar o assunto como estava!!!!!!!+

  2. Isso deve ser desconhecimento da história relacionada com a referida estátua. Em 25 de Fevereiro de 1864 ordenou-se a destruição do «galheteiro»; e logo em 30 de Março saiu o programa para um largo concurso internacional do monumento novo.
    Apareceram à chamada oitenta e sete projectos: de Itália, da Rússia, de França, de Inglaterra, da Holanda e da Bélgica, fora vários de Portugal.
    Foi escolhido o projecto dos artistas franceses Elias Robert, escultor, e Jean Antoine Gabriel Davioud, arquitecto.
    – Em 29 de Abril de 1867 lançava-se a primeira pedra; e em 29 de Abril de 1870, celebrava-se com grande pompa, na presença de toda a Lisboa, a inauguração do grande monumento, cujos autores eram estrangeiros, sim, mas cujo pensamento era nosso, e cuja execução fora entregue ao hábil canteiro português Germano José de Sales, sendo as quatro figuras dos cantos, a saber: a Força, a Moderação, a Justiça e a Prudência, esculpidas pelos artistas portugueses Fortunato e Punhe, além dos estrangeiros Coslande e Colard.

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