A herança cultural

António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

Querido leitor(a), se a herança cultural é um conjunto de elementos que identificam um determinado grupo humano,e se entre esses elementos estão a língua, a família, as tradições,os costumes,o património material e imaterial, a geografia, o clima e a História, dessa herança cultural é forçoso que resultem consequências marcantes em relação aos aspectos da vida política, social e económica.

A nossa herança cultural - António Emídio - Capeia Arraiana

A nossa herança cultural

O que somos nós portugueses, política, social e economicamente desde a Revolução Liberal de 1820 e consequente fim do Absolutismo? Até 1910, fim da Monarquia Constitucional, esse período histórico de 90 anos caracterizou-se por guerras civis, revoluções e graves problemas económicos, já no fim, o assassinato do rei D.Carlos (a Monarquia só durou mais dois anos) foi um período de um doentio sectarismo e intolerância, não se pode pôr em causa um certo desenvolvimento. Segue-se a Primeira República, de 5 de Outubro de 1910 a 28 de Maio de 1926, baseada em valores como o humanismo a Liberdade e a cultura, mas de uma instabilidade política muito grande, acompanhada de um sectarismo e intolerância inauditos, 45 governos em 16 anos, pelo menos 16 Revoluções e muitos crimes, desde políticos a comuns. O inaudito chegou a este ponto: quando o governo de Fernandes Costa, em 1920, ia tomar posse, foi impedido de o fazer por uma multidão comandada por dois «púrrias», (marginais que trabalhavam para partidos políticos, dos quais dependiam economicamente) esses «púrrias» eram dois proxenetas, vulgo chulos, que «trabalhavam» na Mouraria, os nomes dizem tudo, um era o – Ó Ai Ó Linda – o outro – O Pintor. A Guarda Republicana foi chamada, não compareceu, é que nesses tempo ela obedecia ao partido que tinha mais poder. Tudo isto acompanhado de gravíssimos problemas económicos, que sobraram para Salazar e o seu Estado Novo. Quando o ditador chegou, um «manto negro» desceu sobre Portugal, desde 28 de Maio de 1926, data da Revolução que implantou a ditadura e que o levaria ao poder, até 25 de Abril de 1974, Portugal caracterizou-se por um período de extrema intolerância e sectarismo, ou seja, quem não é por nós, é contra nós.

Depois de tudo isto, seria impensável que a vida política portuguesa actual não estivesse influenciada por estes dois últimos séculos de História, intolerância, sectarismo, corrupção e chico-espertismo, mas presentemente tudo misturado com uma mentalidade europeia baseada no luxo, na riqueza, na ostentação, e no tanto tens, tanto vales. É natural, e normal que tenhamos de conhecer a nossa História, Reis, batalhas, castelos, forais, monumentos, presidentes, revoluções, e tudo o mais que a caracterize, mas a nossa mentalidade não fará também parte da nossa História vinda de séculos? Ou isto é Tabu?… É preciso conhecer o passado, para Compreender o Presente, e preparar um sólido futuro.

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«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

One Response to A herança cultural

  1. leitaobatista diz:

    Caro António
    Fazes uma excelente caracterização daquilo que foi Portugal nos últimos dois séculos e, com base nisso, explicas a razão da mentalidade em que vivemos actualmente. Somos de facto, em grande parte, produto do nosso passado colectivo.
    Ostentação, individualismo, indiferença para com o outro, intolerância, propensão para o logro e para a corrupção, são de facto problemas que afectam a nossa sociedade e a impedem de evoluir positivamente.
    Há quem diga que estamos bem, que vivemos na abastança e que só está mal quem não se esforça para ficar bem. Mas sabemos que não é assim.
    Dou aliás toda a razão aos que afirmam que o problema é do «sistema».
    Termino citando ANDRÉ GUNDER FRANK (do livro «Do Subdesenvolvimento Capitalista):
    «Qualquer que seja o nome que se lhe dê, o sistema que origina e continua a produzir simultaneamente desenvolvimento e subdesenvolvimento é por natureza incapaz de produzir desenvolvimento apenas».
    Paulo Leitão Batista

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