Os banhos dos rapazes da aldeia

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Nos anos 60, tomar banho era coisa que não apoquentava ninguém no Inverno. Estava frio, a água era fria, pronto, ninguém tomava banho. Nem fatalidade era. Era assim mesmo todos os anos e para todos.

Chegados a Maio íamos tomar banho em bando

O que não quer dizer que não nos lavávamos. Em muitas casas aquecia-se “aiágua” nos grandes panelões de ferro durante horas no borralho do lume. Depois vertia-se a água quentinha em grandes alguidares de alumínio. Mas havia logo um problema. No despir e entrar naquela tina, apanhava-se frio. E ao sair era pior: sentia-se frio a dobrar, até fazia doer.
Por estas razões não se tomava banho principalmente entre os meses de Outubro e até fins de Maio.
Claro que de manhã lavava-se as mãos e a cara na bacia de loiça ou de esmalte do lavatório, vertendo-se a água suja para o balde em baixo. Mas era lavagem “como os gatos” – fingindo passar a mão molhada na cara e no cabelo. A poucochinha água do cabelo congelava de imediato!
Um dia, em pleno Inverno e perto do Natal, eu e um companheiro da Aldeia combinámos ir tomar banho na Mina, lá em cima na Serra d’Opa. Com uma côdea de sabão azul, fomos trepando a encosta da Serra e chegámos escalfados. Desse modo parecia ser fácil botar água no corpo. Mas qual quê? A frieza era tal que mal tirámos os pés das botas, calçámo-nos logo outra vez e bem depressa!
Era assim mesmo mais ou menos entre 1960 e 1970…
Chegados a Maio com a Primavera à vista, nós, os moços em bando, íamos tomar banho aos poços. Havia um preferido na Fonte Santa, porque era de boca larga e fundo, havendo uma amoreira muito perto. Muitos de nós nem nadar sabíamos e daí que aprendíamos quando nos jogávamos para dentro de água, tocar com os pés no fundo e com as pernas em mola, atirávamo-nos para a margem do poço…
Ir ao Domingo à tarde dar uns mergulhos ao poço era uma festa para nós. Uns com as ceroulas, outros mesmo com as calças “à quot” e alguns até sem nada, com as “vergonhas” à mostra, lá nos atirávamos para dentro de água e dizendo sempre, mentindo: a água está boa, não está fria!
Havia sempre risadas, desafios de quem ficava mais tempo dentro de água, a sonoridade dos ruídos intestinais a toda a hora, troçando uns dos outros…
Uma tarde fomos a esse poço para o mergulho de Domingo. Não sei quem foi, mas o primeiro a mergulhar fez as necessidades lá dentro. Mergulhou, cagou! Disse logo que não foi ele, tinha sido o outro anterior… risadas gerais, é claro. E apanhou o insulto maior da Aldeia:
– Vai-te chapar!
Então fomos mergulhar nos dois pegos da Ribeira, que estavam bem cheios, água boa que até a bebíamos, apesar de todos mijarmos dentro da água, pois esta era sempre corrente. Estes pegos tinham uma vantagem. É que havia ali bem perto muitos marmeleiros em plena floração. Com as muitas banhocas vinha a fome e então comíamos as flores dessas árvores, as galulas.
Por causa destas flores, aguentávamo-nos nos pegos quase até chegar a noite…
No meu caso, tinha um pouco de mais sorte. Como era neto do Senhor Tenente, estava autorizado a usar a piscina da Casa do Dr Jaime Lopes Dias. Tinha água limpíssima pois vinha directamente encanada da tal Mina no cimo da Serra e era só usada para banhos no Verão pelos seus netos.
Mas raramente usei este privilégio. Estava sozinho e como não sabia nadar, tinha medo de mergulhar e afogar-me. E era bem melhor a festa com toda a rapaziada, sem dúvida nenhuma!
Nós, os rapazes, sempre tínhamos curiosidade de saber onde é que as moças tomavam banho. Devia ser em casa nos tais alguidares.
Um sábado à tarde vimos um grande grupo de meninas das nossas idades ir em direcção à Ribeira, mais para baixo, muito para lá dos pegos.
Dissemos, com ar de mariolas: vamos espreitá-las, vê-las tomar banho, ver como é que são!
Mas surgiu um problema. Para onde elas foram não havia arvoredo para nos escondermos. De muito longe víamo-las entrar dentro da água, junto a uns pedregulhos, levantando a saia que nem os joelhos se viam! E às vezes agachavam-se junto às pedras a fazer não sei o quê. Contentávamo-nos em ouvir os seus gritinhos estridentes próprios de meninas púdicas.
Ali perto de onde elas se banhavam também havia marmeleiros. Depois de se molharem as meninas tinham uma diversão a modos que sádica.
Procuravam as melhores varas ainda verdes daquelas árvores, descascavam-nas e quando regressavam à Aldeia metiam-nas debaixo da porta da Escola Primária dos Rapazes.
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«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

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