A derrota de Sortelha

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Infestaram Sortelha de torres eólicas, que deram altos proventos aos proprietários dos terrenos, à Junta de Freguesia e à Câmara, e destruíram-lhe o encanto. Era a aldeia histórica mais bonita de Portugal, mas passou a ser o exemplo de como se desvaloriza o património e se desbarata o potencial de um concelho.

Os aerogeradores abalaram a autenticidade de Sortelha

O concurso Sete Maravilhas de Portugal elegeu as aldeias de Dornes, Sistelo, Fajã dos Cubres, Piódão, Castelo Rodrigo, Monsaraz e Rio de Onor como as mais encantadoras.
As aldeias deste lote garantiram uma melhor promoção a partir do seu património cultural, histórico, arquitectónico, natural e gastronómico. Numa palavra, o futuro afigura-se-lhes prenhe de oportunidades, que serão extensivas às regiões onde se integram.
Sortelha, no concelho do Sabugal, também candidata a ser uma das sete maravilhas, não passou das provas eliminatórias e, assim, esteve ausente da final, que se realizou no dia 2 de Setembro.
A aldeia medieval de Sortelha, antiga vila e cabeça de concelho, tinha, todos o sabemos, encanto suficiente para ter ido à final e para aí sair vencedora. Porém uma série de erros cometidos impediram-na de lá chegar. O maior desses equívocos foi o povoamento do horizonte com torres eólicas, algumas plantadas em terrenos próximos das vetustas muralhas. As altas torres metálicas, com as suas enormes pás, instaladas para o aproveitamento do vento na produção de energia eléctrica, descaracterizaram o lugar histórico ao retirarem-lhe a autenticidade. Quem sobe ao castelo ou às muralhas de Sortelha já não observa a paisagem inspiradora que permitia antever o que era a vida antiga naquela fortaleza dos tempos heróicos da defesa do reino. Agora os olhos do visitante antolham-se perante um objecto moderno, representando a tecnologia e a indústria actual e, portanto, castrador da historicidade do lugar.
Mas também houve erros na própria promoção de Sortelha no âmbito do concurso. Além de tardia, não foi suficientemente incisiva nem apelativa. Os predicados da aldeia apresentados na gala televisiva, centraram-se numa unidade de turismo rural e num restaurante da localidade. Ora o fulcro da promoção deveria ter estado no valor histórico da aldeia, nos monumentos, paisagem, artesanato, bibliografia, lendas e no testemunho do povo humilde que ao longo dos tempos preservou a sua terra.
Há poucas semanas tínhamos alertado para as referências negativas de que Sortelha já era alvo devido aos aerogeradores – aqui. Essas críticas foram premonitórias, porque anteviam já o fracasso a que iríamos assistir.
As compensações financeiras a que o concelho tem direito devido às eólicas (só a Câmara recebe anualmente mais de um milhão de euros) não pagam a destruição que as mesmas trazem ao património e à paisagem, com efeitos devastadores no potencial turístico do concelho.
Sortelha pode afinal ser tomada como exemplo de como se destrói o potencial de uma terra e de uma região.
:: ::
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

9 Responses to A derrota de Sortelha

  1. Kim diz:

    CURIOSO é QUE NÃO FAZES REFERENCIA AO QUE EU FIZ PARA TENTAR IMPEDIR ESSE ATENTADO E AO QUE SOFRI POR CAUSA DISSO

  2. Um belo e interessante artigo que ao cabo e ao resto os gestores autárquicos devem nele por os seus olhos dado que como o artigo traz à verdade eles trocam a cara pelo rabo sempre com grandes prejuízos para as terras que deviam gerir bem e que não fazem. O artigo é uma grande lição para as campanhas autárquicas que estão a decorrer.

  3. Silvestre Rito diz:

    Concordo no essencial com o dito pelo Paulo Leitão. Já noutro fórum comentei esta situação e fiquei espantado como é que alguém que pressuponho ser da zona ou até de Sortelha, defende estas torres eólicas e até diz que as torres estão para Sortelha tal como a barragem de Alqueva para Monsaraz! fico perplexo com esta atitude que só revela como facilmente se “assassina” o património que no fundo traduz a memória , o empenho, o saber ,as tradições, no fundo a história dos nossos antepassados. Com efeito Alqueva , para Monsaraz funciona como espelho de água e julgo que até beneficia a paisagem; as torres funcionam não como espelho mas como um quadro de uma paisagem que nada tem a ver com o contexto em que o inseriram. Tal como há dias , termino dizendo que querer as torres ali e defender a autenticidade da aldeia histórica é como querer ter sol na eira e chuva no nabal e isso só em ficção acontece; daí que hoje em dia ,Sortelha como aldeia histórica ,é ou quase, uma ficção, porque foi coisa que existiu!

  4. José Domingos Martins Clemente diz:

    Não me vou alongar. Apenas digo que por vezes o preço do progresso e do lucro. Neste caso está a sair bastante caro.

  5. Rosa Santos diz:

    Concordo inteiramente com o texto…..quando fui a Sortelha e vi as eolicas quase parou o meu coração……de susto e espanto

  6. LUIZ Paula diz:

    Quem tudo quer, tudo perde!

  7. João Duarte diz:

    A derrota de Sortelha nesse Concurso deveu-se a apostas estratégicas da Câmara e ao desleixo total da população do concelho, que não liga a isso. Talvez apenas os de Sortelha e mais meia-dúzia de líricos ligassem a isso. Nunca ouvi uma única conversa em Agosto sobre isso, em lado nenhum. Em Agosto, por aqui, não se pensa em mais nada que em capeias. Castelo Rodrigo ganhou porquê? Porque houve carros de som em todo o concelho a apelar à votação massiva dos residentes e emigrantes. Isso criou uma dinâmica que levou a população a votar em massa. Este ano 200.000 pessoas visitaram Castelo Rodrigo e espera-se que com esta promoção ganhadora muitos mais a visitem. Aqui houve o quê? Quantos carros de som? Cada um tem aquilo que merece, é um velho provérbio que se aplica bem neste caso. O concelho de Figueira de Castelo Rodrigo tem menos de metade da população do Sabugal. Mas aqui só se promove uma coisa: capeias. Eu devo ser a única pessoa do concelho que digo esta verdade, que dói: O concelho do Sabugal não precisa de promover capeias nenhumas… Elas não morrem, estão aí. Mas há um medo terrível que acabem. E com isso se desperdiça uma real oportunidade, embora isto do Concurso até seja apenas “fogo de vista”. Só que, durante uns anos, resulta. A verdade é que as capeias não trazem um único turista ao concelho, daqueles que ficam alojados em hotéis, que vão aos restaurantes, etc. Até traz mais gente de fora do concelho, daquelas que deixam algum dinheiro em restaurantes, o Rock in Raia, do que muitas capeias. E então com os espanhóis ninguém conte: nem um copo bebem. Chegam a trazer bebidas de Espanha, empoleiram-se nas calampeiras e pronto! Mal acaba, ala que se faz tarde!!! Conheço essas coisas todas de ginjeira, porque eu não ando a ver bois. Ando a topar o “movimento”.

  8. Ramiro Manuel Lopes de Matos diz:

    caro Paulo

    Em primeiro lugar devo dizer que estes “concursos das Maravilhas” me cheiram a esturro, pelo que nem gasto um segundo do meu tempo com eles. E ainda um dia se há-de perceber porque é que é um canal de televisão público que faz estes fretes…
    Mas isso é secundário, face à tua crónica,, nomeadamente no que diz respeito ás eólicas. E quero aqui lembrar que na AM de 30 de Abril de 2010 foi colocada à discussão uma recomendação à CM que propunha “1. A solicitação à CCDR Centro da abertura de um período excepcional de Consulta às diversas entidades normalmente consultadas em empreendimentos desta natureza, seguido de um período de Consulta Pública.
    2. A suspensão do alvará emitido em 31 de Março de 2010 até que seja obtida uma resposta daquela Comissão de Coordenação.”
    Infelizmente esta recomendação não foi aprovada, e a instalação das torres continuou, com os resultados que já se adivinhavam.
    Mas, penso, os problemas principais de Sortelha não estão nas eólicas, estão nas estratégias erradas dos Executivos Municipais que têm governado (mal) o Concelho nas últimas décadas.
    Face ao que o Toni disse na entrevista dada ao Cinco Quinas, acredito que, se ganhar como espero, o Toni saberá encontrara as formas de voltar a colocar Sortelha no mapa e, sobretudo, a integrar Sortelha nas dinâmicas de desenvolvimento do Concelho do Sabugal.

  9. António Cabanas diz:

    Sou a favor da energia eólica. Por opção de vida gosto mais de energia eólica do que de uma central de biomassa ou de carvão a fumegar para a atmosfera. Já as hídricas eram um mal necessário. Necessário porque precisamos de energia para tudo. Mal porque inundavam e matavam vales cheios de vida, pequenos ecossistemas e habitats ricos de fauna e vegetação. A energia nuclear é perigosa porque indomável, ainda que seja a mais produtiva. A energia eólica parece-me das mais amistosas para a natureza e mesmo alguns supostos impactes na avifauna estão hoje desmistificados.
    Pode questionar-se a parte visual, o impacte na paisagem e esse também deve ser atendido. Mas essa é uma questão subjetiva. Há quem goste e quem não goste. Entendo o purismo de ver o património sem nada à volta que o ofusque. Por isso se retiraram antenas de televisão e se enterraram cabos elétricos em Sortelha.
    Já os espanhóis chamam às torres eólicas “molinos de viento” e como tinham quixotescas saudades dos moinhos de vento, não desgostam desta energia. A Espanha é hoje uma das maiores potencias na eólica, não só na energia produzida mas também na produção de equipamentos.
    Acho interessante a discussão, mas é agora um pouco tardia. Lembro-me bem do Kim a lutar contra os tais “molinos de viento” de Sortelha. Se alguém o fez com alma, foi ele. Pela minha parte não me repugna ver as torres nas nossas serras. Quando me levanto, de manhã, a primeira coisa que faço é ver se rodam e para que lado estão viradas! E, na verdade, é a única energia que paga aos territórios uma renda, não só aos donos dos prédios, mas também aos munícipes através do município que recebe 2,5% do rendimento produzido.

Deixar uma resposta