A queda dum mito

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

Alcino dá-nos a ler um texto repleto de metáforas e de ironias, pelo qual descreve em traços incisivos o que nos trouxe o final deste verão quente, dramático e mediático.

Ó vós tresmalhados dos ensinamentos que vos leguei…

Num dia radiante engalanado com tons rosa e outras cores igualmente quentes
Corria ainda por montes e vales o resto de lava cinzenta e negra que os vulcões
Dos incêndios vomitaram por todo o solo pátrio durante o verão,
Quando um ancião venerando surgindo das catacumbas de uma outra galáxia perdida no tempo e noutras eras, qual profeta bradou:
Trago nestas infalíveis mãos escrituras em pergaminhos e papiros enegrecidos e gastos pelo uso e pelo tempo.
E numa linguagem grave cacofónica e arcaica simulacro de línguas do tempo em que os homens e os animais falavam por sons onomatopaicos imitando animais ou aves.
Piou e disse com pose doutoral o que em tempos fora sábio omnisciente e omnipotente e que caíra no esquecimento.
Dirigindo se aos jovens seguidores perdidos na profusão deste novo linguajar esotérico e sincrético e estereofónico que falam estes aparelhos portáteis informáticos que se dizem e contradizem ao mesmo tempo.
Em tons solenes e graves bramou: ‘ó vós tresmalhados dos ensinamentos que vos leguei porque sonhais com ideologias que não constam nos meus compêndios? Não vedes esse povo venezuelano? Alguma vez eu errei?
Já esquecestes o meu legado de rotundas e autoestradas plenas de trânsito cruzando todo o país, esses campos de agricultura florescente, esse interior semeado de conglomerados de empresas esse mar largo sulcado por paquetes ,cargueiros e traineiras carregadas de pescado?
Porque conspirais contra o minha herança que o tempo desmentiu; esquecestes que eu predisse que depois de mim seria o dilúvio. E então?
Porque não esqueceis essa malfadada geringonça com esses piu… piu de esquerdistas?
Em verdade vos digo ou eu ou o apocalipse.
E com ar solene majestático envolto numa nuvem diáfana, esfumou se na penumbra do tempo para o assento etéreo donde descera, deixando atrás de si uma legião de futuros políticos galácticos.

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«Vivências a cor», de Alcínio

One Response to A queda dum mito

  1. Jose Nunes diz:

    Excepcional . Parabéns Alcino

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