As vindimas na minha casa

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Por volta de fins de Agosto notei sempre que algo de anormal se passava em nossa casa, com algumas correrias… Havia mulheres da vizinhança que traziam loiças, muitos pratos de alumínio, que mais tarde vi iguais na tropa, talheres de cabo de madeira, grandes panelões de ferro e outras coisas.

Era tempo de vindimar

Essas coisas não mas deixavam ver ou pegar, diziam que só de espreitar eu podia estragar.
Esse frenesim era comandado pelas irmãs do meu Avô, a Tia Isabel, que mais tarde morreria afogada num tanque do quintal, sucedendo-lhe nos outros anos a Tia Ana, a Tia Joaquina, a filha desta, Maria do Rosário, a Teresinha, filha do Tio Manuel Caixeiro e fora de casa, as vizinhas Ti Carlota Sabino e a Ti Bárbara.
Outra coisa diferente que eu presenciara há já uns dias atrás era um certo trabalho do Tio Manuel Caixeiro, irmão do meu Avô.
Passava longas tardes numa divisória na cortelha, por baixo da casa, onde eu sabia que havia grandes pipas pois era ali que muitas vezes ia “abaixar as calças”, sempre com medo dos roncos do enorme porco cor de rosa que olhava para mim.
Ia espreitar o trabalho dele, mas corria comigo:
– Vai-te embora que podes morrer, dizia-me ele.
O que fazia o Ti Manuel Caixeiro dentro das enormes pipas?
Depois de as lavar com água, acarretada pelas mulheres da casa, via-o com umas grandes tiras de lençol impregnadas de enxofre que lhe apichava o fogo e besuntava assim os interiores. Foi assim que percebi a finalidade daquelas tiras malcheirosas e sujas de amarelo que secaram dependuradas no quintal durante vários dias.
Naquele sábado de manhã do princípio de Setembro havia grande azáfama lá por casa.
Começou a juntar-se muita gente.
Na rua, frente à nossa casa, muitas mulheres, cerca de 30 ou mais, de facas ou navalhas nas mãos, com lenços na cabeça, de chapéus velhos, todas com um aventalinho na frente que vim a saber mais tarde continha umas fatias de pão centeio que apiguelhavam com umas rodelas de chouriço ou um bocado de toucinho entremeado salgado.
Mas quem eram essas mulheres? Mais tarde apercebi-me que não vinham à jorna.
Então porque vinham tão bem dispostas para um trabalho árduo e cansativo e sem ganhar?
Sem dúvida nenhuma eram pessoas que vinham “pagar favores” ao meu Avô.
Que favores? Talvez um empréstimo de dinheiro para um filho ou filha ir estudar, um dinheirinho para alguém comprar um animal na feira de Santo Estêvão, ou algo para sustento ou apoio ao trabalho do campo. Ou finalmente ainda porque o meu Padrinho terá feito na sua velha máquina de escrever um requerimento ou alguma carta particular para ser enviada pelo correio a um familiar.
Tenho de dizer que o meu Avô deve ter juntado uns dinheiritos durante o tempo que esteve na tropa, durante mais de 30 anos, em comissões em Moçambique e Timor, vivendo sempre nos quartéis.
As Mulheres esperavam ordens do meu Avô.
A comandar as operações o meu Avô-Padrinho, o Senhor Tenente, que era então o Presidente da Junta de Freguesia. A apoiá-lo em tudo, o seu braço direito era sem dúvida o Ti Joaquim Churro. O irmão, o tio Manuel Caixeiro, sempre presente, como homem de especial confiança. E era por vício o primeiro provador das vinhaças lá de casa, mesmo antes do tempo próprio chegar.
Lembro-me bem do meu Avô se dirigir às pessoas, da varanda, no cimo da escadaria:
– Hoje vamos para a vinha da Fonte Santa. À tarde para o Outeiro. Amanhã basta algumas para a vinha da Serrinha.
Quando todas abalavam chamava de parte uma das mulheres, das mais pobres da aldeia, sabia-se, com vários filhos e disse-lhe em voz baixa:
– Quando puderes, vai aos Mortórios e ficas com as uvas que encontrares para tua casa.
Então as mulheres abalavam a caminho da Fonte Santa em carreira pela vereda rente ao córrego.
Eu perguntava todos os anos à minha Tia Isabel:
– Eu vou para onde? Faço o que?
– Tu ficas em casa, o teu Padrinho diz que és muito fraquinho para este trabalho. Estás magrinho.
Magrinho eu? Então aos domingos jogo a bola até o sino tocar para o terço, fora os jogos todas as tardes junto à casa do Ti Pimpão. Fraquinho, eu?
Em casa era a Tia Isabel a comandar as operações da logística – preparar o almoço das muitas mulheres e homens presentes na ajuda da Vindima.
O almoço era feito em três grandes panelas que estavam ao lume por baixo das trempes. Preparava-se para o primeiro dia de vindima, um guisado de batatas com bacalhau. Em grande quantidade.
As mesas grandes e compridas que apareceram no quintal vindas não sei de onde, eram compostas a preceito:
Grandes toalhas de tecido riscado, os tais pratos de alumínio e outros de esmalte com flores, também de loiça e alguns, poucos, de barro.
Espalhadas pelas mesas, muitos pratinhos com azeitonas. Vários púcaros cheios de vinho da casa do ano anterior. No chão, garrafões de vinho para recarregar os púcaros quando esvaziavam. Fatias de pão centeio, muitas, espalhadas na mesa, em montinhos. Jarros de água para as mulheres. Lembro-me de ver grandes melancias de riscas prontas para serem cortadas em fatias.
É óbvio que eu ia espreitar a vindima, afinal ver o que era aquilo, evitando o meu Avô, que não me queria lá.
O que é que eu via?
As mulheres, que as ouvia sempre cantando as cantigas conhecidas na aldeia. Uma mulher mais afoita começava a cantar, as outras respondiam não sei de onde, pois estavam todas escondidas pelas videiras de grandes ramagens.
Elas cortavam os cachos das uvas e deitavam-nos para um cesta de vime que tinham no chão. Logo que esta enchia, vinha outra mulher deixava uma vazia e a cheia ia despejá-la para uma dorna presa com um calabre sobre um carro de bois. Um homem recebia a cesta, despejava-a e devolvia-a à mulher que voltava ao trabalho.
Havia uma outra mulher que circulava com uma bilha de barro cheio de água e dava de beber a quem pedisse.
Às vezes ouvia-se gritaria. Eram coelhos que saltavam no meio da vinha, assustados com a barulheira.
Quis seguir o trajeto desses carros de bois com a dorna transbordando de cachos de uvas. É que eles, vários, iam e vinham. Para onde?
O carro de bois chegava ao lagar, um edifício frente à nossa casa, no largo. Tinha dentro um enorme tanque todo em granito, chão e lados, com cerca de 20 metros quadrados.
Vários homens inclinavam a pesada dorna e os cachos de uvas caíam dentro de uma vasilha de ferro (ver vídeo aqui) que eram triturados por força manual aplicada numa manivela. A vasilha estava apoiada num dos lados do tanque. As uvas trituradas e o respectivo sumo caíam directamente para o tanque. E assim sucessivamente, até não virem mais uvas da vinha.
Logo que terminava a trituração das uvas, o tanque iam enchendo.
Nessa altura entravam em acção diversos homens que com as calças arregaçadas até os joelhos pisavam as uvas com os pés, dia e noite, revezando-se. À noite alumiados por uma candeia, no meio da conversa iam entornando vinho pelas goelas abaixo, apiguelhando com umas azeitonas e rodelas de chouriça. E claro, umas cigarradas de Três Vintes ou Kentuckies.
Era assim durante 2 dias e 2 noites, agitando de vez em quando o bagaço com o rodo, em movimentos “para lá e para cá” e em profundidade.
Acabada parte da vindima na Fonte Santa, as mulheres vinham almoçar a nossa casa. Logo que entravam em casa, destapavam-se com respeito.
No quintal, as mesas tinham comida em abundância e todos se serviam quanto queriam. Enquanto comiam, gracejavam, mulheres, já se sabe, mas logo que aparecia o meu Avô, o Senhor Tenente, todos se calavam por respeito. Segredavam apenas. Cochichavam.
As espinhas do bacalhau, as que eram jogadas para o chão, o cão e o gato da casa disputavam-nas. Era também dia de festa para eles.
As minhas primas Teresinha e Maria do Rosário iam trazendo comida para a mesa. Serviam o vinho, cortavam as melancias, olhando para que nada faltasse.
Acabado o almoço as mulheres voltavam para acabar a Vindima na Fonte Santa, seguindo depois para o Outeiro, no Cimo do Povo, na divisa com a Beira Alta.
No outro dia, domingo de manhã, as mulheres apresentavam-se de novo logo de manhazinha, agora em menor número, para vindimarem as poucas videiras que havia na Serrinha, perto da subida para a Meimõa.
O almoço era então batatas com bacalhau e couves, de azeite e vinagre.
No 2º dia do pisoteio no tanque, o meu Avô vinha com um aparelho esquisito, de nome refratômetro, julgo ser este o nome daquela maquineta com vidrinhos e com umas esferinhas no fundo que eu tanto queria para jogar ao berlinde.
Mergulhava-o num cântaro cheio de mosto e olhava com sapiência a graduação indicada. Se o mosto desse ano era fraco, deitava-lhe uma determinada quantidade de aguardente do ano passado; pelo contrário, se era forte demais, deitava-lhe uma certa porção de água até atingir a graduação pretendida.
Eu andava por ali sem fazer nada, olhando aquelas coisas todas. Nada me escapava. Nem a doçura do mosto. Com uma caneca eu dirigia-me a um dos homens que pisava as uvas e pedia-lhe para ma encher de mosto. Era uma delícia e abusei sempre que me deixavam dessa bebida doce. Depois, claro, os intestinos mexiam…
Depois dos 2 dias de pisoteio, aquela grande quantidade de bagaço ficava em repouso durante uns dias, a fermentar. Ouvia-se mesmo o borbulhar no meio. E de vez em quando, mais uma passagem com o rodo.
Ao fim de vários dias, o mosto que já não era mosto, tinha perdido a doçura, era retirado em cântaros e deitado para dentro daquelas grandes pipas desinfetadas e assim ficava ate princípios de Novembro. Daí o provérbio popular: “Pelo S. Martinho, vai à Adega e prova o Vinho”.
Logo que o líquido cor de sangue e ainda não vinho era retirado do tanque, aquela pasta de uva ressequida, o bagaço de uva, era jogado para dentro de umas dornas, onde fermentava mais não sei quantos dias, bem tapadas com uma manta por causa do mosquedo.
Passados uns largos dias, esse bagaço malcheiroso e vermelhudo, era jogado às porções para dentro de um Alambique em cobre que tínhamos num palheiro ao lado da casa da Ti Purificação.
Era o meu trabalho e do Tó Caixeiro, meu primo em 2º grau. Uma entretenga dada aos rapazes da casa.
Atiçávamos o lume debaixo do alambique e lembro-me de pensar que era um milagre ver escorrer da parte de cima e gotejando por uma cana um líquido parecido com água até um alguidar.
De início, uma aguadilha quente, ia logo fora.
Mas depois íamos enchendo um copinho de vidro grosso desse líquido e com a palma da mão a tapar por cima, agitávamos o copinho sobre o joelho. Se apareciam bolhinhas, estava pronto, o líquido que escorria aparava-se todo no alguidar.
Aquele bagaço de onde foi espremido até aparecer a aguardente ainda servia para uma boa vianda para o porco na cortelha.
Estava assim feita a Aguardente.
Tenho de dizer a verdade: à força de tanto provar, uma vez as nossas cabeças ficaram entorpecidas e era num instante que adormecíamos na palha que havia ali por perto.
Nesse ano o Ti Pimpão fez a sua única aparição nesses dias das Vindimas. Trazia uma garrafa de laranjada do Soito, aquela bojuda e rugosa, para abastecer-se de aguardente. Como eu e o Tó adormecemos, o lume apagou-se debaixo do alambique e a aguardente deixou de escorrer.
– Acordem, xerepes, não vêm que o lume se apagou?
Ficava assim fechado o Ciclo das Vindimas lá por casa.
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«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

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