Fábula do velho leão ameaçado

Ramiro Matos - Sabugal Melhor - © Capeia Arraiana (orelha)

Como o velho leão se tentou manter no poder por mais uns anos…

Fábula do velho leão ameaçado - Ramiro Matos - Capeia Arraiana

Fábula do velho leão ameaçado

Há muitos, muitos anos na grande savana reinava um leão a quem todos obedeciam, na velha história de que quem é leão é rei.
Rumores chegavam entretanto, de que um búfalo pregava junto dos restantes animais da savana contra o seu reinado, convencendo cada vez mais de que isso de um animal mandar nos outros todos, como se fosse deus, tinha de acabar, e que todos podiam e deviam viver em paz sem terem de oferecer prendas e sacrifícios, quando não a própria vida, ao rei leão.
Contra leões mais novos que lhe queriam tirar o poder, já o nosso leão estava habituado e sabia como derrotá-los.
Agora esta rebelião que se fazia no seu próprio reino, era uma coisa nova a que urgia dar resposta. É que até as suas leoas já se mostravam ariscas ao seu poder…
Matutou, matutou e urdiu um plano.
Começou por chamar o veado alfa, prometendo-lhe paz e que só voltaria a comer os veados que este lhe indicasse, por velhice, doença ou fraqueza.
Às aves de rapina, chamou uma a uma e a cada prometeu partilhar da sua carne, sem guerrilhas, e em exclusivo.
E por ai fora, prometendo aqui, ameaçando além, sempre cuidando que não se desconfiasse das suas artimanhas.
Mas ficava-lhe sempre uma dúvida. E se, mesmo assim, os animais já estivessem convencidos que ganhariam mais, expulsando-o do seu trono?
É que nas suas conversas o instigador à revolta mostrava que muito havia a fazer para melhorar a vida de todos os animais na savana.
E no fundo, no fundo, sabia também que pouco tinha feito para além de comer, expandir a família, e defender o seu reinado.
Tinha de andar cada vez mais de toca em toca a prometer, a ameaçar, a aliciar, pois lhe diziam que já havia reuniões marcadas para os animais decidirem se queriam continuar sob a sua lei e ordem, ou davam ao outro a possibilidade de mostrar que era melhor.
Ate já se murmurava entre as suas leoas e os seus leõezinhos que a coisa estava preta…
E lamentava-se para os pelos lustrosos da sua juba… «Já um rei leão não pode saborear em paz o seu reino!»
Porém, a revolta na savana era cada vez maior, pese embora todos os animais saberem que leão raivoso é leão perigoso…
Mas, ou era agora ou nunca!

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ps1. No próximo domingo é dia de romaria dos sabugalenses à Sra. da Graça. Festa outrora grande, lembro com saudade a ida em família, os rebuçados de açúcar, a santinha de açúcar que meu avô me pendurava ao pescoço e, sobretudo, a merenda à sombra dos carvalhos ou pinheiros…
Mas esse é também o dia da festa em honra do Divino Senhor dos Aflitos em Vilar Maior, e ainda tenho na lembrança aquele fatídico dia 5 de Setembro de 1971 quando, já na Sra. da Graça, a sirene dos bombeiros nos anunciava a tragédia que se tinha abatido na igreja de Vilar Maior provocada pela explosão dos foguetes.

ps2. Para os comentadores de bancada que, de repente, se descobriram como «profetas» do Interior, uma ajuda de quem já anda nesta luta há perto de 50 anos: «Se a resolução do problema fosse fácil, já há muito que estava resolvido.»
Um pouco mais de modéstia não vos ficava mal…

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«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

One Response to Fábula do velho leão ameaçado

  1. José Escada diz:

    Grande Ramiro! Geralmente gosto do que escreves. Do conteúdo e da foram. Agora em relação ao ps2 permite-me o seguinte comentário: Se durante 50 anos a estratégia não resultou não será altura de mudar ? Abraço de José Escada

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