Lazeres

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Vou já em vários dias de férias. Tenho, sobretudo, descansado o olhar num oceano rumoroso que me vem segredando ao ouvido e me tem assoberbado a alma. Um mar que, ao longe, beija o céu num tocar cintilante e movediço.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vivo, portanto, um tempo leve e quase liberto de obrigações. Tal circunstância faz nascer em mim uma vontade de escrever que, paradoxalmente, me inquieta e me apraz.
Obrigo-me, então, a uma estratégia antiga que se baseia em ficar algum tempo sem pensar em nada. Assim se me liberta, frequentemente, o cérebro e, após um curto relaxe, parece-me funcionar melhor.
Mas hoje está difícil se bem que, um eventual incumprimento “blogueano”, não viria a provocar grandes clamores.
Insisto, no entanto, e tento recorrer aos horizontes que, por vezes, me aportam alguma prosa. O sítio é genial mas, por ora, recusa-me a solução. Falha-me aquele preciso momento em que as palavras começam a escorregar da mente embaladas na torrente de fortes sentimentos.
Ora, como quem recolhesse o olhar, reparo sobre a mesa. Muito próximo de mim, ao alcance da mão, repousa um livro de Sofia de Mello Breyner. O título, ILHAS, ancorou no centro da capa rodeado de alvura por todos os lados. Distendo o braço na sua direção, alcanço-o e abro-o numa dupla tentativa. Se, por um lado, procuro prolongar a paz do meu espirito, por outro, busco na poesia alguma inspiração.
E vou lendo: “Oiço a voz subir os últimos degraus / Oiço a palavra alada impessoal / Que reconheço por não ser já minha”.
Sei, sim, que há ilhas que o mar faz. Mas há outras ilhas que as palavras aladas do poema conseguem pintar ou apagar. Não ignoro a força da palavra na celeridade e leveza do tempo. Até a palavra dita, aparentemente mais efémera, subirá degraus se dita convictamente.
Mas estou, como disse, em período de lazer. Não escondendo o prazer em que banho estas palavras, vou mesmo terminar por aqui. Continuarei a rechear o descanso lendo versos de Sofia. Pode ser que Ela me ajude em futuras propensões.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

One Response to Lazeres

  1. António Emídio diz:

    Amigo Capelo :

    Não sei quem disse, nem sei se eu próprio o pensei, mas a poesia é a verdade que nos vai na alma e que nós transformamos em sentimento.

    António Emídio

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