Casteleiro – Histórias de emigração (2)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Os nossos conterrâneos que emigraram nos anos 60 e 70 para a França sabem muito bem as razões que os obrigaram a essa aventura. O que muitos ignoram é que 40 anos antes disso, uma pequena vaga de emigração atingiu também as nossas aldeias. Mas sobretudo para a Argentina e menos para o Brasil e a Venezuela. Hoje trago uma história desses tempos de há cem anos…

Sabugalenses emigraram para a Argentina nos anos 40 do século passado - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

Sabugalenses emigraram para a Argentina nos anos 40 do século passado

Esta história de aldeia sempre me encantou. Por um lado, pelas referências sul-americanas que carrega. Mas por outro porque nos obriga a pensar que nas nossas terras sempre se viveu com dificuldades e que a emigração sempre foi uma das escapadelas. Mas também as migrações, ou seja: a busca de trabalho dentro do nosso País. Por exemplo, nos anos 50, antes do fluxo francês, foi o Ribatejo e sobretudo o Alentejo que ajudaram a melhorar as vidas um quase nada.
No entanto, a Argentina tinha sido a «fuga» de alguns, como o Ti Zé Ruço de quem fala esta história…

Em busca do Eldorado

Esta história que hoje lhe trago encaixa na área da emigração para o estrangeiro, mas para terras bem mais distantes: neste caso, para a América Latina. E muito antes da grande época da emigração, como vamos ver.
É a história dos «soutiens« que o ti’ Zé Ruço trouxe da Argentina, depois de 40 anos de ausência, como prenda para a sua mulher – na altura a precisar certamente de muitas coisas, mas não de «soutiens».
Um episódio que deve começar por volta de 1920 e tal. Altura em que na Argentina a classe média chega ao poder, explode e ferve… O referido ti’ Zé Ruço era então um jovem simples, trabalhador agrícola, filho de agricultores com meia dúzia de courelas que não permitiam a sobrevivência em condições mínimas.
Um dia, o Zé Ruço tomou uma decisão: ir para o estrangeiro. Mas para onde? Na altura havia dois destinos de base para a emigração: o Brasil e a Argentina. Circunstâncias da vida levaram-no para a Argentina.
Mas, primeiro, quis casar. E casou com a sua namorada de sempre: a Laurinda.
Poucos dias depois da boda, modesta, veio a ordem: havia autorização para o Zé Ruço partir para a Argentina. E partiu. Provavelmente com a promessa de, uns meses depois, «a mandar ir» (era assim que se dizia) a sua Laurinda.
Mas não. Não foi assim.

40 anos ausente

Por razões que nunca ninguém entendeu – e menos ainda, certamente, a ti’ Laurinda – o t’Zé Ruço nunca mais cá veio. Nunca mais deu sequer sinal de vida. Nem uma carta.
Bem. Não é bem assim: nunca mais, não. Passaram-se cerca de 40 anos. Os golpes de Estado rebentam com a Argentina daqueles dias.
E, um dia, quem é que aparece na aldeia? O argentino. O ti’ Zé Ruço. Ele mesmo.
E julgam que vinha rico? Enganam-se.
Fora à procura do El Dorado (Eldorado) mas não o encontrara. E quanto mais procurou durante os 40 anos… mais ele se afastava.
Por isso, nada mais podia fazer: voltou para a sua terra.
E julgam que a ti’ Laurinda o rejeitou?
Enganam-se.
Recebeu-o como se tivesse «abalado» ontem…

«Que fiques más linda, mi amor!»

Mas julgam que, lá por não vir rico, o ti’ Zé Ruço desarmou? Julgam que não trouxe uma «boa prenda» para a sua «Laurindinha, meu amor», que ele chamava com o carinho dos 20 anos, agora que já fizera os 60 bem medidos?
Trazia, sim, senhores. Trazia uma prenda, «un regalo» para «mi amor».
E o que era essa prenda?
Um… conjunto apreciável de «soutiens» bem empinados, cuecas super-sexy e outros apetrechos iguaizinhos aos que via sempre nas «boîtes» de Buenos Aires.
A senhora tinha na altura também mais de 60 anos e tinha a mentalidade e as preocupações de qualquer mulher de uma aldeia amodorrada e abandonada no meio do país. Não a mentalidade e as preocupações das jovens de Buenos Aires com quem o t’ Zé Ruço eventualmente se relacionava.
Tudo bem.
E, perante a pergunta da ti’ Laurinda «Ai, Zé, Zé, agora para que é que eu quero isto, Zé?», o t’ Zé Ruço terá respondido com a maior das ingenuidades e com o sotaque espanhol, que ainda mantinha: «Pàra què fiquès más lindà, mi amòr!».

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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