As janeiras no meu tempo na aldeia

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

A pedinchice tradicional das Janeiras na Aldeia era ao fim de semana ou durante os outros dias, tanto dava, mas sempre à noite.

Vale da Senhora da Póvoa

O nosso grupo tomava cuidados extremos para evitar as ruas por onde andavam os Grandes comandados pelo Tó Carrilho. No meu Grupo não havia comandantes, tudo era falado entre nós. Inclusive deixávamos que moços mais novos nos seguissem mas sempre atrás e sem pianço, senão…
Arranjávamos uma vara e lá íamos de porta em porta pedir as “Janeiras”.
A maior das vezes nas casas que batíamos à porta, as mulheres diziam-nos:
– Já não tenho nada, dei aos outros.
Quando não tinham nada ou não queriam dar, diziam lá de dentro sem abrir a porta:
– Vão-se embora já estamos a dormir!
Às vezes calhava ganharmos qualquer coisa, tinham pena. Davam-nos um pedaço já corto de chouriço, umas rodelas de morcela ou até uma farinheira de fumeiro antigo, já empedernida, que nós atirávamos aos gatos.
Quando alguma mulher nos dava um “culhoto” era uma alegria.
O “culhoto” era um chouriço pequeno, menos de metade de um normal que sempre pensei serem feitos de propósito para dar aos rapazes nas Janeiras.
Mas não. Servia para o homem levar de merenda para o campo, se era longe. Com um casqueiro (parte de um pão) dentro de uma sacola de pano, azeitonas, toucinho salgado ou um culhoto, dava para ficar por lá no trabalho um ou dois dias sem voltar a casa.
Na volta pelas ruas com a vara tínhamos de ter cuidado. Nela púnhamos só uma peça, porque se os Grandes vissem várias, tiravam-nas, expropriavam é um termo, o verdadeiro era roubavam-nos e caluda senão levávamos porrada.
Por isso na vara ficava só uma peça, as outras eram guardadas nos bolsos ou dentro das camisolas.
Como estava frio, o apuro das nossas Janeiras era comido por todos nós num vão de escada ou num recanto duma rua, sempre temendo que aparecessem os outros. Os novos que nos seguiam à distância comiam qualquer coisa: de longe atirávamos para eles um bocado que não queríamos pela fartação ou porque sabia mal, como era o caso das farinheiras.
Algumas ruas da aldeia cheiravam a chouriço assado, aquele cheiro que nos fazia inveja.
Eram os Grandes que fizeram um grande lume detrás da Escola das Raparigas e nele assavam as chouriças ganhas, comiam-nas e bebiam vinho à farta.
Depois desta aventura nas ruas, havia outra.
Como era Janeiro, gatos e gatas estavam com o “janeiro” ou seja sobre os telhados e muros miavam à vez e esganiçadamente. O gato macho queria cobrir a gata e esta miava fingindo contrariar a sua natureza.
Estavam portanto localizados e nós vá de pedrada neles. Eles fugiam mas mais à frente paravam e continuavam com a malcriadice. Mais pedrada neles…
O topo das Festas das Janeiras na Aldeia era na casa do Dr Jaime Lopes Dias. Todo o Povo estava convidado.
Entrava-se pelo portão da sua quinta e naquele corredor de uns 80 metros até à Casa, cercado de videiras em cima e aos lados, o Povo cantava as músicas próprias das Janeiras, ritmadas por três mulheres que batiam com mãos e dedos em grandes adufes.
O Dr Jaime e a sua Família assistiam da varanda, ele de samarra e cabeça descoberta mostrando grande respeito por todos.
No fim das cantorias o Dr Jaime mandava os três empregados da casa distribuir a todos licores, bolinhos e até tabornas à descrição.
Eram assim as Janeiras no Vale da Senhora da Póvoa nos anos 60 (entre 1960 e 1970).
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«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

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