Quem defende os emigrantes

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

O sabugalense Carlos Luís, conhecedor profundo das comunidades portuguesas que vivem no estrangeiro, tem sido, enquanto tal, injustamente ignorado no seu concelho, que é precisamente uma terra de emigrantes.

Carlos Manuel Luís

No Portugal democrático de pós 25 de Abril cabe destacar dois políticos pela ligação às comunidades portuguesas que vivem fora do País: Maria Manuela Aguiar (do PSD) e Carlos Manuel Luís (do PS).
Ambos foram, em legislaturas sucessivas, deputados eleitos pelos círculos da Emigração. Enquanto parlamentares contactaram os emigrantes e levaram a sua voz à Assembleia da República, onde apresentaram, por vezes conjuntamente, requerimentos, tomadas de posição e projectos de lei em seu favor.
Carlos Luís, que é natural de Vila do Touro, concelho do Sabugal, foi particularmente activo. Como o PS, regra geral, apenas elegia um deputado, dos quatro que representam a Emigração, arcava com a responsabilidade de contactar todas as comunidades, na Europa e no resto do mundo. Conheceu de perto os dirigentes associativos dessas comunidades, deu-lhes alento e foi portador das suas reivindicações. Ouviu as histórias de vida dos emigrantes que foram «a salto», dos que comeram o pão que o diabo amassou, dos que derrubaram barreiras e singraram na vida e dos que não lograram contornar as dificuldades.
No quadro da temática da emigração, foi o deputado que mais intervenções fez em plenário, mais projectos de lei apresentou e mais perguntas fez aos governos. Foi co-autor do diploma que criou o Conselho das Comunidades Portuguesas, bateu-se pela revisão da lei da nacionalidade, pela criação do estatuto do agente da cooperação e pela facilitação do recenseamento dos emigrantes nos consulados. Integrou diversos grupos parlamentares de amizade bilateral, pertenceu a comissões parlamentares, nomeadamente a de Assuntos Europeus e Política Externa, e integrou comitivas parlamentares que visitaram países onde está fixada a diáspora portuguesa.
Carlos Luís é elogiado por várias figuras do associativismo dos emigrantes e é chamado a intervir em fóruns sobre a matéria, onde a sua voz é ouvida com atenção.
Porém, no seu concelho, onde milita politicamente e é inclusive deputado municipal, o Município faz gala em o ignorar. As suas propostas são desconsideradas e nunca é chamado a contribuir no quadro dos conhecimentos que detém. E isso foi recentemente notado.
As Câmaras do Sabugal e do Fundão realizaram umas jornadas dedicadas à Emigração, a 28 e 29 de Julho, com uma sessão em cada sede de concelho. No programa vimos muitos nomes, de conhecedores do fenómeno migratório, é certo, mas também de outros que sempre participam em tudo, porque de tudo parecem saber. Mas não esteve lá o nome Carlos Luís.
Não foi por ignorância ou relapso que esse nome ali faltou, mas porque há um conjunto de nomes que se metem debaixo do tapete por não pertencerem à pseudo-elite que domina politicamente a edilidade e nela se petrifica.
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«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

3 Responses to Quem defende os emigrantes

  1. Amaral diz:

    Neste momento os emigrantes fazem parte da estatística na quantidade populacional. No entanto continuam a chegar ás terras natal aos milhares, mas as condições para os manter nas proximidades são zero, as facilidades para reconstrução das casas dos antepassados são simplesmente inacessíveis , incomportáveis, coitado do meu avô, pois teve de fazer as casas que fez sem projecto nem fiscalização nem ajuda financeira , “ao turismo rural” pergunto-me como foi possivel criar 10 filhos e cara alegre.

  2. José Domingos Martins Clemente diz:

    Gostei muito de ler, é pena tal ter acontecido. Conheço-o, e sem bem que é.Tive o privilégio de um dia ter sido seu convidado e almoçar com ele na Assembleia da Republica. p

  3. Luís Coito diz:

    Tenho pena de muito do meu país ainda olhar para os nossos emigrantes de forma sobranceira e muitas das vezes jocosa. Muita da população residente entre portas não compreende que que os emigrantes assim o foram e são, por falhas muito próprias nossas enquanto país. Muito menos entendem que sem esses emigrantes, o nosso Portugal e em particular no interior, não teria o nível de investimento e de alguma, mesmo que parca, riqueza.

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