Casteleiro – Histórias de emigração (1)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Agosto é sempre o mês de a minha aldeia se encher de gente: todos os emigrantes procuram estar na aldeia alguns dias pelo menos. Por isso, lembrei-me de ressuscitar duas histórias de emigração.

As festas do mês de Agosto nas aldeias - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

As festas do mês de Agosto nas aldeias

Houve na minha aldeia, que eu saiba, duas levas de emigração: uma nos anos 20 do século XIX e outra nos anos 60 e posteriores. É esta que melhor conhecemos.
E hoje, dedico-me a emigrantes dos anos 60, sobretudo parfa terras de França.
A primeira dessas ondas de emigrações teve como destino a América Latina. Mais concretamente, a Argentina. Foram muito poucos os emigrantes desta leva. Na próxima semana vou repor aqui uma história significativa.

«Oh, Ma Volvô»!

Leia mesmo à francesa, com a palavra Volvo acentuada no último «o» (só na pronúncia, claro).
Esta história é desta outra emigração, a dos anos 60. Aquela que melhor conhecemos todos, a começar pelos nossos amigos que tiveram de ir para a França trabalhar para ganharem a sua vida e melhorarem a das suas famílias, como sabemos.
Nota – O ti Narciso era uma figura que todos conheciam. Um dos filhos, o Balé, foi para a França com 20 anos. Muitos anos depois, volta ao Casteleiro e… dá nas vistas: traz uma bomba de um carro Volvo.
Os netos do ti’ Nàciso, ele com nove ou dez, ela com apenas seis ou sete anos de idade, vieram a Portugal pela primeira vez conhecer a terra do pai e dos avós. A mãe, cidadã francesa, também.

Oh ma Volvô! - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

Oh ma Volvô!

Uma história para nunca mais eu esquecer

Uma tarde, o pai (filho, portanto, do ti Nàciso), emigrante há mais de 20 anos em Dijon mas que, como técnico de meios-frio, já tinha estado por essa África fora ao serviço da sua famosa empresa, a Japy, pegou no seu Volvo absolutamente novo e quis dar uma volta pelas ruas da aldeia. Aquele carro era enorme para aquelas ruas. Era parecido com o da foto – imaginem o furor que fez numa terra onde os carros locais iam da «4L» (a célebre «càtrele» tão referida pelos emigrantes) até aos Austin, Ford Fiesta, sendo que mesmo os emigrantes não iam além do Peugeot 404 e do Renault 9.
Pois bem. O Balé de boa memória meteu então o luxuoso Volvo por aquelas ruas acima, pela parte antiga da aldeia, as ruelas ainda mais apertadas e às tantas chegou a uma curva onde o Volvo não cabia mesmo. Mas ao Balé nessa altura nada se lhe metia à frente. Sobretudo àquela hora e bem bebido como já estava e chateado. E vai de acelerar a apertar o carro contra as paredes de um lado e do outro. E recuava e o carro «encolhia».
Certo é que o carro novo e belo ficou todo amassado dos lados.
Vem a mulher, os filhos, a família, os vizinhos – todos para ver os efeitos da coisa.
E, por entre os «ah!s», sobressaía a vozita da miúda, horrorizada com a imagem do seu carro (digo em francês, para perceber o que vai seguir-se: «avec l’image de sa voiture». Ou seja, carro em francês diz-se «voiture» e é feminino).
Os gritos da miúda eram lancinantes naquela rua toda:
– Oh, ma Volvo, ma Volvo! Oh, ma Volvo, ma Volvo!
(Para melhor colorido, diga como ela dizia: «volvô», com acento nesse último ô).
Ficou célebre para sempre na família o «Oh, ma Volvo, ma Volvo!» da miúda.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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