Mido – Festa de S. Roque

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Alteia-se-me, perante o olhar, a encosta que, do lado direito, margeia o Côa. Estamos em meados de agosto. A semana já vai a meio e a romaria espalha-se na elevação.

Festa de São Roque – procissão

Ao fundo, a água do rio há muito que não corre. Antes se estanca em charcos de cor musgosa. O monte é revestido de moitas verdes que cercam alguns carvalhos arcaicos mas, o que mais envelhece a paisagem, é a tonalidade cinzenta oferecida pelas muitas rochas milenares. O cume da margem aponta para um céu onde o azul se deixa entrever em finas nesgas afoitadas entre nuvens algo ofuscadas pelos resíduos do fumo que recorda fogos extensos e recentemente apagados. A escassez da água no rio ora se enxerga exposta ao sol ora se vê opaca e abrigada pela sombra dos choupos.
Caminho, vereda acima, vencendo um trilho esguio e amarelado que abandona o asfalto da nacional dezasseis à margem da qual aparquei o carro. Alcanço o largo que cerca a capela e que se apresenta plantado de árvores anãs, raras e pouco frondosas das quais desconheço a casta. Permito-me, de novo, uma visão sobre o rio.
Deixei para trás a proliferação das vendas. Cruzo, agora, a multidão dos romeiros e revela-se-me, o tom da festa que hoje suplanta a solidão do resto do ano. Entro, curioso, no pequeno templo que faz o largo transbordar de religiosidade. Junto à porta, de pé, sobre o andor, com manto púrpura, a imagem de S Roque, espera a hora da missa e da procissão. Vários devotos oram, ajoelhados, antes de ofertarem a costumada esmola.
Mas onde os peregrinos se adensam mais é no largo. É aí que se irmanam em sentimentos. São sérios os seus rostos. É impassível a atitude que os faz mergulhar na meditação. Aguardam a missa, o sermão e a procissão. Só findos os atos de culto degustarão merendas ou almoçarão churrascos por entre intensos odores de fumo.
Mais tarde, já ao final do dia, quando o sol se esconder na elevação da paisagem, todos rumarão à aldeia de Mido. Ainda há pouquíssimo tempo era sede de freguesia. Presentemente integra a união de freguesias de Leomil, Mido, Senouras e Aldeia Nova, no concelho de Almeida. Por aí seguirá a festa, na Lage, o mais digno largo do burgo, enquanto a noite for noite e a lua rodear a aldeia.
A luz ténue do luar há-de misturar-se com os acordes do acordeão. Luz e som se soltarão pela estreiteza das ruas até onde o som conseguir chegar e enquanto o baile durar.
Os que, exaustos, anteciparem o regresso a casa, fá-lo-ão imbuídos de uma paz grave, devida à influencia da religiosidade da festa e à recordação da imagem do santo. Para os mais resistentes só com o novo dia terminará a festa, o religioso e o profano.
E será então, pelo romper da madrugada, que se iniciará a espera da Festa de S. Roque do ano que vem.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

One Response to Mido – Festa de S. Roque

  1. Mena diz:

    Obrigada pela descrição, analise e reflexão,por um momento estive lá, no meu querido São Roque

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