Casteleiro – Sabedoria popular

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

A Sabedoria do nosso Povo impressiona. Não foi adquirida em nenhuma escola se não na própria escola da vida. Séculos e séculos – e transmissão de geração em geração. Melhor que todos os compêndios escolares… Trago-lhe um caso impressionante: «Os dias do Governo».

Casteleiro - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

Casteleiro

Sou fã dos truques que o Povo encontrou ao longo de séculos para se defender da Natureza e do resto. Logo para começar esta questão da meteorologia. Quem vive da agricultura precisa de saber ver os sinais – tal como numa zona de pesca os pescadores aprenderam a prever hoje o tempo de amanhã, para não irem ao mar se for possível prever o perigo.
Na agricultura, a coisa é ainda mais séria, porque não se trata de prever de hoje para amanhã, mas sim de um ano para o outro.
Então o Povo lá descobriu formas de se defender.
De facto, no Casteleiro assim era.
Na sua sabedoria imensa, não sei como nem porquê, a verdade é que as pessoas sabiam em Agosto que tempo ia fazer em todo o ano.

Os dias do Governo
A coisa funciona assim: o dia 1 não conta (o Povo diz que «o primeiro é dele». Nunca soube quem era esse «ele». Mas penso que é o próprio mês de Agosto).
Os que contam são os 12 dias seguintes, sendo que cada dia equivale a um mês e ao longo do dia o tempo que faz e as suas mudanças hora a hora terão correspondência no decurso e nas alterações do tempo em cada mês do ano seguinte. Assim: o tempo do dia 2 de Agosto deste ano indicou como será Janeiro de 2014; o tempo do dia 3 indicou o tempo de Fevereiro próximo, e assim por diante.
Os dias 2 a 13 de Agosto são os dias do Governo (atenção: a palavra «governo», aqui, na boca do Povo, nada tem a ver com o poder central. Nada disso: «governo», aqui, significa «orientação» relativa ao tempo atmosférico).
Será que funciona? Sei lá! Mas lá que tem piada, isso é inegável. E parece que séculos e séculos de gerações se guiaram por estas noções simples…

Casteleiro - José Carlos Mendes - Capeia Arraiana

Casteleiro – José Carlos Mendes – Capeia Arraiana

Epítetos populares
Mas nem só de meteorologia vive a sabedoria popular. Também a «má lingua» para observar e valorizar asqualidades e defeitos dos vizinhos…
Apenas dois ou três exemplos.
– Aquilo é que é uma badalona… (fala demais).
Outra situação criativa que me agrada especialmente é aquela que diz assim:
As chocalheiras desta rua
Fizeram um assinado:
Uma diz, outra confirma.
Deus nos livre de tal gado.
Hoje, preferi escolher algo entre o ditado e a má-língua – sempre no melhor dos sentidos:
Setecentos alfaiates,
Setecentos cardadores,
Para matar uma aranha,
Foram chamar os pastores.
Acho que uma coisa destas só podia ser inventada por alguém que ou era pastor ou defendia os pastores como gente de iniciativa e desenrascada… ao contrário do que em geral se pensa…

Formas de dizer com piada
Candauga – significa «malandro».
Realengo: «Aquela não tem mesmo realengo nenhum».
Isto significa que a pessoa não se orienta, não tem juízo, faz muitas asneiras.
Bincemento: usa-se em frases bem determinadas:
– Não dá bincemento.
Isso significa: não despacha, não acompanha o ritmo.
Aduela: «Tem uma aduela a menos» (não bate bem da bola, diríamos hoje).
Dacòti: «Este vestido é dàcóti» (é a roupa de todos os dias).

E assim se faziam as tardes e os dias todos de toda a nossa mocidade naquela terra de encanto.

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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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