Casteleiro – O dia em que Eugénia Lima nos surpreendeu

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Há quatro anos, na Festa desse ano, a acordeonista Eugénia Lima esteve na Festa de Santo António e tocou para nós. Este ano, a Festa foi muito diversificada, como se viu do programa. Hoje trago-lhe também uma lenda de um barroco mítico da minha aldeia. Delicie-se com esta leitura.

Eugénia Lima tocou no Casteleiro

Acabou a sempre bonita festa do Casteleiro. Veja as fotos e notas de reportagem aqui e aqui.

O Largo de São Francisco e o Largo do Emigrante são os palcos maiores destas iniciativas.
Por esta altura, há quatro anos tivemos uma grande alegria inesperada naquele dia 19 de Agosto. E eu escrevi aqui no ‘Capeia’: «Eugénia Lima fez-nos uma surpresa durante a festa e tocou no Largo de São Francisco. E não foi a primeira vez. Ninguém diria que tem 87 anos. Que dedos naqueles botões da concertina!»
Infelizmente, a acordeonista deixou-nos em Abril de 2014.
Presto-lhe aqui a minha homenagem.

Largo do Emigrante no Casteleiro

Largo do Emigrante
Justa homenagem. Uma terra como a minha merece ter um largo assim, e nele uma escultura que mostre de forma simples e clara que a emigração foi a porta de saída, a única saída e bem negra de sacrifício, para a maioria – mas a grande maioria dos rapazes e homens válidos da aldeia. O monumento que ali fica para o futuro regista esse passado. É da autoria de um quase conterrâneo: Augusto Tomás, de Santo Estêvão. Um dos tópicos da escultura refere na lateral: «Ei-los que partem / Velhos e novos…». Só isso. Mas chega para me dar o mote. Gostava que ouvisse então esse poema de e cantado por Manuel Freire. Clique aqui e delicie-se. A letra diz assim: «Ei-los que partem / novos e velhos / buscando a sorte / noutra paragens / noutra aragens / entre os povos / ei-los que partem / velhos e novos». Não é mesmo tal e qual os meus tios quase todos?

O Barroco Riscado
Chegou agora o momento de lhe falar da saudade que se sente quando se pensa em locais como o Vale que dá para Sortelha ou a lenda do Barroco Riscado…
Recordo e imagino sempre as gerações e gerações a olhar do Vale lá para cima e a imaginar lendas, fazem deste rochedo um mito local. Fica na encosta que dá para o Vale Casteleiro / Castelo de Sortelha, mas do lado esquerdo de quem sobe. É um simples barroco. Mas, por ser tão imponente, sempre encantou as pessoas.
Quem não conhece o imenso e belo vale que liga a Serra da Vila (Sortelha) ao Casteleiro, nem vai imaginar do que falo. Mas quem conhece, vai gostar de ler.
Há muitos, muitos anos, nos tempos de antanho, houve uma lenda encantadora que incluía mouras encantadas e a certeza popular de um tesouro escondido debaixo de um rochedo enorme – o Barroco Riscado.
O penedo vê-se de quase todo o Vale. Na foto, fica à direita do campo observado.
Por este mesmo vale, mas do outro lado, corre a mítica Ribeira da Nave, tradicional fonte de fertilidade, com a sua água abundante e cristalina.
Nestes campos de todo o vale, milhares e milhares de pessoas labutaram, de geração em geração, produzindo o essencial do seu sustento.
Todo o Casteleiro e muita gente de Sortelha sempre viveram o Vale e os seus mistérios.
Olhar cá de baixo para o Castelo deve ter feito as delícias de toda a miudagem desde tempos idos. Da minha, na década de 50 do século XX, fez de certeza – e não acredito que eu fosse muito diferente, enquanto criança, dos miúdos deste local que viveram no tempo em que se usava a Calçada Romana como via de atravessamento do Vale ou dos que ali viveram na Idade Média, por exemplo.
Pois é mesmo quando olhado deste Vale que o Barroco Riscado ganha proeminência de quase feitiço.

A lenda
Contava-se que um dia um cavaleiro e o seu aio passavam pelo local e o nobre terá lido o seguinte numa inscrição feita na pedra: «Quem me voltar, grande surpresa há-de encontrar». Mais ou menos isto. Foram buscar reforços à aldeia e à vila e lá conseguiram virar o monstro do Barroco Riscado. Depois de virado, encontraram outra inscrição, que foi de facto uma surpresa: «Bem-haja quem me virou / Que já há tantos anos deste lado estou».
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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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