O Senhor Abade do Sabugal

Jesué Pinharanda Gomes - Carta Dominical - © Capeia Arraiana

Só através do «Amigo da Verdade» de 16 de Julho tivemos notícia escrita e mais circunstanciada do passamento do senhor Padre António Teixeira de Almeida Souta (Belmonte, 1921 – Cerdeira do Côa, 6.7.2017), antigo Abade do Sabugal. Com a dignidade de Abade, havia dois no concelho: Sabugal e Quadrazais. Outras paróquias tinham as dignidades de Vigário, Prior, Reitor e Cura. Também era nomeado por Padre Soita.

Padre António Teixeira Souta

No «Amigo da Verdade» do dia 16 de Julho lemos dois artigos, nenhum deles assinado, mas que não temos dúvida de que um é da lavra do Padre Geada Pinto, e outro, do Padre Manuel Igreja Dinis, actual Abade do Sabugal. Ambos indicam as principais datas da biografia do falecido. Ordenado sacerdote em 1943, pelo bispo D. José Alves Matoso, na idade juvenil de 22 anos, sendo então nomeado pároco de Trancoso, onde se manteve até 1950. Neste ano, o então abade do Sabugal, Padre Côrte Real, trocou de paróquia com o Padre Souta. Foi aquele para Trancoso e veio este para o Sabugal.
Apesar dos poucos e breves períodos que passávamos pela vila, pudemos apreciar a sua personalidade de pessoa aberta, afável, interessada nos problemas e ocupações de cada um, a sensibilidade pastoral e a dedicação sacerdotal. Não temos por certo, mas julgamos que a ideia de celebrar as comunhões solenes na festa de Santa Teresinha, em Maio, foi ideia sua. E também nos ocorre o vivo ambiente de fé durante a passagem da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, há mais de cinquenta anos.
Prégador de clareza e de bom conselho. No tempo em que o abade de Quadrazais era o Padre Manuel Joaquim Correia (estamos a referir apenas alguns anos antes de 1950, pois ele continuou ainda por muito tempo), o prégador habitual da Semana Santa era o Padre Fatela, muito apreciado em Quadrazais. O sermão de Sexta-Feira Santa transformava-se num vale de lágrimas. Quando a imagem da Senhora era elevada até ao púlpito e de suas mãos o prégador tirava a verónica, que lentamente desenrolava, mostrando as chagas de Jesus, muitas mulheres choravam e gritavam e desabafavam angústias: ou maridos ou filhos mortos, outros presos, outros doentes. Mães que partilhavam as dores com a Senhora, por excelência das Dores. Mas, quando o Padre Fatela não ia, o Padre Souta era o prégador desejado. Mudava a tónica, mas acentuava a compreensão dos mistérios. Era, aliás, o arcipreste do Sabugal, em cujo Externato Secundário foi estimado professor.
Por volta dos anos Sessenta, criou no semanário «A Guarda» uma página sobre temas sabugalenses. Datam desses anos, os nossos intercâmbios epistolares, pois aceitava o que de Lisboa lhe enviávamos, tendo sempre lugar sobretudo para uma série de artigos sobre a história e a cultura quadrazenhas.
Era desejo do Padre Souta ter um jornal concelhio. Na falta de outra solução, negociou com o «Amigo da Verdade» uma edição própria, intitulada «A Voz do Sabugal» (1962-1967) em que o concelho passava a ter voz própria. Nas quatro páginas do «Amigo da Verdade», a quarta intitulava-se «A Voz do Sabugal», que foi logo um elo para todo o mundo, sobretudo para o da emigração.
Em 1968 (7 de Janeiro), a «Voz do Sabugal» findou e foi substituída pelo título de «Amigo do Sabugal». Dado o aproveitamento do original do Amigo da Verdade, o novo título era como que «o Amigo da Verdade do concelho do Sabugal». Ainda continua vivo, mas, dadas alterações legislativas levaram à retoma do título «Amigo da Verdade», a quarta página, sendo produzido pelo Pároco da sede do nosso concelho, que regularmente nos faz comungar dos seus excelentes dotes de poeta. No nosso livro A Imprensa da Guarda, que existe no Centro de Estudos J. P. Gomes, tratámos destas edições a páginas 177-180.
Em tempo, liberto do múnus paroquial, fixou residência no Colégio da Liga dos Servos de Jesus da Cerdeira, onde rendeu a alma ao Senhor. Jaz na terra natal, Belmonte.
Ocorrem-nos agora dois factos. Um deles, a forma como organizou, no Sabugal, em 1997, as cerimónias litúrgicas envolvendo o arciprestado, para a comemoração do sétimo centenário do Foral dionisiano do Sabugal. Outro:
A sua acção a favor da Biblioteca Municipal. Cerca de 1970, ambos falámos sobre o assunto. E mostrámos ao bom amigo, o nosso interesse em disponibilizar cerca de mil livros (ou mais) que tínhamos acumulado por ofertas (sobretudo de escritores do Distrito, quando investigámos material para o «Dicionário de Escritores do Distrito da Guarda», 1970), e provindos dos jornais e revistas onde assinávamos crítica literária. Era no tempo do Sr. José Maria Baltazar, Presidente da Câmara. Os três (Presidente, Padre Souta e o ofertante) assinámos um protocolo, pelo qual oferecíamos ao Sabugal um milheiro ou mais livros identificados com o carimbo FUNDO BIBLIOGRÁFICO LUÍSA RODRIGUES BICHEIRA (em homenagem à memória de minha querida mãe) e devidamente numerados. Exemplares deste Protocolo devem existir na Biblioteca e na Câmara.
Porém, não havia condições, e o Padre Souta teve dificuldades em arranjar uma solução, pois não havia uma biblioteca já instalada. Assim, as remessas de livros que fomos enviando estiveram guardadas nos Bombeiros Voluntários, durante alguns anos, até que, finalmente, a Câmara inaugurou a Biblioteca Nuno de Montemor para onde os livros foram transferidos, constituindo o seu primeiro núcleo de carácter literário.
O Padre Souta é, pois, agente de primeira linha da história da Biblioteca Municipal. Pessoalmente consideramos que o acervo doado naquele tempo é uma pré-extensão do Centro de Estudos J. P. Gomes, cujo 5º aniversário se celebrou no passado mês de Junho.
Será desejável que o Sabugal celebre, em 2021, o centenário do nascimento do Senhor Padre Souta. Não faltará quem escreva para um In Memoriam.
Assim seja.
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«Carta Dominical», Pinharanda Gomes

One Response to O Senhor Abade do Sabugal

  1. O artigo é um bom testemunho da personalidade do Abade Souta . Muito bem escrito trazendo à colação algumas coisas grandes da maneira de ser do Padre Souta. Se a memória me não faltar e se a existência mo permitir terei todo o gosto em participar na sugestão do Autor Pinharanda Gomes- a quem cumprimento e felicito- para colaborar no In Memoriam para 2021- será mesmo uma obrigação dada a Amizade que nos prendia.

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