Vasco da Gama – a sua chegada a Calecute

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Em Maio de 1498, nas naus fundeadas lá longe, frente a Calecute, chegou uma barcaça com um mensageiro. Prepararam os canhões não fosse algum ataque ou armadilha.

Vasco da Gama em Calecute

Era um convite do Rajá, que ficara impressionado quando lhe falaram em grandes barcos de enormes velas fundeados na baía.
Queria conhecer o Almirante, saber o que queria e que proveitos podia tirar da sua visita.
Vasco da Gama foi ter com ele levando um séquito armado, pois podia haver uma emboscada.
O irmão, Paulo da Gama, ficou na nau com ordens que se eles não voltassem que bombardeasse a povoação com todos os canhões.
O hindu que os recebeu em terra levou-os ao palácio que era bem longe, no interior, que originou desconfianças e temores.
– Mantenham as armas aperradas e arcabuzes prontos!
Pelo caminho os marinheiros olhavam para todo o lado, tentando encontrar mulheres daquelas terras.
As que viram tinham um pontinho vermelho na testa.
– São mulheres casadas – foram assim avisados para terem respeito nos olhares.
Passadas umas horas chegaram à entrada do Palácio do Rajá.
Os Portugueses ficaram de boca aberta e olhos esbugalhados. Nunca tinham visto tanta beleza!
Mais atónitos iam ficando a medida que entravam no Palácio, com os jardins envolventes cheios de flores cheirosas e lagos onde se viam peixes coloridos e passarada de várias cores.
Num recanto viram uma imponente estátua de uma deusa feminina que pareceu familiar a todos, embora com vários braços entrelaçados.
Vasco da Gama então ordena com o seu vozeirão:
– Ajoelhemo-nos perante a Virgem Maria, que aqui também veneram!
Os hindus foram a correr contar esta cena ao Rajá que ficou muito sensibilizado e agradado.
Mandaram-nos entrar para um Salão enorme ornamentado de alto a baixo com sedas de várias cores.
Entretanto o intérprete informou Vasco da Gama que ouvira qualquer coisa que fez o Rajá voltar para trás.
Vasco da Gama sentiu-se ofendido por esperar tanto tempo e de pé.
Os criados trouxeram arroz de peixe para comerem. Vasco da Gama com receio de estar envenenado, foi o único que não comeu. Optou por comer uma fruta esquisita, amarela, do tamanho de uma mão aberta. Começaram a comê-las e ouviram-se risadas da criadagem. Era preciso tirar a casca do fruto e comer o interior mole.
Foi assim que os Portugueses descobriram a “banana” !
Chegou finalmente o Rajá.
Vasco da Gama e os seus fizeram-lhe uma grande vénia, assim foram aconselhados.
Trazia um pano de seda branco a tapar o nariz. É que disseram ao Rajá que os Portugueses cheiravam mal, um fedor insuportável. Mais pareciam terríveis piratas do mar, tal o mau cheiro que exalavam.
Era verdade. Naqueles tempos as pessoas em Portugal e por toda a Europa nunca tomavam banho desde que nasciam até morrerem. Provocava doenças pelo escamar da pele, diziam.
Ainda por cima estes Marinheiros estiveram 3 meses em alto mar, convivendo com a maresia e o mijo das ratazanas dos porões.
A roupa guardada nos malotes cheiravam a mofo e tresandavam a merda.
No Salão indicaram a Vasco da Gama que se sentasse nuns grandes almofadões coloridos.
Como a sua vestimenta de Almirante era espalhafatosa mas apertada, ao dobrar-se para se sentar inúmeros rasgões aconteceram na roupagem o que provocou grande risada nos Hindus e até nos Portugueses, pois pareceu a todos que Vasco da Gama, homem corpulento, tinha largado uns valentes e ruidosos peidos.
Acabou logo ali a primeira reunião e o intérprete disse a todos os Portugueses:
– Amanhã há nova reunião com o Rajá e peço-vos para não cuspir, arrotar ou escarrar no chão, nem peidarem!
Por escritos recentes, sabe-se que o Rajá não valorizou muito a presença de Vasco da Gama.
Se eles vieram de barco e por mar é porque a terra deles é uma ilha e portanto uma nação pequena. Sentiu apenas curiosidade por ver aquela gente esquisita, embora mal cheirosos.
Quase acertou e Vasco da Gama teve mais tarde de resolver o assunto ao que vinha com bombardas e grandes carnificinas só para encher os porões de pimenta, canela e gengibre para entregar em Lisboa ao seu Amo e Senhor, o Rei D. Manuel I.
:: ::
«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

Deixar uma resposta