Apreensivos!

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Foram excessivas as desditas deste findo mês de julho. Após o inferno de chamas que o consumiu, exuberou a tristeza cálida das cinzas.

O chão semiapagado ainda gera polémica

As fragilidades dos sistemas de segurança foram desnudadas e deixaram à vista uma ostensiva ineficácia.
Os rescaldos pardos e soturnos impedem, agora, o olvido da tragédia relembrando a recente passada da morte.
Ainda sob o mal dissipado nevoeiro de fumo, já era possível constatar a disputa de tempos de antena. No chão semiapagado, surgiam legiões de repórteres esquecidos do rigor informativo. Antes se esforçavam por ganhar créditos tentando sacar dividendos da tristeza mais triste de todos os verões de que há memória. Disfarçaram muito mal os seus interesses. A venda fácil de palavras e imagens transformou-se em objetivo. Buscavam-se as vítimas e apontavam-se-lhes microfones devassando-lhes, cruelmente, as mais profundas mágoas. Repetiam-se reportagens e entrevistas e criavam-se situações repugnantes, não apenas por tendenciosos e indigentes, mas também porque, para além da manipulação das notícias, manuseavam-se consciências e escarafunchava-se, ridícula e pestilentamente, nas emoções dos mais sacrificados.
Mas não foi apenas sobre o chão queimado que se semeou a manipulação. Também na comodidade dos estúdios se deu cobertura a escandalosos aproveitamentos.
Torna-se, assim, muito difícil acreditar na boa fé de pseudojornalistas que ousaram utilizar técnicas de interrogatório tão indecorosas e ficamos sem saber o que mais os impulsionou, se a inconsciência se a ignorância.
Vieram, também, ao terreiro enegrecido, diversos políticos, alguns deles, em bicos de pés e de língua afiada sacudindo ou apontando responsabilidades, pondo a nu, apesar da tragédia, a vontade de colher proveitos.
Impossível, portanto, evitar o nosso azedume e a crítica que fazemos tanto à cobertura televisiva da tragédia quanto à hipocrisia política que alguns não foram capazes de ocultar.
Seguimos, sim, apreensivos para agosto, emergidos num calor triste que nos queima e destroça a alma, magoados pela angústia da imprevisibilidade de novos suplícios, martirizados com o deficit de meios e com a sua precária utilização e indignados com grande parte dos procedimentos e dos métodos.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

One Response to Apreensivos!

  1. António Emídio diz:

    Amigo Capelo :

    Sabes em que se transformou a comunicação social ? Numa mercadoria que só visa o lucro, com isto, perdemos nós todos, ela própria, a comunicação social e, a que mais perdeu foi a VERDADE…

    António Emídio

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