Casteleiro – A Festa de hoje e as medidas de antanho…

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Adoro o assunto da crónica de hoje: dantes não se falava de quilos nem de litros para medir certos produtos. E os nomes e medidas variavam consoante se tratasse de líquidos ou de sólidos e, dentro deste último «ramo», conforme se tratasse de produtos grandes ou de grão… Já vamos explicar e perceber isso tudo – matéria que tem muita piada e nunca mais será igual…

Este é o pograma para o próximo fim-de-semana na minha Aldeia.
Três dias cheios de animação (amplie o cartaz e veja cada rubrica, por favor.

Agora que já viu o cartaz e estudou o programa da Festa de Santo António, vamos então ao tema de hoje: as medidas de sólidos e de líquidos de antigamente (ou seja, de quando eu era miúdo).
Como se media a batata colhida ou o pão (centeio)? Como se mediam as bebidas, os líquidos? Há palavras que hoje trago aqui e que os mais novos nem sequer conhecerão… Só por isso, já vale a pena arriscar ser colocado na prateleira das velharias…
No acto da venda do vinho ou da compra de batata de semente, os indicadores de peso e de medida não eram em geral os mesmos que hoje usamos.

Medir os sólidos…
As designações das medidas usadas para os sólidos (centeio – «pão» –, batata, milho etc.) são as que seguem. Pelo menos as principais, que serão aquelas de que me lembro melhor. Exemplifico logo a que mais se aplicavam, para melhor entendimento ou rememoração.

Uma arroba de batata: 15 quilos. Um alqueire de pão (ou um meio ou uma quarta de pão – metade de um meio, um quarto – sempre relativamente ao alqueire, claro).
Um alqueire, eram mais ou menos 14 litros: 14 quilos, aproximadamente. Um quarteirão de sardinhas são 25.
E a lenha?
Era assim que se falava: uma carrada de lenha se fosse no carro de vacas; uma carga de lenha se fosse na burra.
Um alforge de produtos da terra, assente na albarda da burra; uma saca de milho ou uma fatcha de palha (um feixe), um cesto ou uma cesta de batatas… Eram medidas nada exactas mas bem certas para os agricultores desse tempo da minha infância.
Vale a pena deixar aqui uma nota de carácter etimológico: algumas das palavras acima referidas têm origem no árabe. Falo do almude (al-mude = «medida de grãos»); do alqueire (al kayl = bolsa de carga no dorso dos animais, sempre com determinado peso, mais ou menos sempre o mesmo); e do alforge (al-khurj = «sacola»).

Casteleiro

Para os líquidos…
Parece-me que para os líquidos (a água, mas, sobretudo, o azeite e o vinho) era mais variada a nomenclatura popular alusiva às medidas. Até porque pelo meio havia as medidas da pinga, quer na adega quer na tasca – e isso era coisa muito, mas muito séria…
Assim: o azeite, tanto quanto me lembro, era medido e referido em alqueires (é estranho, mas acho que era assim):
– Este ano, colhemos trinta alqueires de azeite.

Pote de barro

E para o azeite, sempre ouvi falar de «bilha» e de «pote».
Para o vinho, havia uma panóplia de medidas, desde as pequeninas como o copo de três até às «gigantescas» como a pipa (que podia ir aos 300 ou 400 litros, pelo que me lembro). Seguiam-se: a pipa, o pipo (mais pequeno), o barrico (mais pequeno ainda). Havia outra palavra, mas menos usada: barril. Talvez portanto «barrico» fosse apenas uma corruptela popular dessa outra palavra (barril).
Na tasca e para pequenas vendas falava-se de uma garrafa, um quartilho ou meio quartilho de vinho e, ao balcão bebia-se um belo de um copo de três…
Pelas vindimas, falava-se de «uma dorna de uvas» – quando se colhiam os cachos. A dorna servia para o transporte mas também para pisar, esmagar a uva, a fim de fazer o vinho.
Para a compra e venda de vinho, as medidas mais usadas eram: um almude (um pouco mais de 16 litros) e um cântaro – metade disso.

Agora que terminei, faça comigo um exercício, por favor: pergunte a dois jovens das suas relações se conhece estas palavras e se, conhecendo, saberão o que significam… Vai ter a mesma surpresa que eu!
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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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