Postal TV (183)

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

A minha opinião é muito linear: a nossa zona não está a arder porque já não há nada para arder. Mas Castelo Branco-Sul e Santarém-Norte, em toda a zona de Mação e até em Portalegre Norte (na linha do Tejo) estão a ser bem castigadas.

Esta imagem é de um incêndio enorme no Sul da Espanha

O Sul da França está a arder. O Sul da Espanha está em chamas. O centro de Portugal arde diariamente em milhares de hectares. O planeta aquece. E abemos porquê. A floresta anda sem regras – e sabemos porquê.

1 – Os incêndios e a falta de fogo interior
«Um incêndio florestal deflagrou na noite de sábado numa zona de pinheiros e de culturas de Moguer (Huelva)» / «Incêndio no sul de Espanha corta várias estradas e isola 50.000 pessoas».
«Incêndio no sul de França leva à retirada de 10 mil pessoas».
E outras notas.
Os jornais ‘on line’ estão inundados deste tipo de títulos e de entradas.
Portugal está muito traumatizado.
As televisões vão ao ponto de se colocar no meio do fumo para que tudo seja ainda mais nublado. Realismo? Acho que não: acho que é exagero de «voyeurismo» e de marketing emocional. Não por solidariedade, não por necessidade de informar. E sim para aumentar as audiências. E aumentam mesmo – infelizmente. Mas cumpriria a quem dirige estas estações ter o bom senso de nunca trilhar esses caminhos impróprios de Jornalismo e muito parecidos com os nojentos «reality shows» destas estações sem vergonha.
Repito: andamos todos em trauma. E há quem aproveite esse trauma, como sempre, para ver se retira dividendos políticos que não consegue de forma séria e com a necessária humanidade que falta pelas suas bandas… Sobra em demagogia e indecência o que falta em fogo interior – é o que é.

2 – O directo
Sossegado, a meio da tarde de ontem, dou comigo a percorrer os canais de Informação. Os incêndios a tarde toda. E nesse meu percurso dou com o quê?
Um directo em que um repórter vai a correr ofegante pelo fumo dentro.
E o «cameraman» atrás dele, atrás dele. E ele a falar de forma cada vez mais soluçante… e a câmara atrás dele… e o fogo lá em baixo… e o repórter cada vez mais aflito… até que de repente oiço o rapaz dizer:
– Pronto, agora já estamos aqui em zona mais segura…
Não era. Aquela corrida pelas ruas da aldeia tem todo o ar de encenação doentia e anti-rigor de Informação.
Um dia talvez se discuta se isto é útil ou rigoroso ou se se trata de uma criminosa encenação por razões de marketing e para provocar emoções – e apenas isso.
Fiquei sinceramente horrorizado com o truque.
Parecia um lamentável «reality show». Mais um.

3 – A lista
As televisões batalharam muito para que a PGR divulgasse a lista das vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande. E até acusaram António Costa de estar a esconder a lista. Ignorantes – é o que é. Ou então: mentirosos… Escolham…
A PGR tem total autonomia num Estado de Direito.
Eles não sabem isso? Mas, caneco, tanta gente com formação jurídica por essas Redacções dentro e ninguém pôs o dedo no nariz àquelas aventesmas?
A PGR, quando assim o entendeu, divulgou.
E sabem o que me parece: que para muitos foi uma desilusão. Que vergonha: parece que pensaram:
– Ora, bolas: afinal não são mais de 64.
Pensamento criminoso. Mas muitos desejaram que a lista fosse bem maior.
Desumanos, é o que é…
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«Postal TV», por José Carlos Mendes

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