A Visita Pascal na Aldeia

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Lembro-me das Visitas Pascais no Vale da Senhora da Póvoa porque participei nelas em dois anos consecutivos.

Visita Pascal

No dia anterior o Padre Chorão mandava-me recado para estar na Sacristia no dia da Visita Pascal logo pela manhã. Era eu e outro rapaz da Aldeia.
Vestia-nos aos dois uma opa pequena branca já muito usada.
Um levava a sineta, o outro uma pequena cruz.
O Padre Chorão ia todo elegante com a Opa de Vigário ou já amarelada ou avermelhada e uma estola dobrada na frente e com um gorro negro debruado a dourado na cabeça.
Acompanhavam-nos também dois homens que vestiam batinas de vermelho desbotado, um deles, o sacristão, nas mãos uma cruz metálica com Jesus Crucificado e o outro transportava a caldeirinha cheia de água benta e o aspergidor.
Nós rapazes gostávamos de seguir no cortejo da visita principalmente da parte da manhã. Sobretudo por duas razões:
Em cada casa que visitávamos, com os melhores tapetes ou toalhas estendidas à entrada e até na varanda, se houvesse – sinal que queriam receber a visita do “Senhor” – o Padre Chorão começava com uma lenga-lenga esquisita em latim, benzia com o aspergidor a casa com água benta tirada da caldeirinha e depois o sacristão dava a beijar a cruz às pessoas da casa que o faziam com respeito, de joelhos. A seguir o dono da casa convidava o Senhor Padre e nós os rapazes a comer das iguarias que estavam na mesa sobre uma toalha fina de linho. Havia bolos secos de várias qualidades feitos em casa, pão de ló ou panleve e às vezes pedaços de galinha fritos em azeite, passas, nozes e rebuçados. Para beber havia vinho, jeropiga feita na casa e anis escarchado trazido de França por familiar emigrante.
Nós os rapazes jogávamo-nos aos bolos secos. Comíamos e se ninguém da casa desse conta, metíamos uns quantos dentro dos bolsos. Sobre o beber, no meu caso aprendi a lição na minha primeira Visita Pascal. Bebi e abusei da jeropiga e por isso as visitas da parte da tarde foram um sacrifício tormentoso, por se tornar cansativo devido à “tontura” da carraspana.
Em nome da verdade, recordo-me muito bem do Padre Chorão, mostrar-se muito vermelho no rosto de tanto copinho beber. E tinha-o de fazer – se não o fizesse podia ser entendido como falta de consideração na casa visitada.
A segunda razão de gostarmos de ir no cortejo da Visita Pascal tem a ver com as raparigas da Aldeia. É que na Visita íamos vê-las nas suas casas, nos seus ninhos. No outro dia contávamos aos outros, mentindo, é claro, que tínhamos visto a cama onde esta ou aquela dormia!
Coisas do passado, coisas de rapazes, coisas da Aldeia…
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«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

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