Casteleiro – numa zona muito fértil

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Isto aqui, na zona do Casteleiro, Moita e Vale, é mesmo um cantinho do Paraíso… Uma aldeia não vive isolada: liga-se o mais que pode em cada época aos povoados confinantes. Hoje como ontem, sempre foi assim. Estas notas foram escritas há exactamente quatro anos e revisitei-as hoje com prazer…

Apanha da azeitona, uma das riquezas do Casteleiro

No que toca à minha terra, as aldeias vizinhas e com limites comuns aqui mais à mão são a Moita e o Vale.
O clima e as culturas, a economia e os hábitos de vida agrícola e aldeão eram muito semelhantes.
O Vale era e é, das três, a localidade mais quente no inverno e de clima mais ameno ao longo do resto do ano.

Esta é uma zona muito fértil
Estas aldeias situam-se em vales: o Casteleiro e o Vale, cada uma de seu lado da Serra d’Opa e a Moita «em hum valle, entre duas serras». Os vales são em geral zonas ricas. Aqui, por maioria de razão, uma vez que abunda na maior parte do ano agrícola a água para a rega, tão necessária à agricultura, que é a base da vida de cada uma das aldeias em apreço.

Maças

Agricultura, pecuária e caça
O que se sabe é que toda a gente vivia da agricultura – como ali se viveu sempre, até à emigração dos anos 60 do século passado. Em toda a zona se cultivavam muitos cereais e frutos. Havia hortas. Na Moita é registada a existência de ervas medicinais e castanha. O Vale tem «trigo, e tem hortas com mais frutos».
O clima no Casteleiro e na Moita é frio «mas saudável». No Vale é «quente e saudável».
No Casteleiro, há gado miúdo e caça de coelhos e perdizes. Na Moita encontrava-se muita caça (perdizes, coelhos, javalis, veados), e havia gados de cabelo e lã, como transmite o padre. No Vale, há «gado grosso e miúdo e caça miúda e montês».
Em qualquer das localidades, as terras são boas para a agricultura.
A água abunda por estas paragens. Não me custa imaginar as burras (noutros pontos do país chamadas picotas) que na minha infância existiam em cada «chão» (terreno cultivado). No século XVIII seriam poucas as noras. Mas haveria algumas.
Assim como haveria os riachos, as presas, as regueiras, as levadas da minha infância… E as bicas, as fontes, as minas (de água) e as presas nas serras.
Adiante, uma comparação do que os padres escreveram sobre as linhas de água da zona.

As ribeiras, a água da rega e as culturas de regadio
A água, como se sabe, é fonte de vida. Cada aldeia tem a sua ribeira. As águas eram livres (não se pagava imposto para as gozar ou utilizar) – coisa não pouco importante para a época. O prior da Moita chega a pormenorizar: «os povos (usam) de suas águas sem pensão alguma».
O Casteleiro é visitado pela sua Ribeira e mais quatro ribeiros. Havia água corrente até Julho e depois disso, até às novas chuvadas, «sempre nela se conservam alguns poços de água». Nos campos banhados por esta linha de água as culturas eram muitas e abundantes: hortas, oliveira, vinha, centeio, árvores de fruta.
Ah! E muito linho «de secadal». O padre não esqueceu (como podia?) os muitos amieiros ao pé da linha de água.
E acrescenta que na freguesia havia na altura sete moinhos, três lagares de azeite, dois pisões e, antigamente, «um tinte (tinturaria), porém hoje se acha demolido», diz o cura.
A Moita tem a Ribeira da Nave e vários regatos. Mas não corre todo o ano: seca.
Há nas suas margens amieiros e salgueiros (a juntar aos castanheiros e carvalhos da aldeia). A terra tinha moinhos, pisões e lagares de azeite, também.
Quanto ao Vale, tinha (e tem) a sua ribeira – Ribeira de Vale de Lobo, diz o Padre Manuel Olival – a qual ribeira vem da Serra do Mosteiro, a qual corre de forma amena e seca em parte do ano. Tem peixes pequenos (interessante que dos três padres é o único que fala dos peixinhos – que fizeram as delícias da minha infância e que já por ali nadavam de certeza ao tempo do padre Leal…).
Culturas: centeio e trigo. Árvores: oliveiras e carvalhos.
No Vale havia quatro lagares de azeite e quatro moinhos.
Resumo da zona: pelo menos treze ou catorze moinhos (tal a quantidade de centeio – e trigo); nove ou dez lagares de azeite (tal a abundância da azeitona por estas bandas), quatro pisões («…o pisão é engenho artesanal que aproveita a energia da água para movimentar pesados martelos em madeira para bater a lã e produzir um tecido de aspeto pastoso, homogéneo, espesso e forte chamado burel»). E até havia um tinte, no Casteleiro, para fazer a tinturaria do linho.
Zona mais fértil não há na nossa região, de certeza…

Bonito, não é????
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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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