A menina dos cinco olhos

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Acabo de ler o texto do meu prezado amigo Paulo Leitão Batista intitulado «Os castigos corporais aplicados na escola». Claro que não posso deixar de concordar genericamente com ele e com o autor que cita (o Dr. Cruz Neves que, curiosamente, foi meu professor na Escola do Magistério Primário de Lisboa). Mas irei mais longe, ao recusar terminantemente toda a «pedagogia do tabefe». Peço licença a Paulo Leitão Batista para retomar provisoriamente um espaço do Capeia Arraiana que já ocupei com alguma regularidade – Na Raia da Memória, – para trazer mais algumas achegas a uma temática que tanto marcou (negativamente) a minha infância e a de muitos dos leitores mais velhos.

Escola Medieval - Adérito Tavares - Capeia Arraiana

Escola Medieval

Há quatro mil anos, um escriba sumério falava assim das dificuldades de um jovem estudante: «Quando me levantei de manhãzinha, olhei para a minha mãe e disse-lhe: – Dê-me o meu almoço, tenho que ir para a escola! A minha mãe deu-me dois pãezinhos e eu fui para a escola. Quando lá cheguei, o vigilante encarregado de verificar a pontualidade disse: – Porque chegaste atrasado? Aterrado e com o coração a bater, apresentei-me ao meu professor e fiz-lhe uma vénia respeitosa. […] O professor leu a minha tábua e disse: – Falta aqui qualquer coisa. E bateu-me com a cana.» O rapaz, depois de muitos outros castigos, pediu ao pai que «amaciasse» o professor com um convite para jantar e um «presente»: «Ao que disse o estudante o pai prestou atenção. Convidou o professor e, quando ele entrou em casa, fizeram-no sentar na ‘cadeira grande’. O estudante rodeou-o de atenções e serviu-o.» E o pai disse aos criados, referindo-se ao professor: «Quero que o vistam com um fato, lhe dêm algum salário extra e lhe ponham um anel no dedo.» Após o jantar, o professor disse ao seu aluno: «Jovem, porque me escutaste, podes vir a ser um grande escriba […]. Podes ser um exemplo para os teus irmãos. […] Cumpriste bem as tuas tarefas escolares e és um aluno aplicado.»
Este curioso texto, registado em escrita cuneiforme sobre plaquinhas de argila mole, é talvez o mais antigo exemplo de «manteiga» da História. Nisto como em muitas outras coisas pouco mudámos. Alunos a «engraxar» professores não faltam por aí; e, quanto a corruptos e corruptores, estamos conversados; por outro lado, até há bem pouco tempo, continuava a haver quem zurzisse impiedosamente criancinhas por essas escolas fora, à bofetada, com canas ou com palmatórias (as «meninas dos cinco olhos», que eram réguas circulares com cinco buraquinhos). Exactamente como faziam os mestres sumérios, romanos ou medievais.
Quantos de nós não fomos vítimas dessa velha «pedagogia da lambada»? Há cinquenta ou sessenta anos, nas aldeias da Raia do Sabugal sobrevivia-se arrancando o sustento às escassas leiras de terra, alugando os braços por uma malga de caldo, ou levando carregos de café a Valverde. Escapava-se a esta fatalidade indo para o seminário ou vestindo a farda de polícia, de guarda-fiscal ou de guarda-republicano.
Mas, para isso, era necessário fazer a quarta classe. E lá íamos para a escola, beber as primeiras letras pela mão do mestre-escola. Havia uma sala para os rapazes e outra para as raparigas. Aprendia-se lentamente, cantando a tabuada e decorando tudo: o «Batem leve, levemente…»; os rios e os seus afluentes, as vias férreas, as serras (até o Pico Ramelau, em Timor!); e tudo o resto por aí adiante. Quando um de nós não tinha na ponta da língua os nomes e cognomes dos reis, ou as batalhas e as respectivas datas, levava com a cana na cabeça. Claro que nem todos os professores eram iguais, mas alguns aplicavam palmatoadas, com a «menina dos cinco olhos», nas nossas mãozitas enregeladas (no pino do Inverno costumávamos levar um caldeirinho com brasas, para ir aquecendo os dedos engadanhados e poder pegar na caneta de aparo). Depois de meia dúzia de palmatoadas (ou «bolos»), as nossas mãos ficavam arroxeadas, com ténues manchas esbranquiçadas no sítio dos «cinco olhos». Regressávamos ao nosso lugar a soprar-lhes, a abaná-las e a apertá-las debaixo dos braços.
E os pais não «faziam queixa»? Não. Receavam que o professor «tomasse de ponta» o seu filho e não o levasse a exame. Felizmente parece que tudo isto aconteceu na «pré-história» e até já é preciso explicar aos jovens o que era a «menina dos cinco olhos»!
Fui professor durante 50 anos, em todos os graus de ensino, do primário ao universitário, e prometi a mim próprio que nunca bateria num aluno. E orgulho-me muito de ter cumprido essa promessa.
Na ilustração que acompanha este texto vemos uma iluminura do Livro de Horas de Catarina de Clèves, do século XV, onde se representa uma «escola» medieval. O mestre segura na mão um pequeno feixe de varinhas, com o qual vai «sacudindo o pó» das orelhas dos discípulos e, ao canto da «cátedra», vemos uma palmatória. Quinhentos anos depois, em Aldeia do Bispo, o meu professor utilizava uma palmatória igualzinha a esta. Tinha é «cinco olhos».
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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

2 Responses to A menina dos cinco olhos

  1. Elementos historicos e etnograficos de Mação diz:

    Caro Dr. Adérito Tavares, meu prezado amigo:

    Como sempre, apreciei o teu texto e nada tenho a acrescentar-lhe.

    Também recordo o nosso saudoso Prof na Escola do Magistério de Lisboa, nos idos de 59-61 do século passado. São incontornáveis as suas histórias sobre o Criado Xavier e ilustradoras do tipo de educação preconizado no curso que fizemos juntos. A sua cadeira de Higiene teve um carácter abrangente e o dr Cruz Neves, sabia do que falava e muito particularmente como falava.

    Poucos anos me ocupei do “métier” para que fomos preparados e, quanto a mim, bem preparados. Mesmo, tendo em consideração os tempos que se viviam, não fomos treinados na técnica da bofetada ou do recurso à menina dos 5 olhos. Tive responsabilidades hierárquicas ( Director de escola e Secretário de Zona) e não omito que por vezes tenha saltado uma bofetada ou um puxão de orelhas, mas na Escola da Costa do Castelo – entre os Bairros da Mouraria e de Alfama – não era norma o uso de meninas de 5 olhos.

    Porém, frequentei um colégio na minha terra – em Mação, na Beira Baixa – e sou duma aldeia onde fui pioneiro – o 1º a completar um curso -. Nesse colégio com resultados escolares acima da média, poucos serão os alunos que, de crianças a adolescentes, não tenham sentido o peso das reguadas. Pessoalmente não provei tais tratamentos, mas lembro-me de assistir a barbaridades que, à época, eram toleradas, recomendadas e agradecidas pelos pais.

    Tive, depois desse serviço docente, responsabilidades de chefia e direcção, durante várias décadas. Comandei muita gente, seleccionada, preparada, reciclada, promovida e inspeccionada sob minha responsabilidade. Muitas dessas pessoas começaram a vida como nós – Professores de Ensino Primário. E, independentemente do que tenham feito no exercício da sua actividade docente, foram, genericamente, funcionários competentes, respeitadores, merecedores de promoções e muito capazes quando tiveram funções de chefia e direcção.

    Tal como tu, sou amante da História e entendo que é muito mal tratado o ensino dessa disciplina, desde os primeiros anos aos graus cimeiros da nossa academia. Talvez se queira ensinar factos desenquadrados das épocas e tempos em que tiveram lugar. Depois vemos os grandes historiadores comentarem e produzirem afirmações tão contraditórias quanto desacompanhadas das épocas a que se referem.

    Um abraço. Votos de muita saúde e coragem para a produção dos ensinamentos que os amantes de História te reconhecem.

    Prof. José Valente

    • Adérito Tavares diz:

      Caríssimo amigo e colega Marques Valente
      Tal como dizes no teu sempre oportuno e simpático comentário, recebemos boa preparação na Escola do Magistério, graças a mestres competentes e dedicados como o Dr. Cruz Neves, o Dr. Painho ou o Prof. Moreirinhas Pinheiro, sem esquecer o Director, o Dr. Dordonat.
      Quanto à História, como professor e autor de manuais, tenho procurado fazer dela uma disciplina formativa e informativa.
      Ultimamente tenho ido de vez em quando a Mação comer peixe do rio. É que tenho uma nora com raízes ali perto, nos Envendos.
      Abr.
      Adérito Tavares

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