O Sameão

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Morava ao S. Sebastião, ao lado de minha madrinha Dulce, tendo em frente a casa do home das bichês e o Cometa por bem perto.

Quadrazais

O home da Marzé Balvina, que guardou muitos anos em sua casa a imagem da Srª das Dores que, numa visita à aldeia, o bispo da Guarda mandara retirar da igreja, por ser imagem com vestidos, tinha sido ambulante de cavalo. Agora, já velhote, mantinha, contudo, um peito largo, que ganhava ao peito do Caracho, que servia de termo de comparação na aldeia. Era, pois, homem alto e forte o Sameão.
Embora ainda fizesse algum serviço nos seus chões, o corpo já não aguentava trabalhos muito duros e prolongados. Às tardinhas e nos Domingos era vê-lo na taberna do Galana, à Fonte. Com um copinho na goela, desatava a cantar em alta voz, uma voz de barítono invejável, deitando fora todo o ar daqueles valentes pulmões.
Por vezes a moda pegava e tinha companheiros em despique. Mas nenhuma voz se lhe comparava!
Nem as golas do Marelo, ou as golas dum capado, que serviam de termo de comparação para o canto! Como as ventas do Catarnocho serviam de comparação para a fealdade, cara de má vontade ou irritação e os bêços do Manhonho eram o termo de comparação para os beiços.
Um dia foi-se o Sameão, que a gadanha todos ceifa.
Quantas canções já terá cantado em despique com os anjos, sim, com os anjos, que ele era boa pessoa e deve ter ido para o céu, ajudado pela devoção da mulher à Srª das Dores! Não entrava em barulhos e, certamente, também rezava à santinha que guardava em casa. Gabarolice, muitas vezes a causa dos barulhos, também não a usava. Refugiava-se no canto para espantar as dificuldades da vida.
S. Pedro e demais santos já se terão fartado de ouvir o Sameão, que no céu as comparações de voz são outras?
Ou ele nunca por lá cantou porque não lhe dão algo que escorra pelas golas para as afinar?

Notas:
Bêços
– beiços
Bichês – bichas, sanguessugas
Chões – terrenos de cultivo
Golas – goelas
Home – homem, marido
Marzé – Maria José
Sameão – Semião

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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

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