Vasco da Gama – primeira viagem à Índia

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Detalhes não públicos da primeira viagem marítima de Vasco da Gama para a Índia – com partida de Lisboa em 8 de Julho de 1497.

Vasco da Gama navegou para Sul e depois para Ocidente para apanhar os melhores ventos

Esta pequena estória com pormenores sórdidos autênticos, tem de ser encarada no tempo em que aconteceram. A educação era outra, o comportamento dos navegadores eram na base da violência com outros Povos, por mor da Religião e das Especiarias.
Vasco da Gama (VG) foi escolhido para essa viagem por D. João II em detrimento de Bartolomeu Dias e do elegante e conciliador Pedro Álvares Cabral. O Rei entendia que com os Muçulmanos de religião “inimiga” não devia haver muito diálogo para encher os porões de especiarias. Toda a violência contra as populações visitadas estava legitimada pelo Rei e até pelo Papa. VG era o Almirante ideal para esses desígnios. Era homem experiente, abrutalhado e insensível.
Escolheu a tripulação da nau São Gabriel no basfond lisboeta. Vadios, ladrões, chulos e até presos das cadeias foram seleccionados.
Para as limpezas gerais das naus foram arrebanhadas das ruas de Lisboa crianças vadias e abandonadas de idades entre os 10 e os 15 anos e outras compradas a famílias pobres e miseráveis.
VG navegou para Sul e depois para Ocidente para apanhar os melhores ventos ganhando velocidade e a seguir voltando para Nascente até ao então Cabo das Tormentas.
Foi na primeira parte da viagem que aconteceram grandes dramas e até tragédias humanas terríveis.
Dentro da nau, de apenas 20 metros de comprimento por 8 de largura máxima, acotovelavam-se muitos marinheiros, crianças, oficiais e um religioso, Frei Pedro da Covilhã.
No meio do Oceano e já no Hemisfério Sul o alimento começou a escassear, a maior parte dele apodreceu com as humidades. Imaginemos aquele ambiente vivido durante cerca de 100 dias. As tempestades e os ciclones provocaram estragos nas velas e deitara mais abaixo o moral e havia desespero. Grassava a fome e até as solas das botas eram disputadas para serem cozinhadas.
Aos marinheiros que morriam de noite de doença eram-lhes arrancados bocados de carne do corpo inerte para matar a fome dos mais desesperados.
As ratazanas alimentavam-se dos mortos e elas por sua vez eram caçadas em grandes lutas.
Alguns atiravam-se ao mar, não suportando tanto sofrimento.
Os marinheiros para se entreterem faziam jogos e os que perdiam ou pagavam ou eram esfaqueados e mortos e logo jogados borda fora. Outros para pagar dívidas de jogo vendiam as esposas e filhas deixadas lá longe na Pátria.
Muitos marinheiros agarravam nas crianças e pela força ou ameaçadas por facas eram sistematicamente seviciadas e violadas. Os seus possuidores vendiam-nas em jogos.
Perante tanta atrocidade muitas das crianças optavam por se darem a marinheiros mais fortes para se sentirem protegidas. Se alguma delas ficava mais ferida e se queixava aos oficiais das sevícias sofridas era imediatamente morta ou atirada viva para o mar.
Que fazia VG perante estas atrocidades?
O religioso da nau bem reportava a VG o que se passava com essas crianças.
Este apenas respondia, em risada com os oficiais:
– Que encostem o rabo à murada!
No restante, nada fazia. Fingia que nada sabia, nada via. Estava tudo previsto devido as suas experiências em viagens anteriores. Tinha de chegar à Índia e voltar com os porões cheios de especiarias, não importava o preço a pagar em vidas ou os sacrifícios.
Os horrores atenuaram-se quando a nau arribou à Baía de Santa Helena, uns 200 quilómetros antes do temeroso Cabo das Tormentas.
Naquela Baía foram recebidos por mulheres negras indígenas nuas que aceitaram de boa vontade os avanços sexuais repetidos dos marujos em troca de botões, espelhos e bugigangas. As prolongadas orgias só terminaram quando se aproximaram deles um grupo de homens negros com ar de más intenções.
Carregaram água potável, trocaram tecidos e roupas por diversos animais vivos e partiram cheios de medo na direcção do Cabo das Tormentas, rebaptizado da Boa Esperança por D. João II.
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«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

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