Casteleiro – Reviver a minha infância: coisa bonita

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Esta semana reli e gostei de recordar algo que escrevi há cinco anos. Estas notas recordatórias referem-se a tempos passados que me parecem ser ontem, tal a vivacidade com que eles estão cravados na minha memória…

A geração anterior à minha está toda no Lar de São Salvador…

Quando somos crianças há três ou quatro realidades que nos dominam:
– o fascínio pelos mais velhos, designadamente aqueles com os quais nos queremos parecer quando formos grandes;
– o imaginário maravilhoso popular no seu melhor que enforma quase sempre as estórias contadas pelos profissionais da narrativa que todas as aldeias têm;
– o prazer de sabermos que em muitas ocasiões somos o centro das atenções e do mundo destes adultos que nos parecem tão fortes, e até o gozo de sermos gozados – porque, acho, queremos entrar no jogo das brincadeiras dos adultos da aldeia. Somos assim uma espécie de protagonistas da nossa própria fragilidade.

O homem do tempo
Havia no Casteleiro um homem que sabia sempre se chovia ou fazia vento. As pessoas tinham o hábito de lhe perguntar isso porque ele acertava mesmo. O segredo dele eram os dias do governo. A palavra governo aqui significa apenas «orientação».
Explicando: a teoria nesse tempo – agora já não será assim, com as alterações climáticas – era a seguinte: cada um dos dias entre 2 e 13 de Agosto (o dia 1 estava excluído desta tese) correspondia a um mês do ano seguinte. Ele dava-se então ao trabalho de registar de memória o que se passava nesses dias de Agosto (acho que cada hora correspondia a dois dias ou coisa do género, já não me lembro). E com essa informação, caldeada depois com a observação astral do próprio dia, o homem conseguia hoje dizer que tempo fazia amanhã com grande probabilidade e muito acerto.
Para mim, isto era uma maravilha estranha. Mas ele não era vidente – era um observador popular. Provavelmente hoje teria uma daquelas equivalências a mestrado.

A pedra das agulhas
Esta estória tocou-me a mim muitas vezes. Um sapateiro mandava-nos levar uma saca atada com um pedregulho lá dentro a outro sapateiro seu colega. «Era» a pedra das agulhas. As oficinas distavam aí uns 200 metros uma da outra. Um dos sapateiros, ti Luís Pinto de seu nome, era um ponto danado, estava sempre com piadas e ditos engraçados e a criançada assentava ali arraiais.
Um dia, diz-me ele:
– Olha, vai lá levar esta pedra das agulhas ao ti António Martins, que precisa de afiar as agulhas dele e as sovelas.
Eu, como era muito bem mandado, agarro no saco com a pedra, faço-me forte, arranco por aí acima e… «ala» para a oficina do homem.
Eles faziam esta matreirice de malandragem.
E nós a cairmos na esparrela.
Às vezes ainda duplicavam ou triplicavam a dose porque o outro, quando lá chegávamos, ainda tinha a lata de dizer que o ti Luís se tinha enganado e…
– Leva-a lá e diz-lhe para mandar a outra.

Pés endurecidos
Na minha terra havia um homem, pastor, que esmagava os ouriços com os pés descalços. Parece mentira mas não é. Segundo me contam, os primeiros sapatos que alguma vez calçou foram as botas da tropa (foi para a Marinha e julgo que terá ido para a Primeira Guerra). Isso queria dizer que andou nada menos do que 20 anos descalço.
Era tal a dureza da pele, que «britava» os ouriços com os pés. Os ouriços são os invólucros das castanhas e como se sabe estão protegidos de picos agressivos. Imaginem a situação: o homem a pisar em cima daquela coisa e as castanhas a saltarem.
:: ::
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

2 Responses to Casteleiro – Reviver a minha infância: coisa bonita

  1. Jaime rodrigues diz:

    Como tudo mudou . maioria dos se possam lembrar dessas passagens estão no lar, e ainda destes poucos dariam a história certa, Mas, ainda falta um caso muito especial ; O gato do ti LUIZ PINTO, por quem ele tinha uma amizade muito especial
    porque agarrava as andorinhas no seu voo rasante na rua direita e, só ele o fazia. As visitas do Ti João Pinto à estrada durante o dia onde ele tinha escondido na choça o vinho e o toucinho. O Sr. Antoninho Azevedo e tantos outros.

  2. Josecarlos Mendes diz:

    Olá, Jaime… Tanta coisa para ser contada, de facto… Vali a pena fazermos todos um esforço e prestarmos esse tributo às gerações anteriores à minha… Um dia, se calhar, vamos fazer isso… Obrigado por lembrar outros «cromos» do Casteleiro.

Deixar uma resposta