A árvore generosa – Maria dos Santos Marques

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Aos 90 anos, depois de ter suportado heroicamente tanto sofrimento, Maria dos Santos Marques reencontra o seu marido Manuel Bernardo Campos e o seu neto Emanuel Bernardo Fernandes para a Vida Eterna.

Maria dos Santos Marques

No dia 11 de Julho, a Eucaristia foi presidida pelo Pároco Casimiro Mendes Serra, que numa luminosa homilia recordou a Humildade e o Sorriso pacificador da sua Paroquiana, auxiliado pelo Padre Carlos Jacob da Congregação dos Missionários de S. João Baptista e pelo Diácono Francisco Lambelho, afilhado de Maria dos Santos Marques.
No final da cerimónia fúnebre, na repleta Igreja Matriz de Aldeia de Joanes, todos cantámos em uníssono a canção de Nossa Senhora do Amparo, a derradeira e porventura a maior oração comunitária pela grande alma de Maria dos Santos Marques. Para quem viveu quase um século com Aldeia de Joanes no coração (dizia que todo o mundo cabia na sua Aldeia), não podia haver despedida mais bela, justa e emotiva. Era a exaltação da vida de uma Mulher que foi para tantos “a Nossa Senhora do Amparo”, mas também a elevação aos céus da Alma de uma Comunidade.
Os belíssimos cantares das Gentes de Aldeia de Joanes varreram imediatamente a Morte e a poeira do Tempo, e tudo se tornou presente, nítido e transparente como a Alma de Maria dos Santos Marques.
As pessoas mais idosas vêem a “Mãe dos Pobres” na sua mercearia, oferecendo pão e outros bens essenciais aos mais carenciados. Para não humilhar ou ferir a dignidade de quem pouco ou nada tinha, apontava num caderno o nome das pessoas – “paga quando puder” -, sabendo perfeitamente que nunca pagariam. Esse “Livro dos Esquecidos” foi publicado para sempre no coração das pessoas que ajudou.
O seu Pároco Casimiro, que a acompanhou durante 18 anos, vê o Sorriso terapêutico e sereno que dava forças aos que sofriam e nos reconciliava com a Vida, apesar das misérias de cada um.
O seu neto Paulo vê a avó regar num pomar cheio de frutos.
A sua neta Elsa vê a avó abrir regatos de água para ela brincar e os galhos navegarem.
O seu neto Mário vê a avó, “guardiã da nossa infância na quinta da Nave de Cima”, aguardando que as pessoas acabassem de comer antes de se sentar à mesa.
O cortejo avança na direcção do Cemitério de Aldeia de Joanes. As oliveiras, que Maria dos Santos Marques tanto estimou, não faltam à cerimónia. Estão solenes no seu posto, ladeando o percurso.
Maria dos Santos Marques aproxima-se da sua Quintinha, bem na Cova da Beira, entre a Serra da Estrela e a Serra da Gardunha.
Maria dos Santos Marques sabe que regressa a Casa.
Maria dos Santos Marques não é um corpo sepultado, mas uma Semente que se lança na terra para as raízes da Bondade e da Generosidade voarem para sempre no Céu de todos nós.
:: ::
«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

Deixar uma resposta