Galramentos entre códrazenhos (14)

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Galramentos entre códrazenhos – Franklim Costa Braga publica neste espaço, dedicado à sua terra natal, textos em Gíria Quadrazenha. Depois da publicação de diálogos entre conterrâneos, expõe agora algumas histórias em gíria de Quadrazais.

Quadrazais

Passareloijos na pequena

Penham esperarsindo que galre de cinemas, teatros, concertos ó quejandos?
Nentes, aquisso são passareloijos da mata.
Cinema!? Passarsiu lá una vez o filme do Zé do Coberto levarsido por cinematógrafos ambulantes qu’alugarsiam uno coime, em cuja encostante do descanso caiado projectavam a película. Foi projectada atra película na encostante da cangrela de Sant’Ófêmia em reloijos já maquinados p’a campanha d’instrução publiquê do Ministério da Inducação e Culturê, com cenas de combate ó analfabetismo, se baro m’alembrarso.
Teatro!? Consta que lá fazunhiram una peça sobre o Roland ó a Paixão.
Nos moienos reloijos de Seminário, alembrarsimo-nos de mostrarsir nuno palco improvisado à Praça unas cenas do Terrible e do Zé Cangalhas que havunhíamos representado no Seminário. O poverno gostarsiu, mas o Semão Bicheiro, de férias, vunhido d’ Angola, é que perdunhiu os panos de cobrumpir o altmoble qu’emprestarsira, por se tunhirem rasgarsido.
Atão como passarsir o reloijo p’além do joguerno da sueca, seteno e meio e da redonda?
Nas oficinas de alfaiate, calcanteiro e nos comércios.
O Jão Coxinho, môco, para além de manco, adicava a só petesga calcantariê invadidê p’o sê nevério Cuco e mai unos montes e, pa mostrarsir que no Tortosendo aprandunhiam Alemão, vá de treinarsir os conhecementos.
– Du bist ein esel!-toi és uno gemo!
Minguante Jão Coxinho, ó Jão C’lhó! Mal soi óvunhiê o que le galravam im Português, q’anto mai vunhirem-l’agora com sons alemões! No le bastarsiê sunhir coixo das donas gãmbias e môco, q’anto mai agora sunhir gemo!
Gemo ó gema tunhiê ele p’ó transportarsir. Foi no gemo que s’apresantarsiu à militarosa na mesmerna roda que moienes. Lá muto mai gebo que mois quintos era soienes! Que culpê tunhiê sois que n’o tunhissem registrado no reloijo certo? Só q’ando q’runhiu altanar-se é que sabunhiu que no tunhiê indê nascido-no constarsia dos registros o sê nascemento. Baixa pró a de soienes!
Er’ó costume lá da reta. Por desleixo, esqueçunhiam-se os périos de procedunhir ó registro do nascemento, indê que lá hóvunhisse uno posto de registro, a cargo da marna do Senhor Zézinho, a inxinadora P’rificação.
Esqueçunhiam-se!? O problemerno é que no havunhiê galhal pa pagarsir o registro, por poco que fosse. Ó no penhavam pa pardunhir um lúzio de trabuco nas quinternas onde alentavam e maquinar ó povo fazunhir o registro. Deixarsiam passarsir o trintanário normal. Pa no pagarsirem multa p’o atraso, ó no registarsiam ó darsiam a daterna do nascemento como tunhindo sunhido posterior à realidade. Deixarsir de se batezer, aquisso nentes. Era terno mintir p’a no tunhirem de pagarsir a estampilhê do acto qu’a Republiquê tunhiê inventarsido p’a sacarsir galhal. Baptismo, era pecado n’o fazunhir!
Cunclusão. A maioriê dos códrazenhos tunhe a daterna de nascemento aldrabada, como podunhi cunstatarsir nas moienas pesquisês dos arquivos. A começarsir por moienes, que nasçunhi em 21 do trintanário da Sant’Ófêmia de 1943, a acreditarsir no registro do mercho Correia, mas no Registro Civil constarse a daterna de 24 do trintanário da Sant’Ófêmia.
O Jão Coxinho tunhiê sunhido atrasarsido unas vintenas e tal rodas. E lá se maquinê ele no sê geminho a andante do Sabuguel, q’ando noi atros maquinámos de caminete.
Ó menos no sofrunhiu a humilhação de se ponhir ó lado dos garbosos macalos qu’im reloijos anteriores montarsiam os quintos, fossem própios ó emprestados e no deitarsiu estoirantes a anunciarsir a chegarsida a Códrazais. Os reloijos já eram atros!
Claro que penhou livre pa podunhir continuarsir o trabuco de consertarsir calcantes, com unas tombas ó unê cosidela, qu’as calcantes tunhiam aberto a aberturê pa ingolumpir a redonda, causadora de tais males. Manejarsia muto baro a sevela, poi de manápulas no era aleijado, que cravarsiê na sola p’apoi infiarsir as guitês imbebidês im sebo ó pez p’a les darsir mai resistência.
Mutês tombas levarsiam os calcantes! Até já no podunhirem levarsir mai!
Mas pensarsem que maquinavam p’á retirada?
Nentes, indê passarsiriam por tamancos, com rasto de fustango que se comprarsiê nas trocadoras, ó qual era ligarsidê a sola por meio de brochas cardadas, tamém usedas por baixo, qu’o fustango no podunhiê gastarsir-se depressa. E p’á sola e fustango sunhirem reforçarsidos, vá lá unos aros de ferroso a tótia volta- os tamancos ferrados! P’as calçadas abaixo era una chinfrineirê pegada.
Mas, q’antos chambotes evitarsiram ao pisarsirem a nevursê, o códão e o gelo!
Antes de saiumpirmos p’á inxinante no Inverno, lá rolarsíamos prumeiro una brasinhê p’aqueçunhir o tamanco. Consegunhiam fazunhir aquisso nuno calcante normal!?
Devunhiam sunhir tamancos ferrados qu’usevam os rascalheiros no reloijo do Intrudo. Saiumpiam das sombras das esquinês à choina com granjos ramos de roble e vá de zurparem im quem passaria. A petesgada maquinava-se de soines a setenos calcantes.
Tamém devunhiê sunhir o calçado dos lobesomes! Fazunhiam tal estrondo p’as calçadas, que só podunhiê sunhir de tamancos ferrados. Corrunhiam acossados por respos e picarsidos das ventanas por algunos manês que guardasiam as varas de corrunhir os broncos nos cobertos p’a picarsirem im choinas d’Inverno os odiados lobesomes. Nunquê consegunhiram apanharsir nenhuno, pa sabunhir quem era o manês transformasido em lobesome im choinê de nocturnê-incheda.
O escuro da choinê criarsiê fantasmas. Vunhiu a luz eléctrica nas rodas sessentenas e acabarsiram-se os lobesomes! Apenas perdurarsiram nos insultos que lançarsiam a alguém:
– Or’ó lobesome!
Tombas nos calcantes tunhiam o sê praceiro nas cuedas qu’o Zé Vinhês deitarsiê nas tirês. Era p’ciso aproveitarsir baro a roperna até já se atiscar o amarelo e a nocturnê por entre êla. No eram só cuedas. Tamém as injoelheirês, q’ais guarda-redes na redonda, mas aquêstas presunhidês à roperna. Atisquem só! Aquilo qu’indicarsiê meséria natros reloijos, é agora moda na manegada, que gostarse os injoelhos e rabos rotos, q’ais minguantes.
Mudarsem os reloijos, mudarsem as vontades!
Fato pa Sant’Ófêmia era trabuco do Manel da Trindade ó do Jaquim Ratatau, atro dos poisos dos ociosos, que s’entetunhiam im adicar os mestres mandarsir a petesgada carregarsir c’uno enorme drepagulho e levarsi-lo a atro galfanhoto,
ó até calcanteiro. Er’á drepa d’aguçarsir as pica-piquês, galravam.
O destinatário, passarsido uno momenterno de descanso, carregarsiê atra vez c’o drepagulho e vá de o levarsir a atro colega de profissão.
Alegremente, no tunhiam aquesse hábito os corta-cabelo, senão imaginarsem como subumpiriê a rampa da Fonte até ó largo da cangra o petesgo que fosse mandarsido p’o Zé da Cruz ó colega Ferreirinho!
P’á petesgada o calcanteiro tamém era uno amigo que le darsiê unos furantinhos pa unumpir o cagulo à mangueirê do malha-malha, imitarsindo os malha-malha q’ aquêssa esquilona girarsiam nas manápulas de esforçados manês nas Eirês. O moieno amigo p’ó efeito era o Ti Tózinho, ali baro perto do moieno coime de baixo. Mas, q’ando maquinava a deitarsir unês tombas no Carrapatinho, indê cusino de moi méria e qu’era p’ciso ajudarsir, lá trazunhiê tamém o mê furantinho.

Nota: Não apresento a tradução para Português corrente porque esta história saiu no dia 7/07 em Capeia Arraiana – aqui.
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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

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