Natal de 1964 no Vale da Senhora da Póvoa

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Havia vários dias que se notava grande azáfama lá por casa. Eu não percebia bem de início, mas como se tratava de fazer comidas, eu já andava cheio de alegria. Havia uma dança de tachos, panelas, conchas, colheres, garfões.

O Dr Jaime Lopes Dias oferecia ao Povo da Aldeia, no seu Lagar, uma grande jantarada de batatas com bacalhau, couves e vinho

Coisas para fazer comida, via-se.
Portanto ia comer coisas boas, doces e trincar comida diversa.
Nesse ano a minha Tia Isabel é que comandava as operações em casa.
Este e aquele familiar fazia ou preparava isto ou aquilo para as tais comezainas do Natal.
Às vezes um Emigrante subia os degraus da casa. Eu, ou o conhecia ou deduzia que era emigrante porque era muito branco no rosto das friezas que por lá passava. Ofereciam ao meu Avô-Tenente uma garrafinha de aniz escarchado com uma planta branca esquisita lá dentro, ou caixas de bolos embrulhados em pratas coloridas e nesse ano alguém trouxe uma coisa que eu nunca tinha visto – canela em pó num saquinho.
Ia sendo sovado porque abri o pacotinho, meti o dedo e chupei. Repeti e repeti. Bem neguei que tinha sido eu mas os meus “beiços” estavam bem sujos de cor castanha.
A minha Tia Isabel deu-me um trabalho que até gostei dele, imagine-se! Tinha de correr e eu gostava disso.
– Zé Jorge, vai ao quintal, apanha a galinha preta que é a mais grande, mata-a e “traze-a” cá.
Foi uma correria atrás dela. A gaja corria, voava, cacarejava raivosamente tal como uma esganiçada parva. O destino estava traçado. Só à pedrada é que apanhei a maldita.
Alguém que tivesse passado na estrada do outro lado do quintal deve ter dito:
– Lá anda o galequedo do Zé Preto atrás das galinhas, até na casa dele!
Matar o bicho foi fácil. Os meus pés sobre as asas, naifada no pescoço e já está!
– Espera aí, é preciso para aparar o sangue! – gritou-me uma prima.
A galinha em meia hora estava despida. Foi metida em água quente, depenada e estripada. Nua, viu-se que era um bom pedaço de carne!
Faziam-se bolos, o pan-leve era o meu preferido.
Na tarde do dia 22 fritaram as filhoses num tachão de cobre já negro e meio-cheio de azeite a ferver, assente numa trempe sobre um grande braseal. Em cima as varas cheias de enchidos – morcelas, farinheiras, chouriças e buchos, sempre bem olhadas pelo Tio Joaquim Pimpão.
A minha Tia Isabel, qual mãe extremosa gritava para mim:
– Chega-te pra trás, podes-te queimar com o azeeete!
Às vezes eu estava bem afastado e ainda gritava para mim o mesmo aviso.
Deram-me uma filhó quentinha cheia de açúcar e uns pozinhos de canela. Quis mais, mas só tive direito a uma…
– No dia de Natal come’zas que quiseres!
Nessa noite trepei pela janela, aquela frente ao nosso lagar, e enchi os bolsos de filhoses que comi às escondidas no quintal na noite gélida!
A Tia Isabel, que era irmã solteira do meu Avô e que foi minha mãe adoptiva (a minha verdadeira Mãe estava emigrada em Moçambique) dava-me às escondidas rebuçados franceses cheios de licor no interior, mas sem as minhas primas verem.
Em casa alguém cozinhava a tal galinha e noutra panela umas grandes postas de bacalhau compradas à da Dona Saudade para serem comidas com batatas e com grandes folhas de couve que eu via crescer diariamente no quintal.
O meu Avô chamou-me de lado:
– Toma lá 5 escudos para beberes laranjadas à do Ti Zé Nabais.
O meu Avô ainda me deu nesse Natal dois grandes presentes.
Comprou na Loja do Senhor Pinto (era do Casteleiro) um tecido de lã esverdeado e mandou fazer um fato para mim a um alfaiate de fora e que vinha à Aldeia de vez em quando buscar serviço.
Um fato todo janota que até tinha colete e que ia originando uma tragédia, como contei numa outra estória. Relembrando um pouco – na tarde do Dia de Natal pendurei-me numa camioneta, caí e rasguei-me todo!
Também ganhei umas botas de cabedal. Passei muitas horas a esfregá-las com sebo de boi até ficarem com um brilhante castanho escuro.
Foi nesse Natal que me senti finalmente Grande.
À meia-noite de 24 para 25 de Dezembro na Igreja da Aldeia havia a Missa do Galo. Celebra-se, diz-se assim. Porque era de noite e fazia frio, eu estava dispensado da obrigação de ir à Igreja.
Contudo eu não me deitava por duas razões.
Queria espreitar o que se passava na Igreja nessa noite. Estava lá dentro toda a gente da Aldeia. As Mulheres, com véus rendilhados, tinha de ser. Com estes malditos véus era impossível distinguir as Mulheres das Raparigas, uma chatice.
O meu problema nessa noite era o galo. Iam matar algum durante a missa? Cantariam como ele? Na verdade foi sempre uma frustração que dura até hoje. Nunca vi por lá nenhum galo e nunca procurei saber porque se chamava Missa do Galo e que metia rezas e cantorias.
Nessa idade eu já sabia que galo bom e bonito era o da panela, cheiroso e pronto a comer.
A outra razão é que enquanto todos os de casa estavam na Igreja, então nós os rapazes vestíamos logo nessa noite as roupas e as botas novas que deveriam ser estreadas no dia seguinte, Dia de Natal.
Lembro-me de estarmos todos no chafariz e mirávamo-nos uns aos outros e foi nesses momentos que tive um desgosto dos grandes.
As botas de todos tinham protectores à frente e algumas até cardadas na sola e as minhas nada tinham. Ao andar as dos outros faziam aquele barulho do protector a bater nas pedras da rua. As minhas, nada. Não eram botas completas.
No dia seguinte, Dia de Natal, tive de ir à Missa. Fui com o meu Avô, bem vestido com o fato novo e ataviado com o colete de homem. Nos pés as botas reluzentes, mas sem os protectores.
Tive de aguentar o tempo todo da Missa junto ao meu Avô no lado esquerdo, perto do púlpito, ouvindo mesmo perto dos meus ouvidos o vozeadouro do Senhor Padre na hora do ralhete ou discurso.
Já nesse tempo eu sentia que não gostava dessas coisas de religião, ir à missa, confissão, comunhão. Parecia-me estar agarrado, preso, hirto, uma coisa dessas.
Ainda por cima a conversa do Senhor Padre era em latinório, portanto não sabia que chachada era aquela que ouvia – krieleizóne, pater nostrum, dominus vobiscum…..
Da Igreja só gostava de tocar os 2 sinos, isso sim, eu e os outros gramávamos muito fazê-los ressoar lá no alto do campanário por todo o vale.
Durante a Missa, o meu Avô perguntou-me sem esperar pela minha resposta:
– Confessaste-te? Então tens de ir comungar, vai!
Fui receber a óstia branca dada pelo Padre Chorão:
– Corpus Cristi?
– Amen, respondi eu e saboreei aquele pedacinho espalmado, esmifrado e redondo de pão branco sem sal.
Depois tive de ir com todos em fila beijar o “Manino Jasus” deitado numas palhas, as mulheres cantando “avé, avé…não sei que mais”.
Falta dizer que sempre disse em casa que sim, que me confessara ao Padre dessa e de outras vezes anteriores.
Mentira, sempre mentira, é claro, quem é que ia dizer ao Padre os pecados que fazíamos? Ninguém. Se fossemos, ele, um dos nossos inimigos na aldeia, ficaria a saber tudo sobre cada um de nós e iria contar às respectivas famílias as nossas proezas com aquele ar de gozo que sempre teve. Seria de imediato porradaria certa e da grossa.
Portanto era melhor negócio comungarmos sem nos confessarmos, fazendo cara de anjinhos puros! O Senhor Padre nem reparava nisso pois esquisitamente estava sempre de olhos fechados, mesmo andando. Milagre, só pode ser!
O Dia de Natal na Aldeia resumia-se à Missa.
O mais importante eram as comezainas em casa. O enfardanço. O alambazamento. Quero dizer, o almoço.
Tanta comida, tantos doces numa só mesa que lembro-me da dificuldade por onde eu devia começar.
Como rapaz que era com restos de criança, comer batatas com bacalhau, filhoses, pan-leve e rebuçados tudo ao mesmo tempo, era coisa natural. E simultaneamente atafulhar às escondidas os bolsos com os caramelos franceses, porque no dia seguinte era tudo fechado à chave.
À tarde era outra dose de comeres.
O Senhor Dr Jaime Lopes Dias oferecia ao Povo da Aldeia no seu Lagar uma grande jantarada de batatas com bacalhau, couves e vinho, tudo à balda, oferecido em grandes quantidades numa grande mesa junto à prensa.
Eu, de barriga cheia do comer de casa, dessa festa só me interessou um manjar.
Havia tabornas em grandes fationas de pão centeio, bem molhadas em azeite novo, escorrendo, era só tirar e levar as que quiséssemos
Era isso que me entusiasmava.
Lembro-me de pegar em duas delas e sentar-me fora do Lagar num lancil e tasquinhar nelas até fartar. Os rapazes do meu grupo vieram ter comigo também de tabornas na mão e foi conversar e comer até mais não.
À nossa frente, os cães abocanhavam rápido as côdeas das tabornas que lhes atirávamos.
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«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

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