Souto da Casa – um homem na guerra

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

«A Sorte Protege os Audazes» (Lema dos Comandos).

António Alfredo Campos

O nosso Homem chama-se António Alfredo Marques Fernandes Campos. Encontramo-nos num café perto do Hospital de Castelo Branco, onde a nossa sogra aguarda o fim do sofrimento nos cuidados paliativos. Aproveito a espera interminável para ouvir a história da sua vida. O nosso Homem, proibido de fumar e beber pelos médicos, acende um cigarro e começa a narração.
Nasceu a 29 de Abril de 1950, na freguesia do Souto da Casa, concelho do Fundão. Aos 18 anos tornou-se, a par de João Peralta (já falecido), num dos principais activistas da oposição ao regime, trabalhando durante vários meses na actual sede do PS do Fundão, por cima do bar “Sol e Dó” na Avenida da Liberdade, onde conheceu Alçada Baptista, entre outros. À noite andava de porta em porta, divulgando as ideias da oposição, empenhando-se fortemente na derrota do Presidente da Junta de Freguesia do Souto da Casa, que prometia ao povo, em caso de vitória, um almude de vinho e uma saca de bacalhau.
Nas eleições, o nosso Homem e os seus camaradas resolveram participar numa acção de contra-poder, trocando os votos das pessoas. Como os capangas do regime faziam o mesmo, era a única forma de ver o projecto libertador da oposição sair vencedor. Quando chegou a noite da contagem dos votos, a lista da oposição ganhou as eleições, tendo sido o Souto da Casa a única freguesia do país onde tal aconteceu.
As consequências não se fizeram esperar. Festejavam na adega do Nisa a vitória, quando apareceu a GNR com ordem para capturar António Alfredo Campos e João Peralta. As luzes foram imediatamente desligadas e os nossos activistas escondidos debaixo de uma cama. Mais tarde, foram levados a tribunal e só por acção do Dr. Laborinho Lúcio se conseguiu arquivar o processo e livrar estes Homens da pena.
Como vingança política, também se viu chumbado por um professor de Latim, ficando “preso” no Souto da Casa por apenas essa disciplina, tão cara ao regime. Como era obrigatório concluir o 7º ano para ser oficial na tropa, o nosso Homem teve que penar para contornar o obstáculo do Latim. Revoltado com a situação, “marrou” tanto a “Selecta Latina” que decorou todos os textos e verbos. Quando foi à prova oral a Castelo Branco, o carrasco do professor não teve outro remédio senão classificá-lo com 19 valores.
Seguiu para Lisboa a fim de estudar numa Escola perto da Basílica da Estrela e trabalhar na firma “Rocha Amado e Latino” (um armazém de ferragens). Vivia com o irmão Mário, estudante de Medicina, na Rua da Igreja. Ao fim de seis meses, sempre a chegar tarde a casa e a levantar cedo, cansado de acumular estudos e trabalho e só ver o irmão durante curtos períodos de tempo, convocou os pais nas férias da Páscoa e disse-lhes: “Não vou mais para Lisboa, quero ir para a Tropa.”
Pedido aceite, o nosso Homem fez as malas e aos 21 anos estava em Mafra na Escola Prática de Infantaria. Terminada a recruta, foi o 2º classificado no Curso de Oficiais Milicianos. Nessa altura, os primeiros dois classificados iam “direitinhos” para os Comandos. Assim, o nosso Homem foi para Lamego frequentar o Curso de Comandos em 1971, sob instrução do inesquecível Comandante Raúl Folques: “se fosse hoje, voltaria a ir”. A sua Companhia, inicialmente destacada para Angola, foi desviada à última hora para a Guiné. Em meados de Novembro de 1971, António Alfredo Campos embarcou no navio “Angra do Heroísmo” rumo a Bissau. Só regressaria da Guerra a 23 de Dezembro de 1973 a bordo do “Niassa”.
Logo após 8 dias de reconhecimento, a sua 35ª Companhia de Comandos foi render a 26ª Companhia, em final de comissão num dos piores teatros de guerra, a zona de Teixeira Pinto.
Aqui as lágrimas ampliam a visão interior dos acontecimentos em estilhaços de memórias:
Lembra as operações de 24 em 24 horas…
Lembra as emboscadas e a mortandade…
Lembra o simpatiquíssimo cabo João Carlos da Conceição Ferreira de Vila Franca de Xira, que na noite anterior à sua morte escreveu no diário: “vou morrer amanhã”…
Lembra o Cabo Granada que levou um tiro na barriga e foi morrer à metrópole passados 8 dias…
Lembra como o Alferes Machado “pifou” ao fim de poucos dias no mato…
Lembra os estilhaços nos braços do Alferes Cruz…
Lembra o Capitão Ribeiro da Fonseca, condecorado com a Torre de Espada e um braço 4 cm mais curto…
Lembra como comandou a Companhia durante 10 meses…
Lembra como o Alferes Rui Andrade foi graduado Capitão até ao final da Comissão…
Lembra a boa cerveja, o whisky, o frango, o bife de macaco…
Lembra a primeira vez que veio de férias em Agosto de 1972; quando ouviu os foguetes da Nossa Senhora do Amparo em Aldeia de Joanes, atirou-se para trás de uma árvore e foi gozado por todos…
Lembra o Salgueiro Maia, “um Homem espectacular”…
Lembra os soldados perdidos, a correrem para as trincheiras durante um bombardeamento, e os oficiais a beber whisky…
Lembra o apagão das luzes no quartel…
Lembra as palhotas onde os soldados se deitavam com as “gajas” que apareciam…
Lembra o fumo e fogo num ataque da “tropa indígena”…
Lembra um Alferes a chorar com o desabafo: “estes filhos da puta cavaram todos para a mata”…
Lembra como afastou das caixas de munições os bidons de gasolina a arderem …
Lembra como adorava andar de helicóptero e detestava o trabalho de secretaria….
Lembra a ausência de instalações quando chegou à Guiné e como todos se juntaram para construir um fantástico pavilhão: combatiam no mato, comiam e depois iam para as obras…
Lembra a marmita à chuva e ao Sol…
Lembra o presépio mais bonito da Guiné no 2º Natal…
Lembra o Capitão Ribeira da Fonseca que mandou confeccionar 46 perús para a Companhia…
Lembra os gajos condecorados que não saíam dos gabinetes…
Lembra que foi proposto para Cruz de Guerra e foi recusado por não saber fazer relatórios ou preencher papelada…
Lembra o louvor do General Spínola, que o “salvou” das propinas universitárias da sua filha Elsa…
Lembra o primeiro combate na véspera de Natal de 1971:
– “Alferes Campos, amanhã vais para o mato.
– Na véspera de Natal? Nunca mais vos perdoo.”
Lembra o baptismo de fogo em Balanguerez quando um gajo se aproximou com uma catana:
– Pára, filho da puta, se não mato-te!
Lembra a expressão de terror do primeiro Homem que matou: “parece que os olhos lhe saltavam das órbitas”…
Lembra os gritos de alarme, a corrida e os três balázios que lhe meteu nas costas…
Lembra a descoberta de depósitos de arroz que fizeram voar com um monte de granadas: “choveu tanto arroz, parecia um casamento”…
Lembra as “máquinas de guerra” Serafim e Armando, os únicos a quem emprestava a sua kalashnikov…
Lembra a chuva de morteiros e como se refugiou atrás de um baga-baga…
Lembra como voou no ar quando um morteiro caiu…
Lembra as noites suadas de insónias antes de ir para a mata da Caboiana, uma das piores zonas da Guiné…
Lembra o grupo de minas e armadilhas a desarmadilhar os trilhos por onde passavam…
Lembra o encontro com o General Spínola, que falava para um gravador enquanto escrevia “Portugal e o futuro”…
Lembra que se apresentou de luvas brancas, lenço preto e botas engraxadas, e que o General Spínola lhe mostrou o bar…
Lembra que a sua Companhia foi escolhida para fazer Segurança ao General…
Lembra Spínola com ele no mato, 10 minutos depois de duas emboscadas em que só cheirava a pólvora…
Lembra como o General Bettencourt deu porrada num vigia por ter um pé na parede e como confrontou o General: “Um Comando que bate num camarada Comando não vale a ponta de um corno como Homem”…
Lembra que a sua Companhia nunca matou um prisioneiro de guerra, eram todos entregues no quartel para interrogatório…
Lembra a mata cerrada que não deixava ver nada, nem do Céu…
Lembra um prisioneiro indicando o caminho com uma corda ao pescoço com nó corrediço…
Lembra a quantidade de sangue que um Homem liberta, como um balde despejado de tinta…
Lembra um soldado que furou uma Mulher à metralhada, ela já morta e ele a dizer: “agora venham montá-la.”
Lembra uma enfermeira degolada pela hélice de um helicóptero…
Lembra uma enfermeira esquecida no mato, como chovia fogo por todo o lado o helicóptero levantou voo sem ela…
Lembra a noite em que amparou essa Mulher e a levou para o quartel…
Lembra de desbastar o capim à catanada para o helicóptero aterrar…
Lembra de soprar nos botes para os fuzileiros atravessarem um rio selvagem…
Lembra de descobrir um trilho escondido com o camarada Serafim…
Lembra um parto que assistiu no avião, quando apanhou boleia com um médico para o Hospital de Bissau:
– Porra, Doutor, vamos ser parteiras?
– Parece que sim, ajude aí Alferes Campos.
Lembra a loucura dos pilotos em voo rasante sobre as Mulheres na apanha do camarão…
Lembra de transportar no avião um soldado com ataques epilépticos quando a porta abriu no ar:
– É o fim, daqui a bocado estamos com os cornos lá em baixo.
Lembra que os Comandos só recebiam o crachá quando todos os grupos tivessem tido contacto com o fogo…
Lembra a linda praia de Ofir cheia de coqueiros quando o General Spínola decretou “15 de férias para a 35ª Companhia, a melhor da Guiné”.
Lembra como apedrejavam os macacos para eles atirarem os deliciosos cocos…
Lembra o dia em que as Mulheres disseram que não havia peixe:
– Alferes, peixe cá não tem.
– Tragam o jipe e 2 ou 3 granadas, vamos pescar ao rio. A ver se há peixe ou não há.
Lembra as melhores ostras e os camarões com sumo de limão e piri-piri…
Lembra as cascas a cair no chão…
Lembra como os Homens eram afluentes vivos de um rio de mortos…
Lembra a fadiga, as manchas da carnificina, os camaradas caídos…
Lembra a plena festa da sobrevivência, o gozo infinito de ainda estar de pé depois de uma batalha…
Lembra que ainda acalenta o sonho de um dia voltar à Guiné…
Lembra o grito dos Comandos: “Mama Sumae!”, aqui estamos!, prontos para o sacrifício…
Épicas foram as discussões com o Coronel Rafael Durão, por quem tinha estima apesar das divergências. Um dia, o soldado de um grupo de Comandos deixou-se dormir, não se apresentando à hora devida para a escolta militar. O nosso Homem foi ao quartel buscar o soldado que faltava, prontamente sacudido de pancada pelo Coronel Rafael Durão à frente dos camaradas. O Coronel queria também castigar todos os Homens da Companhia, mais severamente ainda os Alferes presentes dos dois grupos de Comandos, onde se incluía o nosso Homem, que de pronto respondeu: “Quero que o meu Coronel se foda”. O Alferes Campos foi, assim, chamado ao gabinete do Coronel, que se preparava para lhe dar um “correctivo” com as mãos e os pés, além de ter decretado 8 dias de prisão para cada um dos Alferes. O nosso Homem, revoltado, convocou os 24 soldados armados da sua Companhia para estarem formados diante do gabinete e levou a sua kalashnikov, sempre carregada, para enfrentar o Coronel já dentro do gabinete:
– Ponha a kalashnikov em cima da mesa.
– Meu Coronel, a kalashnikov é minha.
– Vá para o caralho, seu filho da puta! Saia daqui!
– Não saio.
– Já lhe dei 8 dias de prisão, não complique mais a sua vida.
– Saio dos Comandos e vou para a tropa macaca, deixo de estar sujeito a morrer todos os dias.
– Vá-se embora!
– Estou a 15 dias de ir de férias para a Metrópole e só saio daqui quando tirar os 8 dias de prisão.
– Foda-se, vá lá para a Metrópole, vá lá para o caralho! Retiro os 8 dias. Agora saia daqui!
– Não saio enquanto não retirar também os 8 dias ao meu camarada Alferes.
– Ele que também vá para o caralho.
– Obrigado, meu Coronel.
Bateu a continência e saiu satisfeito por ter livrado o camarada da prisão.
Outro dia, o nosso Homem sofreu uma emboscada e o Coronel ordenou-lhe colocar a tela para ser visto pela aviação.
– Não ponho, meu Coronel.
– Lance uma granada de fumo!
– Não lanço.
– Está a gozar comigo, caralho?
– Não, meu Coronel, só não quero dizer aos inimigos onde estou nem levar com morteiros nos cornos.
– Ó meu filho da puta, você não vai aos objectivos!
– Na próxima operação convido o meu Coronel a ir comigo para o mato.
Quando voltaram a encontrar-se, o nosso Homem dirigiu-se ao Coronel:
– Meu Coronel, posso convidá-lo para almoçar comigo?
– Você tem colhões, vamos lá.
Almoçaram como dois amigos e passaram a jogar voleibol juntos todos os dias.
Regressado da Guiné em Dezembro de 1973, começou a trabalhar no Banco Pinto e Sotto Mayor em Abril de 1974, na Covilhã e depois no Fundão, onde foi subgerente. Reformou-se ao fim de 33 anos de serviço.
Desde então dedica-se à agricultura, acompanha a sua esposa Maria Adelina Bernardo e os seus dois netos: Maria e Miguel. Às vezes, na noite de Natal à lareira da sua casa, pega na viola e canta: “Vejam bem/tenham respeito./Eles levam crachá no peito/ cabeça erguida/sereno olhar./São os Comandos que vão passar”.
António Alfredo Campos é um Homem de corpo inteiro. Merece o Céu porque o Inferno já o passou.

P.S.: Agradeço ao meu filho Mário a ajuda na recolha destas memórias.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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