Passatempos na aldeia

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Estão à espera que fale de cinemas, teatros, concertos ou quejandos? Não, isso são passatempos da cidade.

Quadrazenhos de outros tempos

Cinema?! Passou lá uma vez o filme do Zé do Telhado levado por cinematógrafos ambulantes que alugavam uma casa, em cuja parede da sala caiada projectavam a película. Foi projectada outra película na parede da capela de Santa Eufêmia em tempos já idos pela campanha de instrução pública do Ministério da Educação e Cultura, com cenas de combate ao analfabetismo, se bem me lembro.
Teatro?! Consta que lá fizeram uma peça sobre o Roland ou a Paixão.
Nos meus tempos de Seminário, lembrámo-nos de mostrar num palco improvisado à Praça umas cenas do Terrível e do Zé Cangalhas que representáramos no Seminário. O povo gostou, mas o Simão Bicheiro, de férias, vindo de Angola, é que perdeu os panos de cobrir o carro que emprestara, por se terem rasgado.
Então, como passar o tempo para além do jogo da sueca, sete e meio e da bola? Nas oficinas de alfaiate, sapateiro e nos comércios.
O Jão Coxinho, môco, para além de coixo, via a sua pequena sapataria invadida pelo sobrinho Cuco e mais uns tantos e, para mostrar que no Tortosendo aprendiam Alemão, vá de treinar os conhecimentos:
Du bist ein esel! – tu és um burro!
Pobre Jão Coxinho ou Jão C’lhó! Mal ele ouvia o que lhe diziam em Português, quanto mais virem-lhe agora com sons alemães! Não lhe bastava ser coixo das duas pernas e môco, quanto mais agora ser burro!
Burro ou burra tinha ele para o transportar. Foi no burro que se apresentou à Inspecção no mesmo ano que eu. Lá muito mais velho que os meus quintos era ele! Que culpa tinha ele que o não tivessem registado no tempo certo? Só quando quis casar é que soube que não tinha ainda nascido-não constava dos registos o seu nascimento. Triste sina a dele!
Era o costume lá terra. Por desleixo, esqueciam-se os pais de proceder ao registo do nascimento, ainda que lá houvesse um posto de registo, a cargo da esposa do Sr. Zezinho, a Profª Purificação.
Esqueciam-se?! O problema é que não havia dinheiro para pagar o registo, por pouco que fosse. Ou não estavam para perder um dia de trabalho nas quintas onde viviam e vir ao povo fazer o registo. Deixavam passar o mês normal. Para não pagarem multa pelo atraso, ou não registavam ou davam a data de nascimento como tendo sido posterior à realidade. Deixar de se baptizar, isso não. Era fácil mentir para não terem de pagar o selo do acto que a República tinha inventado para sacar dinheiro. Baptismo, era pecado não o fazer!
Conclusão. A maioria dos quadrazenhos tem a data de nascimento aldrabada, como pude constatar nas minhas pesquisas dos arquivos. A começar por mim, que nasci em 21 de Setembro de 1943, a acreditar no registo do padre Correia, mas no Registo Civil consta a data de 24 de Setembro.
O Jão Coxinho tinha sido atrasado uns vinte e tal anos. E lá vai ele no seu burrinho a caminho do Sabugal, quando nós outros fomos de camioneta.
Ao menos não sofreu a humilhação de se pôr ao lado dos garbosos cavalos que em tempos anteriores montavam os quintos, fossem próprios ou emprestados e não deitou foguetes a anunciar a chegada a Quadrazais. Os tempos já eram outros!
Claro que ficou livre para poder continuar o trabalho de consertar sapatos, com umas tombas ou uma cosidela, que as botas tinham aberto a boca para engolir a bola, causadora de tais males. Manejava muito bem a sovela, pois de mãos não era aleijado, que cravava na sola para depois enfiar as guitas embebidas em sebo ou pez para lhes dar mais resistência.
Muitas tombas levavam os sapatos! Até já não poderem levar mais!
Mas pensam que iam para a reforma?
Não, ainda passavam por tamancos, com rastro de pau que se comprava nas feiras, ao qual era ligada a sola por meio de brochas cardadas, também usadas por baixo, que o pau não podia gastar-se depressa. E para a sola e pau serem reforçados, vá lá uns aros de ferro a toda a volta -os tamancos ferrados! Pelas calçadas abaixo era uma chinfrineira pegada.
Mas, quantos tombos evitaram ao pisarem a neve, o códão e o gelo!
Antes de sairmos para a escola no Inverno, lá rolávamos primeiro uma brasinha para aquecer o tamanco. Conseguiam fazer isso num sapato normal?!
Deviam ser tamancos ferrados que usavam os rascalheiros no tempo do Entrudo. Saíam das sombras das esquinas à noite com grandes ramos de carvalho e vá de zurparem em quem passava. A miudagem fugia deles a sete pés.
Também devia ser o calçado dos lobesomes! Faziam tal estrondo pelas calçadas, que só podia ser de tamancos ferrados. Corriam acossados por cães e picados das janelas por alguns homens que guardavam as varas de correr o boi nos telhados para picarem em noites de Inverno os odiados lobesomes. Nunca conseguiram apanhar nenhum, para saber quem era o homem transformado em lobesome em noite de lua-cheia.
O escuro da noite criava fantasmas. Veio a luz eléctrica nos anos sessenta e acabaram-se os lobesomes! Apenas perduraram nos insultos que lançavam a alguém:
– Ora o lobesome!
Tombas nos sapatos tinham o seu parceiro nas cuedas que o Zé Vinhas deitava nas calças. Era preciso aproveitar bem a roupa até já se ver o sol e a lua por entre ela. Não eram só cuedas. Também as joelheiras, quais guarda-redes no futebol, mas estas presas à roupa. Vejam só! Aquilo que indicava miséria noutros tempos, é agora moda na rapaziada, que gosta de mostrar os joelhos e rabo rotos, quais pobrezinhos.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades!
Fato pela Sant’Ófêmia era trabalho do Manel da Trindade ou do Jaquim Ratatau, outro dos poisos dos ociosos, que se entretinham em ver os mestres mandar a miudagem carregar com um enorme pedregulho e levá-lo a outro alfaiate, ou até sapateiro. Era a pedra de aguçar as agulhas, diziam. O destinatário, passado um momento de descanso, carregava outra vez com o pedregulho e vá de o levar a outro colega de profissão.
Felizmente não tinham esse hábito os barbeiros, senão imaginem como subiria a rampa da Fonte até ao largo por cima da igreja o miúdo que fosse mandado pelo Zé da Cruz ao colega Ferreirinho!
Para a miudagem o sapateiro também era um amigo que lhe dava uns preguinhos para unir o cagulo à mangueira do mangual, imitando os manguais que a essa hora giravam nas mãos de esforçados homens nas Eiras. O meu amigo para o efeito era o Ti Tózinho, ali bem perto da minha casa de baixo. Mas, quando ia deitar umas tombas no Carrapatinho, ainda primo da minha mãe e que era preciso ajudar, lá trazia também o meu preguinho.

Notas:
Cagulo – engenho de sola para prender o mangual à mangueira, permitindo o movimento desta.
Coixo – coxo.
Cuedas – remendo na parte traseira das calças.
Jão – João.
Livre – isento do serviço militar.
Lobesome – lobisomem.
Môco – mouco.
Quinto – o da mesma idade.
Rascalheiro – rapazes que, no Entrudo, perseguiam as pessoas à noite com grandes ramos de carvalho ou castanheiro.
Tombas – remendo na parte da frente do sapato.

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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

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