Ser samaritano

Religião - © Capeia Arraiana (orelha)

Em homenagem ao Padre António Teixeira Souta, que hoje nos deixou, publicamos o texto de uma sua homilia, proferida no Verão de 1974,numa missa campal em que foi celebrante quando visitou a comunidade sabugalense radicada em Lisboa, reunida em convívio na mata do Seminário dos Olivais. O texto demonstra que António Souta era um homem de cultura e um sacerdote apaixonado pelo concelho do Sabugal e pelo seu povo.

Padre António Teixeira Souta

José Régio – um homem da beira-mar a residir então em terras alentejanas -, num poema famoso, queixa-se de uma doença que o atormenta – a saudade – e chama em seu socorro, como remédio, o cheiro da maresia e dos pinheirais da sua Vila do Conde, trazido nas águas do vento.
Julgo que também vós, filhos das serranias das Beiras, a residirdes nestas terras babilónicas da Grande Lisboa, sofreis da mesma doença da saudade – saudade do torrão, onde nascestes e onde vivem vossos familiares e amigos; saudade dos ares puros que respirastes quando crianças e adolescentes; saudade da alegria simples dos vossos conterrâneos; saudade da amizade sincera e desinteressada que se vive naquelas terras frias, mas onde há calor humano.
E creio que foi para mitigardes essa saudade que vos reunistes aqui em alegre convívio, à sombra acolhedora destas árvores frondosas.
E quisestes ainda que alguém viesse das margens do Côa trazer-vos, com a sua presença, a presença das vossas terras amadas.
E aqui estou com muito prazer, um amigo entre amigos, a comungar da vossa alegria, a viver a vossa confraternização, a sentir os vossos anseios e progresso para vós e para as terras que deixastes lá longe e que eu trago comigo.
Trago-vos os ecos de antanho que ainda ecoam nas pedras musguentas dos nossos castelos roqueiros – Sabugal, Sortelha, Alfaiates, Vilar Maior e Vila do Touro.
Trago-vos a sombra amiga das matas de castanheiros, senhores e reis das nossas serras, que com pouco trabalho tão bem pagam a quem os trata, e ainda dos pinheiros, riqueza da nossa gente, que ultimamente têm deixado as nossas terras para se transformarem em pasta de papel.
Trago-vos as nossas montanhas que nos apontam o céu – Monte de S. Cornélio, o mais agreste, mas também o mais imponente; Serra de Malcata, refúgio de javalis selvagens; Serra das Mesas ou dos Fóios, coberta de florestas por onde se espreita para terras de Espanha.
Trago-vos sobretudo o coração dos vossos conterrâneos, esses que vivem as alegrias e as dificuldades do torrão natal, que regam com o suor do seu rosto e que cobrem das flores do seu trabalho. Muitos sabem do nosso encontro aqui através do Amigo do Sabugal e estão connosco em pensamento e em espírito. Muitos desejariam vir também, mas agora é tempo de muito trabalho e o campo é exigente – na altura devida precisa dos braços dos que o cultivam.
Alguns me exprimiram, de viva voz e por escrito, os votos de feliz êxito para esta confraternização dos naturais do concelho do Sabugal.
E trago-vos ainda a voz da Igreja, dessa igreja em que fostes baptizados e fizestes a Primeira Comunhão e talvez a Profissão de Fé, dessa igreja de que guardais a recordação das festas pomposas ou humildes, a muitas das quais continuais a ser fieis, pois é nessa altura que ides à terra natal – na Senhora da Graça, do Sabugal, ou dos Prazeres, do Soito; da Senhora da Póvoa, do Vale ou de Alfaiates; do Santo Antão de Sortelha, ou de Vila Boa ou de Aldeia do Bispo; à Santa Eufêmia, de Quadrazais, ou Senhora do Rosário, de Malcata; ao Senhor dos Aflitos, de Vilar Maior e Rebolosa; e tantas… tantas outras.
Mas trago-vos sobretudo a voz da Igreja, através do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é palavra que orienta, é vida que vivifica, é caminho que se abre aos nossos passos.
E o Evangelho de hoje é escaldante, é brasa que queima, é vento que nos desperta, é tempestade que nos agita.
Ouvimos primeiro, vinda das alturas do Sinai, a voz do Senhor Nosso Deus, trazida até nós por Moisés: «Hás-de ouvir a voz do Senhor, teu Deus, e cumprir os seus Mandamentos e as suas Leis».
«As bermas da estrada não são algemas», escreveu alguém. São os limites da liberdade do automobilista. Só indo entre as bermas vai pelo bom caminho, vai em segurança. Os mandamentos do Senhor não são algemas que acorrentam a nossa liberdade, mas são sinais do trânsito espiritual do homem que indicam à inteligência a verdade e à vontade os caminhos da rectidão e da justiça.
E vem S. Paulo dizer-nos que Cristo é na terra a presença visível de Deus invisível, a palavra de Deus a soar aos ouvidos dos homens. Agora Deus já não fala pelos profetas, como Moisés, mas pelo seu próprio Filho.
E ouvimos precisamente a voz do Filho de Deus: «Amarás o Senhor teu Deus e ao próximo como a ti mesmo». É o único mandamento que Deus impõe ao homem. É o mandamento da caridade, que Cristo alarga aos próprios inimigos.
A caridade tem andado muito desvalorizada. Compete-nos a nós valorizá-la,
dar-lhe carácter sagrado: «Dissestes ao próximo não, foi a mim que o dissestes».
Que seja uma vontade desinteressada de bem-fazer aos outros, sem esperar recompensa, porque nos identificamos com os outros. Como é que eu vivo tranquilo numa casa confortável quando ao meu lado há quem tenha a cobri-lo quatro telhas esburacadas?
A caridade tem que ser intelectual – pôr o homem a valorizar-se. Há um provérbio chinês que talvez venha a propósito: É melhor ensinar a pescar do que dar um peixe.
Na verdade é melhor acender uma vela do que dizer mal das trevas. Não se falta ao amor só quando de fala mal, mas também quando se não faz nada.
Numa parábola do Evangelho aqueles que deviam fazer alguma coisa pelo homem ferido, caído numa valeta do caminho, nada fizeram. São a imagem de tantos grandes e poderosos que, ao longo da história, nada fizeram pela elevação moral e material do seu semelhante. Mas o samaritano, embora aquele que estava ali fosse judeu, seu inimigo portanto, sentiu na sua carne as feridas do seu semelhante e tratou das curar, como curaria as suas.
Este é o caminho do Evangelho, o caminho de Cristo. Um cristão não é egoísta: «Eu estou bem, os outros que se arranjem». Não! Porque eu estou bem e ao meu lado há quem não esteja tão bem como eu, pois vou debruçar-me sobre ele e dar-lhe a mão.
É o que vós, comunidade sabugalense de Lisboa, quereis fazer em relação uns aos outros e àqueles que ficaram nas vossas terras. Pois que Deus vos abençoe nos vossos esforços.
Mas lembrai-vos que, se a caridade é considerada a primeira virtude dos cristãos, não é como uma árvore acima das outras, mas porque infunde todas as outras. Seja então a vossa solidariedade para com os povos de Riba-Côa fundada na humildade, reconhecendo que, por viverdes na cidade e terdes altos estudos, não sois o supra-sumo; na justiça, não queirais subir, fazendo dos outros degraus de escada; na paciência, não queirais tentar fazer num dia o que vai demorar uma geração, como é a reforma de mentalidades; na dedicação, exponde-vos a todos os sacrifícios e contrariedades, dando aos outros alguma coisa de vós mesmos, desde que seja bom; no desinteresse, tudo o que fizerdes, não seja para vosso benefício próprio ou do vosso grupo; na compreensão, pensando que os que vivem lá não têm a vossa mentalidade, os vossos interesses, a vossa visão da vida. É preciso todo um esforço de adaptação para que, indo vós até eles, os tragais até vós, respeitando-lhes as ideias, as crenças, os interesses e ambições pessoais
Isto é caridade, isto é ser samaritano.
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António Teixeira Souta

4 Responses to Ser samaritano

  1. O texto da Homilia proferida no verão de 1974 em missa campal aqui em Lisboa é claramente uma obra de intelectualidade firmada pela eloquência do Padre Souta que pautava a sua grande influência por sabedoria e conhecimentos verdadeiramente espantosos. Convivi de perto com ele, ambos professores no Colégio do Sabugal. E durante muitos anos trocamos correspondência sobre a vida do Colégio e a vida do Sabugal e das suas gentes no concelho. São textos autênticos de obras de arte. O texto agora publicado diz bem do valor do Padre Souta. Perdi um bom Amigo. O Sabugal perdeu uma grande personalidade.Os meus sentidos pêsames à Família enlutada.

  2. Luiz Carlos Pereira de Paula diz:

    Sentidos pêsames à Família

  3. João Frade diz:

    Deixo uma homenagem ao homem que com espírito de abnegação, de serviço e de rectidão sempre serviu o povo do Sabugal.

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