Os Passadores

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Nos anos sessenta surge nova actividade bem mais lucrativa que o contrabando para as gentes da raia, embora continuasse a ser ilegal – os passadores.

Os Passadores ajudavam a atravessar a fronteira a salto

A Pide, sabendo desta actividade que considerava criminosa, vai a Quadrazais e dirige-se ao Professor Primário para tirar informações. Aborda o Professor Zé André se conhecia alguns passadores, que eles queriam ir para França. O Zé André, habituado a cenas políticas de Coimbra, topou logo que os gajos eram da Pide. Responde-lhes:
– O maior passador sou eu!
– Ai! Sim! – venha ali ao carro.
Perguntam-lhe os inspectores da Pide se de facto era passador e os podia passar para França. Responde-lhes o Zé André:
– Passo os da Primeira classe para a 2ª, os da 2ª para a 3ª, os da 3ª para a 4ª e estes para o liceu. Os pides enfiaram o garruço e, envergonhados, desapareceram, nada querendo mais com o Zé André.
Esteve alguns anos em Quadrazais, mas era natural da vizinha Vale de Espinho.
Frequentara a Universidade de Coimbra, mas a doutor nunca chegou. A boémia era a sua companheira e não os livros. Resolveu seguir a carreira de Professor Primário.
Foi parar a Quadrazais, onde era apreciado pelas histórias de Coimbra que contava como verídicas. Amigo do copo como não havia. Sempre entornado, quem o havia de querer para consorte?
O Zé André não era passador de homens para França, mas era-o aquele que viria a ser seu sogro – o Tó Fojeiro. Este dedicava-se ao contrabando e nele iniciou os filhos. Tinha o Tó Fojeiro um cavalo que era muitas vezes requisitado para cobrir as éguas da redondeza. Nos anos sessenta começa a emigração a salto para França. O Tó Fojeiro, que conhecia os caminhos e as veredas para chegar a Espanha, torna-se passador. Também vários quadrazenhos conheciam igualmente os caminhos e veredas para Espanha. Meteram-se também a passadores. E alguns enriqueceram com este ofício, como no tempo do minério. O Ivo Salvador, o irmão Carlos, o Manolo e o Albino Rabeco, Tó Bola e pai e Zé Choino (o pai da Odete do Sá) foram alguns deles. Os clientes ficavam na Quinta do Ginjinha, ao Alcambar.
Ganhou o Tó Fojeiro bom dinheiro, a ponto de a filha Delfina chegar a mudar de fato três vezes ao Domingo enquanto durava o balho. Cai no goto ao Zé André. Lembrou-se de abordar a Delfina, contrabandista que chegou a medir azeite, sua conterrânea, e decide casar com ela, mesmo com um defeito num olho. A Delfina aceita, mas impõe uma condição: não mais se embebedaria.
Aceita o Zé André o desafio e começou a portar-se como pessoa sisuda. Só não largou as anedotas, que essa condição não lha impusera a Delfina. Estas só as largou na partida para o Além. Quem sabe se mesmo lá não põe anjos e santos a rir às gargalhadas com as suas anedotas!
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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

3 Responses to Os Passadores

  1. Simão Salada diz:

    Uma noite de outubro 1972 fui eu a Vale de Espinho acompanhado pelo nosso conterraneo Zé Grande, numa rua escura encontramos a Delfina do Zé André, o Zé Grande diz : boa noite Delfina, ela nem uma nem duas, numa taberna encontramos o professor e contamos-lhe que a Delfina não retribuiu a saudação , e ele então diz: ai rapazes ela no gosta nada dos borrachões

    • Franklim Costa Braga diz:

      Olá, Simão,
      Não sabia dos teus conhecimentos sobre as personagens das minhas histórias. Se tivesse sabido, ter-te-ia consultado antes de as escrever e tê-las-ia enriquecido. Obrigado. Um abraço.
      Franklim

  2. Simão Salada diz:

    Sempre ao teu dispor amigo Franklim um abraço.

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