Apresentação do livro «O Nosso Homem»

Casa do Concelho do Sabugal em Lisboa - © Capeia Arraiana (orelha)

O livro de António Alves Fernandes, «O Nosso Homem», foi ontem, dia 17 de Junho, apresentado na Casa do Concelho do Sabugal em Lisboa. Intervieram Rui Pelejão, Paulo Leitão Batista e Paulo Fernandes. A sessão foi animada musicalmente por Marta Ramos e José Lopes. Apresentamos uma galeria de imagens (fotos de José Barradas) e o texto da intervenção de Paulo Leitão Batista sobre as crónicas reunidas em livro, parte delas publicadas aqui no Capeia Arraiana.

Apresentação do livro de António Alves Fernandes

A perenidade do Livro de António Alves Fernandes
Reunir em volume e publicar um conjunto de crónicas é dar perenidade a algo que fazia parte do efémero. A crónica, escrita e publicada regularmente, na cadência dos dias, fica datada e vale enquanto outra não se lhe sobrepuser. E a seguir a essa virão mais, sucessivamente, numa cronologia que faz emergir um texto e submergir o que lhe antecedeu.
Mas essa reunião de crónicas num só volume, muito comum nos dias de hoje, é um exercício arriscado para o autor, que nem sempre é feliz nessa opção. Juntas, as crónicas podem não ter a harmonia que um livro requer, é comum haver redundâncias, repetições, visões diferentes e até contradições sobre um mesmo tema.
Ora isso não se passa com as crónicas que António Alves Fernandes reuniu em livro, sob o título «O Nosso Homem». O autor até as juntou mantendo a sua cronologia, e mais: datou-as referindo o mês e o ano em que foram escritas. É um livro harmonioso, de um autor que reflecte ao sabor dos dias, sobre coisas da vida e momentos de actualidade, enaltece as terras beiroas, o seu património e, sobretudo, as suas pessoas. Entre 2012 e 2016, dos tempos da austeridade mais dura até à esperança no fim dos sacrifícios e de um futuro mais risonho, António Alves Fernandes foi publicando em jornais e sites on-line, incluindo no Capeia Arraiana.
Perspicaz observador, atento aos pormenores que fazem a diferença, Alves Fernandes fala de uma multiplicidade de temas. Mas é sobretudo nas pessoas que ele se centra, sempre numa abordagem de candura, procurando o lado bom dessas pessoas que retrata.
Ainda que tente evitar polémica e se afaste das considerações de conteúdo político-ideológico, o autor não se dispensa de dar opinião quando esta se impõe e até de apontar o dedo acusador sempre que se revela necessário definir responsabilidades. É o que sucede quando culpa os párocos que deixam destruir o património religioso e os autarcas que promovem o desaparecimento do património popular nas aldeias, a começar pela sua aldeia natal: a Bismula. Nessa terra raiana do concelho do Sabugal a incúria levou à destruição da histórica igreja matriz, substituída por um templo novo, mais amplo, mas despido de estética. O mesmo caminho levaram as pedras de massar o linho que estavam num dos largos da aldeia, o tronco de ferrar os animais, os velhos candeeiros a azeite que garantiam a iluminação pública e até as centenárias amoreiras, árvores ornamentais e úteis, que davam sombra e cujas folhas serviam de alimento para o bicho da seda.
O nosso homem é o próprio autor, é António Alves Fernandes, a pessoa atenta e pronta a redigir e publicar as suas impressões da vida. Mas o autor também usa a expressão para falar dos outros, para falar dos homens, e também das mulheres, que retrata nestas páginas de ouro que constituem o seu livro.
O fino humor está sempre presente, ao lado da ironia oportuna, de que é exemplo a curiosa proposta para que os políticos façam de 15 de Agosto o Dia Mundial das Festas, tanto elas abundam nessa data.
São comuns e perpassam todo o livro expressões emotivas, sobretudo quando fala dos saudosos pais, do irmão Joaquim que faleceu depois de deixar obra escutista notável, e de outras pessoas que o tocaram e comoveram.

A primorosa estrutura dos textos
António Alves Fernandes é um escritor exímio, meticuloso, que estrutura com mestria os seus textos.
Tomemos como exemplo a crónica intitulada «Bismula – o teatro e os seus actores», na página 76.
Note-se como começa: «Viver é representar. Todos os homens escolhem as melhores máscaras e saltam para o palco com engenhosas representações.»
Depois cita Shakespeare e Fernando Pessoa, passa pelos clássicos gregos e acaba em Moliére. E daqui, das três pancadas de Moliére, o autor introduz-nos na sua Bismula antiga, aldeia recôndita da Beira, cujo povo simples e em grande parte analfabeto também fez acontecer teatro.
Descreve-nos em que espaços eram exibidas as peças, os encenadores e os actores que subiam ao palco – tudo gente do povo, pessoas voluntárias, que se transcendiam e cujo talento, diz-nos Alves Fernandes, «hoje envergonharia muitas vedetas de pacotilha».
Enumera depois as principais peças que foram representadas, algumas com tanto realismo que até houve um actor que ficou com uma costela partida. E não esquecendo aquele drama que o próprio autor viveu quando, ainda petiz, viu em palco o seu saudoso pai ser condenado à morte. E só descansou quando se lhe agarrou ao pescoço e viu que, afinal, ainda estava vivo.

As pessoas simples retratadas
Mas a maior virtude do livro é o relato emotivo da vida e da missão terrena de pessoas simples, do povo, que a memória derriscaria porque seriam facilmente esquecidas. São esses retratos que de resto levaram Rui Pelejão, no posfácio do livro, a chamar-lhe «biógrafo do povo». Dão-se alguns exemples dessas figuras típicas que o livro imortaliza:
O Fatela, de Aldeia de Joanes, que era alcoólico e desiludido da vida e que morreu só e abandonado.
O José Manuel Matos, conhecido por Manteigueiro, da Covilhã, ex-recluso especialista em fugas da prisão, que, excluído e rejeitado, acabou a deambular pela cidade vivendo da caridade alheia.
O Pires, de S. Vicente da Beira, que de resineiro passou a emigrante desventuroso e depois a taberneiro ambulante.
O António Simão Ramos, de Aldeia de Joanes, ex autarca, juiz da irmandade e guardião das memórias da aldeia.
O Clemente Mouro, de Castelo Branco, presidente da Junta de Freguesia, amigo das causas sociais e verdadeiro «socialista do coração».
O João Pereira, enfermeiro madeirense que se fixou nas Minas da Panasqueira, onde ajudou a aliviar o sofrimento dos mineiros.
A Teresa Costa, costureira de Aldeia de Joanes, amiga do povo e sobretudo das crianças que vestiu de fantasia e de sonhos.
A Maria de Lurdes Polónia, da Bismula, catequista e costureira, que arranjava vestidos de noiva e mortalhas, o que levou o autor a considerar que «a fronteira entre a vida e a morte, entre a alegria e a tristeza, cabiam no buraco da sua agulha»
A Maria Teresa Delgado, de Alpedrinha, cozinheira de eleição que alimentou os mineiros da Panasqueira e abriu restaurante no Fundão.
O Joaquim Cordeiro, da Bismula, lavrador, sacristão e contrabandista, que amargou 15 meses numa prisão espanhola por contrabandear para alimentar os filhos.
O Manuel Leal Júnior, da Bismula, empenhado professor primário que preparou milhares de jovens para vida e que, atacado pela cegueira, passou em suplício os últimos anos da sua longa vida.
O Padre Ramiro, de Gondomar, missionário altruísta que serviu em Angola, onde esteve preso por ajudar as populações nativas independentemente dos alinhamentos políticos e que acabou os dias em Castelo Branco assistindo os reclusos do Estabelecimento prisional.
O Carlos Custódio, da Pampilhosa da Serra, homem que se fixou com a família no Fundão onde trabalhou como camionista, acabando depois atirado para o desemprego e para uma vida amargurada.
O Joaquim Vieira, da Miuzela do Côa, barbeiro, enfermeiro e médico popular que salvou muitas vidas nas terras da raia.
O Manuel Grilo, de Alcains, que foi soldado na Índia, onde ficou prisioneiro e chegou a ser dado como morto, mas que voltou são e salvo e fez carreira na Guarda Prisional.
O António Reino, de Vale de Espinho, que nasceu pastor e aprendeu a arte de ferrador, e se fixou no Sabugal, partindo depois para França em busca de melhor ventura.
A Natália Bispo, do Sabugal, activista dedicada à comunidade que erigiu a Casa do Castelo, autêntico posto de turismo e centro cultural da cidade e que a morte ceifou de modo atroz.
Paulo Leitão Batista

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