As preferências das actrizes em 1930

Nos anos 30 do século passado, o ambiente artístico (salvaguardando questões de época) era como agora, prevalecendo, para além da competência e da mestria, sinais de trivialidade. É o que ressalta de um inquérito feito às actrizes portuguesas mais notáveis daquele tempo.

Maria Clementina preferia os cigarros Abdula

O inquérito é de 1930 e foi publicado no Almanaque do Ano Cinematográfico e Teatral, pretendendo dar um balanço da opinião dos mais conhecidos artistas de teatro sobre coisas sérias e frívolas da vida e da arte.
A abordagem às actrizes implicou quatro perguntas para resposta rápida:
1- Se não fosse actriz, o que gostaria de ser?
2- Qual o perfume, a marca de cigarros e a cor que prefere?
3- Qual das profissões masculinas exerce mais sedução no seu espírito de mulher?
4- Qual o pensamento dominante da sua carreira artística?

Vejamos as respostas das nossas grandes actrizes da época:

LINA DEMOEL
Um sorriso, uma eterna mocidade – diz-nos:
– Se eu não fosse actriz desejava ser bailarina. É uma arte que aprecio, uma arte que me encanta…
– Gosto de perfumes, adoro todos os perfumes, mas uso sempre o que está mais em moda! Há de facto uma marca de cigarros que não desdenho: «Abdula». E, a respeito de cor, saiba que gosto muito da preta.
– A profissão masculina que me seduz?… Jornalista.
– Quanto ao pensamento dominante da minha carreira… Ah! Tenho, sim, senhor, tenho um: não perder mais dinheiro em teatro.

MARI-LAURA
A gentil vedeta insinuante e «poupée», diz-nos:
– Gostava de ser milionária, que é a minha grande aspiração.
– Quanto a perfumes, prefiro todos, mas depois de misturados. No entanto abro excepção a um: «Chypre de Cotty». Cigarros?… Sim, de chocolate. E a cor da minha predilecção é a preta.
– Quer saber qual a profissão masculina que me interessa mais? Marinha. É distinta, não lhe parece?
– Para responder à última pergunta devo dizer-lhe que, dentro do teatro, o meu desejo é agradar… Pois qual há-de ser o pensamento dominante duma artista?

MARGARIDA DE ALMEIDA
Lindo sorriso de garota que conquista facilmente a plateia – ri-se quando lhe fazemos a primeira pergunta:
– Ora essa! V. pergunta-me o que eu desejaria ser se não fosse actriz?! Pois não tem nada que saber, queria ser actriz!…
– Perfumes? Sim senhor, gosto deles e tenho a minha preferência: «Narcise-noire de Caron». Cigarros… francamente, não sinto predilecção por nenhum. Nenhum! É claro: eu não fumo. Quanto à cor, escreva lá: vermelha, e tenho a certeza que não lhe minto.
– Há uma profissão masculina que me interessa mais que qualquer outra: Medicina. Sempre é uma profissão humanitária…
– Na minha carreira só tenho um objectivo: vencer. E acha pouco para uma mulher só?

ELISA DE GUISETTE
Vivacidade andaluza, irrequieta, comunica às plateias os seus estados de alma – confessa:
– Pianista! Ah! gostava imenso de ser pianista!… Gosto tanto de música!…
– Perfume? Uso «Cotty». Cigarros, não. Não tenho preferência porque não fumo… Quanto à cor, a da minha predilecção é a preta. É mais grave talvez, mais triste, mesmo – mas é a que prefiro…
– Das profissões masculinas, a que me seduz, como mulher, é a engenharia… E, se eu fosse rapaz, era a que seguiria…
– O pensamento dominante na minha carreira artística? Não sei bem… talvez o meu triunfo! Parece-me um pensamento natural.

MARGARIDA MARTINS
A popular característica que marcou no teatro declamado – respondeu-nos despretenciosamente:
– Se eu não fosse actriz, garanto-lhe que só desejaria ser doméstica. Não há nada que se compare ao sossego, à tranquilidade do lar…
– Eu gosto de perfumes, confesso que sim. No entanto, aquele que eu prefiro é o de um simples e bom sabonete! Nada me pergunte a respeito de cigarros, porque nada sei. Eu não fumo! A minha cor predilecta? A preta! É uma cor que se impõe… é uma cor tão bonita!…
– Das profissões masculinas, uma há que me interessa mais: a medicina.
– O teatro português tem dado tanta volta que eu vim cair na revista. Ora a revista não é teatro. O meu pensamento dominante, hoje como sempre, resume-se neste desejo: trabalhar na declamação muito seriamente. Estou farta de rir… sem vontade…

ZULMIRA MIRANDA
A intérprete da canção nacional, diz-nos na sua voz que canta e encanta:
– Se eu não fosse actriz!… Se eu o não fosse, gostaria muito de me dedicar ao lar: queria ser uma boa dona de casa. Tenho o maior respeito por uma honesta dona de casa.
– Gosto de todos os perfumes, não abro excepções entre eles. De cigarros é que não gosto, não tenho predilecção por qualquer marca. E a minha cor favorita é a preta… também não sei por que razão.
– Sim, há uma profissão masculina que me encanta mais do que qualquer outra: é a de actor. É natural. Não lhe parece?
– Actualmente o meu objectivo é só este: abandonar o teatro. Quero abandonar o teatro para cumprir o que acima lhe disse: ser uma boa dona de casa – é o meu ideal.

MARIA DAS NEVES
Uma Maria Portugal que tem o seu lugar definido no nosso teatro – afirma-nos:
– Se eu não fosse actriz?… Mas eu só gostaria de ser actriz!.. fiquei sabendo que era essa a profissão que eu escolhia.
– De todos os perfumes, o que eu prefiro é o «Mit de Guerlan». Quanto às marcas de cigarros também tenho a minha preferida: «Abdula». E a cor – é a mais triste de todas: a preta.
– A profissão masculina que mais me seduz? Aviador!… E, confesso-lhe, a que me prende mais.
– Na minha carreira artística tenho este pensamento dominante: agradar. Que mais poderia eu querer, senão agradar ao público para quem trabalho?!

TERESA GOMES
Agora depõe a rainha das características. A grande comediante faz um depoimento sereno, conciso, grave, que contrasta com a sua psicologia de cena:
– Queria ser dona de casa. Se eu não fosse actriz creia que era esta a profissão que escolhia.
– O meu perfume predilecto? «Guerlan». Tabacos, não. Não fumo. A cor que eu prefiro é a lilás.
– De todas as profissões masculinas, prefiro a de actor.
– Na minha carreira artística tenho um único objectivo: triunfar sempre, estudar o melhor que posso.

BEATRIZ BELMAR
A simplicidade aliada à modéstia. Uma actrizinha muito simpática e galante.
– Se não fosse actriz – o que muito me penalizava – dedicava-me ao lar, à tranquilidade da minha casa. É tão agradável o sossego do lar!…
– Gosto de todos os perfumes, mas uso apenas um, por sinal russo… Não me recorda o nome. Marca de cigarros preferida: «Abdula». Oh! um bom cigarro «Abdula»!… A cor de que eu gosto, a que acho mais bonita, embora mais triste, é a preta.
– A profissão que me seduz? Há tantas! tantas!… Mas para mim, talvez as mais distintas sejam a advocacia e a medicina… São duas profissões tão humanas!
– Sabe você? Aprecio imenso a revista. É o meu género predilecto de teatro. Era aí que eu gostava de criar nome – era na revista que eu gostava de vencer… se tivesse direito a tão lógica aspiração.

ADELINA FORTES
Uma actriz de recursos, interessante, cheia de mocidade – lê-nos atentamente, para depois responder:
– Se eu não fosse actriz queria ficar no cantinho da minha casa…
– Todos os perfumes são bons, desde que cheirem bem, mas eu prefiro «Cotty». Para mim é o melhor entre os melhores… Não me pergunte nada sobre cigarros, porque eu não fumo. Mas digo-lhe uma coisa: se eu fumasse seria apenas «Abdula».
– Também tenho uma cor que prefiro entre todas: a amarela. Dizem que é desespero… Deixá-lo ser! Para mim é uma cor alegre, numa me desesperou e acho-a distinta.
– Isso de profissões masculinas… Tem graça a pergunta, sabe? Mas eu lhe digo: aprecio a engenharia… Acho utilíssima a profissão…
– Na minha carreira tenho este objectivo: dedicar-me à revista, que é o género de teatro que eu mais aprecio…

MARIA CRISTINA
Uma actriz da moderna geração. Alegria, vivacidade, vontade de vencer.
– Desejaria sempre ser artista, de modo que não posso pensar que nunca tivesse seguido esta carreira.
– Dos perfumes que uso, prefiro «Nuit Noel de Caron». Não tenho marca de cigarros preferida porque não fumo. V. quer saber de que cor gosto mais? Não lhe posso responder, porque aprecio todas!
– A profissão masculina que mais me seduz? A de actor, incontestavelmente. Todas as profissões são nobres e distintas, mas, quanto a mim, a de actor… é que me encanta.
– O pensamento dominante na minha carreira é este: vir a ser uma grande artista… se o puder ser.

ALBERTINA RAMOS
Actriz galante e desenvolta, responde:
– Se não fosse actriz queria ser… actriz. É a carreira que escolheria.
– «Cotty» é o meu perfume predilecto. Não tenho marca de cigarros preferida, porque não fumo. Mas se fumasse seria a marca «se me dão». E sabe qual é a cor que eu mais gosto? Amarela. Dizem que é desespero, mas nunca me desesperei…
– Pergunta-me qual a profissão masculina que me seduz… Uma há, de facto, que me interessa: a de poeta… Mas ser poeta, agora reparo, não é profissão…
– Para terminar, dir-lhe-ei que o pensamento dominante na minha carreira é este: vir a ser uma grande actriz de revista.

ANGELITA GONZALEZ
Uma voz fresca que a plateia ouve com agrado.
– Se não fosse actriz seria actriz.
– À sua segunda pergunta, que aliás, se desdobra em três, responderei: o meu perfume predilecto é o «Narcise-noire de Caron»; não fumo; a cor que eu acho mais bonita é a azul.
– Sei lá qual é a profissão que mais me interessa como mulher!… Talvez por elas serem tantas! No entanto, no entanto… Seduz-me mais a medicina, parece-me mais humanitária.
– O pensamento dominante da minha carreira: chegar a boa actriz.

OLGA VIEIRA
Uma gentil rapariga, mas um pouco concentrada. Bailarina com faculdades. Acabámos por travar com ela um diálogo:
– Se não fosse artista de teatro, que profissão escolhia?
– A de artista de cinema!
– Porquê?
– Sei lá! Gosto de cinema e acabou-se!
– Que perfume usa?
– «Pompeia»! Pudera! Cheira bem!…
– Fuma?
– Não gosto.
– E a cor sua predilecta?
– A encarnada!…
– Há alguma profissão masculina que lhe interessa sobre qualquer outra?
– A de revisor!… E então? – Não é uma profissão arriscada?!…
– O pensamento dominante da sua carreira?
– Triunfar no teatro, mas triunfar como bailarina… porque eu queria ser uma boa bailarina.

CORINA FREIRE
Actriz cantora – a mais linda voz e a mulher mais distinta do teatro musicado. A graça delicada e o requintado espírito que imprime às suas atitudes de artista, agora mesmo se reflectem nas suas palavras:
– Se não fosse actriz o que desejaria ser? Agrónoma. A botânica interessa-me profundamente desde criança.
– Qual o perfume, a marca de cigarros, e a cor que prefiro? Quanto a perfume prefiro o dos campos, o das charnecas, do mar, o perfume da terra, estuante de seiva. Sou uma primitiva.
– Cigarros – adoro as marcas nacionais.
– Cor – o verde exerce sobre a minha sensibilidade uma sedução quase física, uma sedução dominadora, atractiva. Estou na categoria dos wildeverdeanos.
– Qual das profissões masculinas exerce mais sedução no meu espírito de mulher? A eclesiástica. E atendendo que um homem que abdica da vida, que renuncia, que adopta uma profissão puramente espiritual – monge, asceta ou cura – é de todos o que mais deve impressionar a imaginação das mulheres.
– Qual o pensamento dominante da minha carreira artística? Ser bailarina. Sempre disse aos meus íntimos que dançar é mais interessante do que cantar.

HORTENSE LUZ
Sublime artista que conquista facilmente a simpatia das plateias, mercê do seu trabalho e do segredo que possui!
– Dada a hipótese de não ser artista, gostava de ser advogada. O porquê da preferência reside na sedução que a advocacia exerce sobre mim.
– O perfume que eu prefiro? Com franqueza, não posso dizer, porque eles fazem-me mal à cabeça. Também nada lhe posso dizer acerca de cigarros, porque não fumo. A minha cor predilecta é a vermelha.
– Uma profissão masculina que me interessa? A de escultor, que é, para mim, uma das mais lindas profissões.
– O meu pensamento dominante na minha carreira? Este, que é quase um lema: estudando, vence-se sempre.

AUZENDA DE OLIVEIRA
Uma eterna figurinha «keepsake», cujo sorriso conserva o perfume fresco da mocidade.
– O que desejaria fazer se não fosse actriz? Actriz. Foi sempre este o meu sonho.
– Qual o meu perfume preferido? «Ambrantique de Cotty». E o cigarro? Oh! oh! Não fumo!… Não fumo não… E a cor mais bonita? A roxa, por ser a mais triste.
– A profissão masculina que mais me seduz? Nunca me preocupei com esse assunto!… Nunca!…
– O meu pensamento dominante? Na minha carreira? Acertar… acertar sempre!…

AMÉLIA REY COLAÇO
Figura marcante no teatro contemporâneo, raro temperamento de artista, que é das maiores actrizes portuguesas.
– Ah! Se eu não fosse actriz, queria ser actriz, porque gosto cada vez mais do teatro.
– Perfumes? Uso uma mistura muito minha, muito especial… Quanto a cigarros não lhe posso responder, porque não fumo. A cor que prefiro? A amarela…
– O quê, mais perguntas? Ah! Meu Deus! Mas então?… A profissão masculina que me seduz? A de actor!…
– Outra pergunta ainda?! Ah! Não lhe respondo, não lhe respondo!… Mas diga… Qual o meu pensamento dominante? Realizar bem todos os meus papéis!… Acabou? Ah! Meu Deus! Tanta pergunta! Tanta pergunta!…

EMÍLIA DE OLIVEIRA
Belo nome a que andam ligadas tantas tradições do teatro português.
– Se não fosse actriz desejaria ser escritora, para escrever coisas muito lindas… se as soubesse escrever.
– O meu perfume predilecto é o dum bom sabonete e o da água de colónia «Jean Marie-Farine». Sobre cigarros nada posso dizer, porque deixei de fumar. Para mim, a mais bonita de todas as cores é a roxa, que é a cor da capa do Senhor dos Passos e da flor da minha preferência: a saudade…
– A profissão masculina que mais me seduz é a de actor, que, para mim, é das mais nobres, mais belas e dedicadas.
– O meu pensamento dominante? Ei-lo: vir a ser uma grande actriz, aquela grande actriz que eu nunca poderei ser…

MARIA CLEMENTINA
Um sorriso que nos recebe. A artista que a pouco e pouco tem sabido guindar-se, marcando a sua personalidade:
– Eu nunca poderia deixar de ser actriz, porque gosto verdadeiramente da profissão.
– O meu perfume? Uso todos… depois de misturados, mas, especialmente, «Mon Parfum». Marca de cigarros que eu prefiro: «Addula». Quanto à cor, adora a cor-de-rosa.
– Sabe qual é a profissão masculina que mais me interessa? A medicina, que é uma profissão humanitária.
– Quanto ao meu pensamento dominante, ei-lo: trabalhar sempre, nunca abandonar o teatro.

MARIA BRANDÃO
Uma linda figura de mulher e uma curiosa figura de artista:
– Se não tivesse sido artista, com certeza teria sido mãe de família… a sério! Teria sido mãe de família.
– Eu não uso perfume… Uso uma mistura de perfumes… desde que não sejam orientais. Quando fumo é sempre um cigarro «Murattis» ou «Abdula». A minha cor predilecta? Mas eu não gosto de uma só! Aprecio o conjunto das sete cores do arco-íris!…
– Qual a profissão masculina que mais me seduz? É conforme a inclinação de momento.
– O meu objectivo? Ser útil ao teatro. Ser um bom elemento no teatro… e pouco mais.
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(por Paulo Leitão Batista)

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