Patrulhas na aldeia

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Havia em 1960 dois grupos nas noites de Vale de Lobo, que já era Vale da Senhora da Póvoa há três anos.

Vale da Senhora da Póvoa

Os Grandes, uns 10 a 12 rapazes já homens que tinham ido dar o número para entrar no serviço militar obrigatório durante mais de dois anos. Portanto, idades dos 18 até aos 20 anos. Alguns já casados mas que raramente apareciam, “pois está claro”.
O segundo Grupo, com menos de 10 “garotos” onde eu estava, era o outro das noites. Rapazes dos 16, 17 anos alguns ainda sem barba e muito menos bigode. Neste Grupo durante o tempo em que estive nele foi quando tive as maiores aventuras na aldeia. Havia espírito!
Patrulhar as noites a partir das 1O horas era dar a volta à Aldeia não sei quantas vezes. Muitas. Tinha de se calçar botas cardadas ou com protectores pregados. Sem meias, claro. Ouvia-se aquele barulho das botas a bater nas pedras das ruas, parecia o advento da tropa. O circuito do patrulhamento começava no chafariz mas antes havia de haver uma passagem pela Taberna do Ti Zé Mugeiro para lavar as gargantas, boer. Durante os copos jogavam a raióla. Atiravam com jeito, em arco, as moedas de XX Réis até ao risco traçado no meio de um caixote inclinado, para ver quem pagava a rodada. Diziam uns bem alto, para ganhar depressa os 25 tentos:
– Truco, seis tentos!
Do chafariz ia-se até à loja da Dona Saudade, virava-se para cima até à Igreja, passava-se em frente desta e, nesse momento, alguns faziam uma vénia respeitosa em direcção à porta e benziam-se dando um beijo no dedo indicador direito. Fazia-se a seguir a descida e, chegados à Rua Direita, virava-se à direita e ia-se para baixo outra vez. Os Grandes paravam de novo na Taberna e vá mais um copinho. Nós, os outros, gente miúda, não nos era permitido sequer beber o copinho como eles. Passar em frente à porta já era perigoso.
No patrulhamento antes da meia-noite havia sempre mulheres sentadas em grupo no poial da casa de uma delas, sempre conversando sobre coisas e pessoas da aldeia, com o xaile a tapar a boca. Quando as patrulhas passavam era de bom trato cumprimentar as mulheres. Fazia-se com uma saudação gutural, abreviada, mas dita em coro por todos:
– Be’noite!
Ou apenas:
– ‘Nnoite!
O grupo dos Grandes impunha aos outros uma distância de respeito. Tinha de ser uns 100 metros, pelo menos. Se não fosse respeitado por nós, havia chatice e da grossa. Eles procuravam sempre qualquer motivo para nos arrear. Qualquer razão servia. Até dar um traque era perigoso – podiam ouvir.
Havia um rapaz da aldeia que queria entrar no nosso Grupo e nós não queríamos. Era o Tó Neto. Decidimos isso e pronto, estava decidido. Tínhamos as nossas razões, uma delas era porque andava sempre com um dedo dentro do nariz, rebuscava, a seguir metia na boca, comia e lambia.
Uma noite vingou-se.
O Grupo dos Grandes passou e andavam mais apressados, claro, eram mais fortes. O rapaz rejeitado, escondido numa viela, atirou uma pedrada e ela lascou no chão até atingir os Grandes. Estes, que estavam sempre preparados para nos dar porrada ao mínimo motivo, correram na nossa direcção, pois não havia mais ninguém na rua àquelas horas. A pedrada foi-lhes dirigida quando passavam frente à loja do Senhor Pinto. Nós, mais vagarosos, estávamos ali perto da loja da Dona Saudade, portanto a uns 150 metros. Quando ouvimos a correria deles e a respectiva gritaria, nem pensámos duas vezes: começou a caçada da noite, démos à sola!
Fugimos e virámos à direita da loja, correndo para essa subida.
Acontece que eu apercebi-me logo que seríamos apanhados dali a nada e levaríamos o respectivo testo de porrada.
Que fiz eu sem hesitar? Logo à direita da subida e no início havia um terreno vazio com uma grande oliveira.
Pisguei-me de repente para aí e trepei pela árvore até ao cruto. Ali fiquei quedo e mudo durante horas, tremendo mais de medo do que de frio. Ouvi perfeitamente os do meu grupo serem apanhados e enxofrados perto da casa da Ti Luz com a respectiva gritaria e confusão que ecoou no silêncio da noite. A coisa não foi pior porque o Tó Carrilho, líder dos Grandes, opôs-se a que dessem porrada no irmão, o Léo.
Mas ouvi perfeitamente um deles dizer, perguntando por mim:
– Onde é que está o Zé Preto? Esse é que eu quero apanhar… Ah catanooo, se o apanho!
Na aldeia eu era o Zé Preto ou por ser mais moreno que os outros. Mais encardido.
Às tantas passou um deles na rua frente a mim, o Zé Nabais (no céu esteja!) e disse em voz alta:
– Ele está por aqui escondido, não está longe!
Espreitando na negrura da noite para o quintal disse:
– Aqui não está… mas onde é que o Zé Preto se terá escondido? Ah galequedo, se te apanho…
Onde eu estava? No cimo da oliveira. Quase borrado de medo e de outras coisas. Cagado.
Quando desci, fui pela estrada sozinho até casa, cheio de medo de ainda poder ser caçado.
Lembro-me perfeitamente do sino da Igreja dar quatro badaladas quando saltei o muro do meu quintal, entrei em casa e enfiei-me entre o cobertor de papa.
:: ::
«Vale de Lobo e Moita», crónica de José Jorge Cameira

Deixar uma resposta