Sentir o tempo

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Chegam-nos quotidianos de uma primavera envergonhada que se estampa em dias cheios. Tem surgido ténue um sol desejado, morno e matinal que não estanca o transbordar das tarefas.

Marco geodésico do Jarmelo

Ora, se falar do tempo pode desanuviar, tentaremos, por ora, descontrair.
Convenhamos, desde logo, que o tempo rural é mais longo. Na cidade o tempo é mais curto. Tal circunstância faz diferir os dias urbanos dos rurais.
Na cidade são tidos por maus os dias nublados. São piores, ainda, os dias chuvosos. No campo preza-se a chuva tanto quanto se aprecia o sol. Ambos determinam a vida rural.
Há, no entanto, quem seja citadino e, simultaneamente, campestre. São aqueles que, como eu, gostam de dividir a vida entre o campo e a cidade. Para esses é mais difícil preferir o tempo.
Mas hoje vou viver um dia urbano. O sol decidiu apresentar-se triste, tímido e curioso perante a urbanidade. Parecia querer saber de preferências. Respondi-lhe que a aldeia sempre me procurou e que eu sou, muito, dela. Depois reluziu, algo intensamente, e pretendeu inquirir razões. Fui-lhe respondendo que os meus avós, os meus pais, todas as minhas raízes eram rurais. Confirmei-lhe uma infância feliz na ruralidade. Garanti-lhe que, em criança, muito raramente atravessei o campo para chegar á cidade. A urbe era uma surpresa que povoava a encosta da serra onde tudo me era novo em cada nova visita. Tudo era novo e bonito mas, quase sempre, algo estranho.
O sol deixou-se ofuscar por uma pequena nuvem mas, logo de seguida, voltou a brilhar. Aproveitei a clareza repetida para lhe confessar que o estirar da vida me multiplicou oportunidades de visita à cidade. Durante a juventude estudei na cidade e vivi, lá, uma vida urbana. Comecei a ser-lhe mais assíduo nessa altura. Depois trabalhei nela habitando-a. Nessa contingência desfruto, hoje, um dia urbano.
Asseverei-lhe, ainda, a minha estima pelo campo e por tudo o que o possa beneficiar. Disse-lhe que valorizava a chuva, para além do sol, que a compreendia e que a necessitava.
Em jeito de resposta o sol confidenciou-me que ele também não contestava a chuva. Com ela se mesclava, às vezes, num choro de escassas pingas. Misturando os seus raios no chuvisco concretizava o casamento progenitor do arco-íris. Repliquei-lhe que nada melhor que as cores do arco-íris para embelezar e alegrar os céus.
Por fim, garanti ao sol que era sempre um prazer vê-lo. Na cidade aclarava e favorecia o movimento. Na natureza aquecia e promovia a renovação. E embelezava sempre, em qualquer lugar.
Prosseguiu, depois, o dia e eu fui intentando sentir o tempo enquanto espectava quotidianos aptos a valerem-se do sol ou da chuva, no campo ou na cidade.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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