Fazia-nos falta

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Não sou, ou melhor, não tenho sido muito de festivais. Longe vai o tempo em que me reunia com jovens da minha idade para, frente ao ecrã, assistir ao Festival da Canção. Nessa altura o festival constituía, para nós, um verdadeiro acontecimento.

Salvador fez voltar a música ao sentimento

Hoje em dia tal evento é muito mais de cançonetas que de canções e a trivialidade tem-se reiterado ano após ano. Portanto, e no que a esse espetáculo diz respeito, admito o meu crescente alheamento.
Ainda assim, prestei-lhe, este ano, alguma atenção. A evolução pareceu-me para pior. Todos os interpretes, ou quase todos, mastigavam letras em inglês. Provavelmente nem todos entendiam o que cantarolavam. As músicas sucediam-se em toadas baratas e a ideia de representar o próprio país em língua estrangeira não ocorre a qualquer um.
Ora, para espanto meu, não viria a ser assim a representação de Portugal. Salvador Sobral cantou em português e, o que devia ser natural, acabou por me surpreender. A letra era simples e melodiosa. Ouvi uma voz bonita e calma com um leve sabor a jazz. Assisti a uma interpretação íntegra e sentida.
Admirei a coragem de sulcar a onda e marcar a diferença. Percebi que Salvador não ia em modas e preferia transpor a pequenez de certas regras. A sua canção era bem escrita, harmoniosa, delicada e inspirada. Não era, certamente, uma vulgar cantiga festivaleira. Pelo contrário era uma canção de verdade.
Recordei, então, algumas declarações anteriores de Salvador quando numa entrevista surgiu frontal, original, convicto e transparente sendo capaz de temperar a genuinidade com umas pitadinhas de ironia. Bastava-lhe, segundo dizia, que o entendessem e eu acredito que foi fácil entendê-lo porque tudo começava a fazer sentido.
Findo o festival, voltei a ouvir a canção. Depois ouvi outra e outra vez. Tratava-se de uma lufada de ar fresco por entre a exiguidade da maioria das outras cantigas. De facto Salvador cumpria. Fazia voltar a música ao sentimento.
Não digo que a letra desta canção foi, na história das participações portuguesas, o único poema porque recordo, a título de exemplo, José Carlos Ary dos Santos. Não afirmo que a música foi a única melodia porque evoco, entre alguns outros, José Niza. Não sei a razão porque algumas das antigas representações correram tão mal. Mas atesto que a música, a letra e a interpretação da canção de Salvador Sobral fazem parte de uma tradição mais remota que, há muito, nos fazia falta.
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

2 Responses to Fazia-nos falta

  1. Josué rito diz:

    Faltou apenas referir e para completar a informação que a música de fundo orquestral foi feita e é de autoria do Quarteto «arabesco» do qual fazem parte duas Covilhanenses, Raquel Cravinho (violino) e Ana Raquel Pinheiro(violoncelo)

  2. fernando capelo diz:

    Caro Josué Rito
    Não sabia. Mais uma agradável surpresa.
    Bem-haja pela achega.

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