A Gardunha subiu mais alto que a Estrela

Música - © Capeia Arraiana

No dia em que a Gardunha subiu mais alto que a Estrela – efetivamente não deu para acreditar. Era mesmo verdade.

Concerto Chico Buarque por Cristina Branco e Mário Laginha

O Pavilhão Octógono vibrou com a música, mas acima de tudo, a letra de Chico Buarque de Hollanda.
No meio da música “Carolina”, a Carla, sussurra ao meu ouvido, relembrando uma das mais notáveis novelas da Globo.
O sotaque lusitano escondia a realidade da música e, todos nós, só ao fim da terceira é que caímos na realidade da paixão da cantora, Cristina Branco, que fez um trabalho notável em soletrar aquelas palavras com o sabor desta nossa terra.
Mas disse-o com todas as letras: Tenho uma paixão por ele, por Chico Buarque.
Devem ficar a pensar os meus amigos como terá sido possível este milagre. Todos entendemos que num contexto musical brasileiro não é fácil usar o português de Lisboa.
Essa dúvida percorreu-me grande parte do espetáculo.
Até que entendi a mão do mestre, Mário Laginha dos Santos, se preferirem Mário Laginha, que sabiamente recorreu aos acordes da Bossa Nova suavizando a melodia e conseguindo o “encaixe” perfeito da métrica nacional com a canção da Musica Popular Brasileira, vulgarmente conhecida por MPB.
Então e como conseguiu, por exemplo, resolver a percussão? Todos sabemos como a MPB é riquíssima na percussão, havendo mesmo percussionistas mundialmente conhecidos como o Paulinho de Santos, que já tocou com Diana Krall ou mesmo a Madonna.
Efetivamente o baterista fez mais do que devia. Conseguiu fazer as duas tarefas: bateria e percussão. Nunca na vida tinha assistido a tal. Para além do ouvido apurado, teve a capacidade necessária de sincronização. Chegou mesmo a ter uma mão na percussão e outra na bateria.
E obviamente para o êxito da chamada seção rítmica, o contrabaixo tinha de estar alinhado com uma das mãos do baterista e só assim o maestro Mário apresentou-nos este maravilhoso trabalho.
Aliás, o Mário, também teve o seu “espaço” e numa das músicas, sem voz, pode mostrar a sua sabedoria com um trabalho magnífico de mãos naquele piano de cauda, indicando, no meu entender, a sua formação clássica.
Mas vamos voltar ao espetáculo.
O ambiente estava fantástico, informal, alegre e simples. Sem grandes cenários, ou vestidos de gala, vi gente de todos os quadrantes socais, e até de outras localidades, como era o meu caso. O Octógono estava cheio.
Influenciado, ou não, a canção Tanto Mar, fez-me lembrar a revolução dos cravos e como se consegue vencer esta “fronteira” aparentemente intransponível para os nossos ancestrais. Outras recuaram-me no tempo como excertos da “Opera do Malandro”, banda sonora de um filme mas que vi em encenação teatral no Coliseu de Lisboa, em 2006. Aliás saliento que esta obra tem influencia também da Opera de Três Vinténs, de Bertolt Brecht. Mas sem duvida que ouvindo estas letras, na musicalidade do nosso português, entendi mais do que já sabia. Fiquei com a sensação de que este nosso fecho da vogal nos convida à reflexão.
No final ainda houve tempo para um “encore” e a simplicidade da cantora: Não pensem que o nosso repertório é assim tão vasto!!! E entende-se o porquê. A adaptação é efetivamente muito difícil.
Mas a minha missão não tinha terminado.
O Mário tem o irmão Pedro, que para além de ser um colega de profissão é um dos meus grandes amigos. Fomos sempre uns “intelectuais” no meio de tanta formalidade e de conversas técnicas, ou financeiras, que muitas vezes nos cansavam. E rapidamente “virava-se o disco”, como uma lufada de ar fresco, e lá vinha a história ou a música ou a cultura, a nossa cultura.
Mas acima de tudo se consegui o facto inédito de ter escrito um livro muito devo ao Pedro que sempre foi o meu leitor número um e me deu coragem para avançar num projeto aparentemente impensável.
Resolvi então tentar um “salvo-conduto” e ir conhece-lo pessoalmente.
Pedi ajuda à Dra. Alcina Cerdeira que prontamente me deu a “palavra passe” para aceder aos camarins.
Não foi difícil embora tivesse de esperar.
Chegado ao local estava um conjunto de ilustres da cultura. Parecia um intruso numa zona VIP do aeroporto, naquelas alturas quando chegam celebridades e só os convidados muito especiais têm acesso.
No meio da comitiva identifiquei o Ricardo, da organização, e após cumprimentá-lo expliquei-lhe a razão da minha presença.
– Não há problema. Fique à vontade.
Mas de repente, sem dar conta, vi que estava efetivamente ao pé de ilustres pessoas da cultura, tendo logo reconhecido a Ana Margarida de Carvalho, o Prof. Helder Macedo e um brasileiro cuja cara me era familiar: Eric Nepomuceno. Com tanto nervosismo acabei mesmo por “pisar” a Ana Margarida que estava aleijada num pé e tinha umas muletas. O seu sorriso foi um alívio do sucesso das minhas desculpas.
Finalmente começam a surgir no fundo do longo corredor os artistas.
Primeiro a cantora, com grande ovação. Efetivamente a Cristina Branco é uma simpatia. E merecidamente recebeu os parabéns efusivos de Eric, acabando-me também por atingir no meu orgulho de lusitano. Cantar Chico Buarque em tom lisboeta era obra mesmo!
Chegam depois os músicos. Vejo a oportunidade e avanço rápido para o Mário.
O sorriso dele era diferente das gargalhadas efusivas do irmão.
Identifiquei-me como amigo do Pedro e mostrei-lhe a minha inocência do ato: era a primeira vez na vida que entrava nos bastidores dos artistas.
O sorriso manteve-se mas agora com outro sabor.
Falámos um pouco do que nos unia. Depois passámos para a música. Lembrámos o Cascais Jazz e tirámos a “selfie” para a posteridade.
Retirei-me com um sabor tranquilo e feliz.
Sentia mesmo vontade de pular como um garoto e abraçar toda a gente. Ainda tive tempo de agradecer à assessora da Dra. Alcina e zarpei para a Covilhã.
Pelo caminho fomos a cantar a música “Tanto Mar” e sentir a réstia da alegria do espetáculo.
Mas ainda no carro olhei para trás, através do espelho retrovisor, e fiquei fascinado com as estrelas a brilhar na cidade do Fundão.
Que venham mais assim!
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António José Alçada

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